Hidrosofia: a sabedoria da água como ética para um novo tempo

Por Marcus Tavares

Em um cenário global marcado por mudanças climáticas, eventos extremos e desafios crescentes no acesso à água, compreender o papel desse elemento na vida humana tornou-se uma tarefa essencial para educadores, estudantes e para a sociedade como um todo. Mais do que um recurso natural, a água atravessa a história das civilizações, estrutura culturas e sustenta os ecossistemas que garantem a vida no planeta.

É a partir dessa perspectiva que o autor Maurício Andrés Ribeiro apresenta o conceito de “hidrosofia”, uma proposta que convida o leitor a ampliar o olhar sobre a água, integrando conhecimento científico, reflexão ética e sensibilidade cultural. Organizado de forma transdisciplinar, o livro Hidrosofia (Inmensa Editorial) dialoga com áreas como educação, artes, filosofia e políticas ambientais, estimulando uma leitura que ultrapassa dados e estatísticas para alcançar uma compreensão mais profunda da relação entre humanidade e natureza.

O livro será lançado em março, mas já pode ser adquirido pelo contato abaixo
inmensaeditorial@gmail.com

Nesta entrevista à revistapontocom, o autor compartilha os caminhos que o levaram a desenvolver o conceito, reflete sobre o papel da educação na formação de uma consciência hídrica e aponta por que reconhecer a água como parte de quem somos pode ser um passo decisivo para a construção de um futuro mais sustentável.

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom – O que motivou a criação do conceito de hidrosofia?
Maurício Andrés Ribeiro
– A Hidrosofia é um termo que ainda não está nos dicionários, mas que pulsa em seu significado: é o saber sobre a água. “Hidro”, do grego, para água. “Sofia”, para sabedoria. É um chamado para ir além do racionalismo puro. Não se trata de substituir a Hidrologia — a ciência que estuda as águas —, mas de complementá-la. Enquanto a Hidrologia nos dá os dados, as medições, os modelos matemáticos, a Hidrosofia nos convida a olhar para a nossa relação com essa substância. A motivação para criar o conceito surgiu da percepção de que a água, além de um recurso econômico, é uma riqueza e um patrimônio que precisam ser cuidados e protegidos. É uma força que estrutura civilizações, molda culturas e inspira pensamentos e emoções.

revistapontocom – Qual é a proposta então do livro?
Maurício Andrés Ribeiro –
O livro se propõe a mergulhar na essência da água para além de sua dimensão física. Organizada em cinco partes, a obra oferece uma visão integral sobre o elemento que é fonte de vida, cultura e inspiração. O neologismo orienta a estrutura ao integrar artes, ciências, cultura, filosofia, tradições de sabedoria, ética, arquitetura, ambiente construído e educação. Hidrosofia é uma obra transdisciplinar que apresenta a água não como um tema setorial, mas como elemento central da existência humana e planetária. Seu objetivo é transcender a visão utilitarista e convidar o leitor a transformar sua relação com esse elemento vital.

revistapontocom – Em que momento a água deixou de ser apenas um objeto de estudo ambiental e passou a se tornar um tema de reflexão filosófica em sua trajetória?
Maurício Andrés Ribeiro –
Em 1974, realizei um audiovisual intitulado Lama, que mostrava a evolução da vida vegetal, animal e humana a partir do barro, com trilha sonora de canto gregoriano. Ali já estava presente a intuição do caráter sagrado da água, da vida e da evolução. Naquela década, estudei na Índia e mergulhei em uma civilização que sacraliza a água, os animais e os vegetais. Os povos originários sempre enxergaram os rios como entes vivos e sagrados. Essa compreensão se fortaleceu quando percebi que os dados técnicos e os relatórios ambientais, embora essenciais, não capturam a dimensão simbólica, histórica e relacional da água.

revistapontocom – Quais áreas do conhecimento mais contribuíram para ampliar sua compreensão sobre o papel da água na sociedade contemporânea?
Maurício Andrés Ribeiro –
A perspectiva integral da ecologia, da educação, da história e da hidrologia foi fundamental. O direito ambiental, a política ambiental, a engenharia ambiental e a educação ambiental também ampliaram essa consciência. Combinadas, essas áreas permitiram compreender a água como elemento cultural e espiritual, como direito, como fator de poder e como entidade com valor intrínseco, para além de sua utilidade humana. As artes — música, poesia, literatura, dança, arquitetura, artes visuais, fotografia, teatro e cinema — também têm um papel decisivo pelo seu forte poder de sensibilização.

revistapontocom – Diante da crise climática e dos conflitos em torno dos recursos hídricos, que postura a sociedade precisa adotar em relação à água?
Maurício Andrés Ribeiro
– A água é uma das substâncias mais sensíveis às mudanças de temperatura. Secas, incêndios, enchentes e furacões estão diretamente associados à sua falta ou excesso. É preciso colocar a água no centro das políticas públicas, das profissões e das disciplinas acadêmicas. A proposta da Hidrosofia é uma mudança para uma visão hidrocêntrica, em que reconhecemos que somos parte do ciclo hidrológico, e não seus donos. Isso implica adotar uma ética de cuidado, de uso responsável e de governança compartilhada, priorizando o acesso equitativo e a saúde hídrica.

revistapontocom – Neste cenário, a água deve ser tratada como bem público estratégico ou como ativo econômico?
Maurício Andrés Ribeiro –
A água deve ser tratada como um bem público comum, um patrimônio e uma riqueza que precisam ser protegidos. Seu valor econômico pode ser reconhecido, desde que a prioridade seja manter seu bom estado ecológico. Reduzi-la a uma commodity sujeita à mercantilização pura coloca em risco a vida e aprofunda desigualdades.

revistapontocom – Qual é o papel da educação na formação de uma consciência crítica sobre o uso e a preservação da água?
Maurício Andrés Ribeiro –
A educação e a cultura são a base de uma transformação da consciência necessária para a evolução humana. Elas devem promover a alfabetização hídrica, ajudando a compreender ciclos, usos e conflitos, além de dissolver a hidroalienação. Ao mesmo tempo, precisam cultivar uma sensibilidade ética e uma conexão emocional com a água, formando cidadãos cuidadores. Na prática, isso significa perceber que nós somos água – que os rios e os corpos d’água são extensões daquilo que somos.

revistapontocom – O Brasil corre o risco de subestimar a importância ambiental e política da água por sua aparente abundância hídrica?
Maurício Andrés Ribeiro
– Essa percepção da abundância é um equívoco. Muitas regiões já vivem situações de escassez, estresse e insegurança hídrica, inclusive na Amazônia, onde secas periódicas têm se intensificado. A ilusão de inesgotabilidade leva ao desperdício, à degradação e à negligência. A história mostra que sociedades colapsaram ao adiar a gestão prudente da água. Não podemos repetir esse erro se quisermos construir uma civilização mais amigável com a vida.

revistapontocom – Que leitura o senhor espera que os leitores façam de Hidrosofia?
Maurício Andrés Ribeiro
– Espero uma leitura ao mesmo tempo intelectual e sensível, que vá além do acúmulo de informações e leve o leitor a repensar suas ações diárias e sua visão de mundo. Que o livro funcione como um convite a um novo pacto e a uma relação mais amigável com a água.

revistapontocom – Este novo livro dialoga diretamente com o livro anterior ‘A Água Fala’?
Maurício Andrés Ribeiro
– Sim, dialoga diretamente. A Água Fala foi um livro ilustrado feito em parceria com minha esposa e minha mãe, um convite para ouvir a voz da água em suas viagens pelo cosmos, pelo planeta e pelo interior dos nossos corpos. Hidrosofia dá um passo adiante ao propor um quadro conceitual para transformar essa escuta em ética e sabedoria orientadas pela água. Ambos são dedicados aos meus netos e à sua geração, que viverá em um tempo em que saber se relacionar com a água será crucial.

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