Ale Santos critica a falta de espaço para escritores negros brasileiros na ficção e na fantasia

Entrevista com o escritor de ficção afrofuturista e pesquisador Ale Santos.

Por Marcus Tavares

Quando se fala em identidade, cultura e literatura no Brasil, o debate ainda é marcado por limites claros — especialmente para escritores negros. Embora reconheça avanços no reconhecimento de autores negros e indígenas, o escritor de ficção afrofuturista e pesquisador Ale Santos chama atenção para o tipo de histórias que continuam predominando no mercado editorial. “Quando a gente vai falar de gênero literário, predominantemente, essas narrativas são narrativas que eu chamo de ‘sobrevivência’”, afirma.

Para Ale Santos, esse recorte reduz o espaço da imaginação e empurra autores negros para narrativas excessivamente ligadas ao passado, à pesquisa histórica e ao realismo. “Precisamos caminhar para narrativas de ficção e fantasia, que no Brasil são muito relegadas”, diz. Em conversa com a revistapontocom, ele analisa as lacunas da educação formal, o papel da cultura pop na construção do pertencimento, os riscos da diversidade virar apenas nicho de mercado e os obstáculos enfrentados por quem tenta produzir ficção científica, fantasia e narrativas de imaginário no país.

Ale Santos e o espaço para escritores negros. Ale analisa identidade, cultura pop, educação e mercado editorial.

Acompanhe:

revistapontocom – Você costuma afirmar que as histórias que contamos moldam a forma como enxergamos o mundo. Que narrativas ainda predominam no Brasil quando falamos de identidade e cultura?
Ale Santos –
Tem duas dimensões essa pergunta. O Brasil está evoluindo lentamente, mas evoluindo no processo de identidades negras e indígenas. Temos muitos autores negros e indígenas que começam a chegar em lugares de relevância. Porém, quando a gente vai falar de gênero literário, a gente está falando que, predominantemente, essas narrativas são narrativas que eu chamo de ‘sobrevivência’. São narrativas de história, são narrativas realistas, são narrativas que contam muito sobre o passado, narrativas que carregam esse viés de pesquisa de ciência social muito forte. Precisamos caminhar para narrativas de ficção e fantasia, que no Brasil são muito relegadas. Eu até chamo de ‘o primo das narrativas negras brasileiras’, porque talvez você tenha até mais espaço para contar uma narrativa negra do que para produzir uma ficção especulativa numa grande editora. Principalmente com a ficção especulativa criada por autores negros. Dá para contar nos dedos quantos ficcionistas negros de fantasia e de ficção científica estão atualmente nas grandes editoras.

revistapontocom – Que lacunas você identifica na forma como a história e as culturas de matriz africana são apresentadas nos espaços educativos e nos meios de comunicação?
Ale Santos –
Acredito que isso ocorre, em parte, pelo fato de a literatura ser entendida apenas como educação, sendo que ela também é entretenimento. E o entretenimento também pode ser útil para educadores. Por conta disso, temos um buraco muito grande na literatura brasileira, principalmente a literatura negra, que, em grandes editoras, os grandes autores ou escrevem para crianças, dos 8 aos 10 anos de idade, ou dão um salto e escrevem para adultos acima dos 20 anos. Temos um perfil de jovens adultos, de adolescentes que estão entre 12 e 18 anos de idade, que raramente encontram produção literária que faça sentido. Há um buraco muito grande As pessoas querem que esses jovens leiam os livros de adultos para aprender sobre história, para aprender algo da sua narrativa. Se isso não acontece, eles ficam à deriva, sem ter um referencial literário, e isso acaba empurrando a maior parte desses jovens para a literatura estrangeira, porque é lá que eles vão encontrar bruxos, magos, guerreiros, aventureiros, exploradores do espaço, todo esse tipo de coisa, todo esse tipo de personagens que eles conectam na adolescência, que transformam ele em nerds sedentos por conhecimento, literatura e livro. Então esse público acaba sendo desprezado ou não observado pela literatura. E, ocasionalmente, pelos educadores que não enxergaram essa literatura de entretenimento como potencial para trabalhar a educação também.

revistapontocom – Como a cultura pop — dos quadrinhos ao cinema e aos games — pode ser uma porta de entrada para debates mais profundos sobre ancestralidade e pertencimento?
Ale Santos –
Uma das características da cultura pop é que ela é essencialmente sobre tribos de pertencimento. É sobre nerds, otakus, geeks, gamers, é sobre pessoas RPGistas que gostam de fantasia, é sobre clubes de terror. Então, o pertencimento é inerente à cultura pop. A cultura de super-heróis, de se sentir fã de um super-herói já carrega pertencimento. E super-heróis como Pantera Negra e Super-Choque já mostram que o pertencimento gerado através dessas figuras, desses ícones pop, já são pertencimentos ligados à ancestralidade e à historiografia. A história do Pantera Negra como um todo promove um pertencimento de culturas africanas em diáspora, virou símbolo de pertencimento e orgulho dessas culturas e virou debate sobre a falta dessas culturas no resto do Ocidente. Então, naturalmente, a cultura pop é sobre isso. Ela se populariza porque ela promove esse pertencimento num outro nível, numa outra dimensão, que não necessariamente é o pertencimento baseado na sua realidade, mas o pertencimento a um símbolo, que é uma lente para você olhar para a realidade.

revistapontocom – Representatividade, parece ser, um conceito em disputa. Na sua visão, o que diferencia presença simbólica de participação real nos processos de criação cultural?
Ale Santos
– A representatividade deixou de apenas ser uma disputa política. Tornou-se um nicho de mercado, porque as pessoas que buscam representatividade acabam recebendo os produtos de entretenimento que são criados para esse nicho. A grande questão é que temos que nos colocar novamente. A disputa política é sobre presença de novas pessoas, sobre mudar a estrutura, sobre transformar a sociedade para que ela aceite não apenas a narrativa negra como nicho, mas a intelectualidade negra como produtora de narrativa. O afrofuturismo, por exemplo, é um movimento político neste sentido. Não é só sobre escrever personagens negros e vender eles. É sobre a presença dos escritores negros nas editoras, no cinema, na televisão, nos quadrinhos. Essa é a verdadeira diferença para mim. A representatividade não deve ser apenas um nicho de mercado, de marketing. Deve buscar uma transformação real nas estruturas que desenvolvem o mercado, que desenvolvem o entretenimento, que desenvolvem a educação, para ter a presença de mais intelectualidade negra como produtora disso.

Confira aqui o TED com Ale Santos

revistapontocom – Que papel a linguagem visual e as narrativas fantásticas desempenham na reconstrução de imaginários sobre o povo negro e a diáspora africana?
Ale Santos –
As linguagens visuais são responsáveis pela propagação da ficção científica no último século. A ficção científica sempre foi produzida em literatura, mas principalmente nos Estados Unidos e no Japão, através de histórias em quadrinhos, mangás, animes e cinema. A ficção se massificou e se popularizou. Muita gente não leu o Fahrenheit, mas assistiu ao Robocop, o Independence Day. Assistiu a Akira, assistiu ao Ghost in the Shell. Leu alguns desses animes e mangás. Então, a linguagem visual é hoje um dos pilares da produção de ficção científica no mundo, responsável pela popularização, tanto pelo cinema quanto pelas histórias em quadrinhos. Elas realmente ajudam a consolidar o imaginário estético daquele pensamento, movimento que estamos tentando construir.

revistapontocom – A escola ainda privilegia uma leitura eurocêntrica da história e da literatura? Como isso pode ser transformado na prática pedagógica?
Ale Santos –
A única forma de mudar isso é através do incentivo do próprio governo, dos editais e das leis como a Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) para comprar os livros que devem favorecer a literatura brasileira. E aqui eu alerto novamente para a literatura fantástica brasileira, porque os adolescentes e os jovens precisam receber os livros dos super-heróis, do imaginário, das aventuras, da fantasia nacional. Se a escola não oferece isso para eles, só fica oferecendo livros de história, o que vai acontecer é que eles vão chegar em casa, vão comprar animais, vão comprar mangás, vão comprar Harry Potter, vão buscar a fantasia que é oferecida pela propaganda, pelo mercado, pelos algoritmos para eles. Então a escola também tem que ser uma entrada, não só para o pensamento educacional, mas para o pensamento mágico, de imaginário criativo brasileiro.

revistapontocom – De que maneira as novas gerações estão ressignificando as heranças culturais que recebem?
Ale Santos
– Sinto que temos hoje uma interferência muito grande das mídias digitais, das redes sociais. Uma interferência grande de como as novas gerações ressignificam o mundo, não apenas as heranças necessárias culturais, mas como elas ressignificam o mundo. Acredito que é complexo imaginar como elas estão lidando com essas questões. E, para ser muito sincero, me pergunto o quanto essas questões chegam para eles ou se tornam relevantes para eles no meio de todo esse processo de digitalização que bagunça mesmo a sua noção de imagem, autoestima, comparação.

revistapontocom – Há o risco de a pauta da diversidade ser absorvida pelo mercado sem produzir mudanças estruturais?
Ale Santos –
Hollywood, por exemplo, usa muita pauta racial para gerar hype no mercado. Troca um personagem porque sabe que isso vai ser tão falado, tão polêmico, que talvez até impulsione o marketing do filme. Hollywood já fez isso com muitas obras, muitas que deram errado, outras que estão para vir aqui ainda porque eu sinto que tem esse nicho de que as pessoas, não só as pessoas negras, mas muitas pessoas brancas, conscientes lidam com esse fato de que a diversidade é legal que não é legal ficar assistindo ou consumindo algo exclusivamente branco eurocêntrico e tal então isso sim virou um mercado importante, relevante para os consumidores. Acredito que temos que entender isso como produtor também, como criador de conteúdo, para que a gente ‘puxe’ as orelhas da indústria mesmo, quando a gente virar os contratos, para que não seja só uma representatividade virtual, para que ela simbolize mudança estrutural mesmo

revistapontocom – Como você enxerga o papel do jornalismo cultural na ampliação dessas vozes e narrativas?
Ale Santos –
É essencial. O jornalismo cultural talvez seja o único capaz de se aprofundar verdadeiramente em movimentos que ainda estão emergentes na sociedade, que não são hegemônicos, porque tem esse interesse real em promoção das narrativas culturais. O jornalismo tradicional vai querer falar do que é quente, do que está no hype exatamente, e muitas vezes está muito alinhado com essa noção de viralização das redes sociais. Então, para mim, o jornalismo cultural é onde eu posso ter conversas que são mais profundas e que os outros veículos não conseguiriam atingir, porque eles estão sempre balizando as suas narrativas para as grandes histórias do momento.

revistapontocom – Que referências teóricas, literárias ou artísticas ajudam a sustentar o seu trabalho e suas reflexões?
Ale Santos –
As minhas referências são inúmeras, não só apenas da literatura, não. Sou um autor de inúmeras referências que vão muito de poetas. Eu gosto muito do modernismo brasileiro. Acho que a ficção que eu faço está muito alinhada com as intenções modernistas e tal. Legal.

revistapontocom – No cenário atual, quais são os principais desafios para quem produz conteúdo voltado à valorização da cultura negra no Brasil?
Ale Santos –
O grande pilar desafio ainda é distribuição. A maior parte, vamos falar da produção de ficção especulativa brasileira, a maior parte dela é independente, então é aquele autor que ou ganha edital, ou produz, ou paga a sua própria produção, e coloca o livro nas costas e tenta distribuir no país inteiro, por sua própria conta. As grandes editoras distribuem os livros mais vendidos no país. Hoje, por exemplo, são livros de colorir. Então elas seguem tendências de mercado. Isso significa que nem sempre elas vão abrir oportunidades para que autores novos surjam e construam carreira. Existe uma diferença entre ter um livro e construir uma carreira nacional. É um problema de distribuição, de acesso à máquina de distribuição do mercado literário.

revistapontocom – Que caminhos você vislumbra para que essas discussões avancem nos próximos anos, especialmente no campo da educação e da comunicação?
Ale Santos
– O principal entendimento que precisa avançar é o entendimento dos jovens sobre o poder do entretenimento, o que é muito desprezado por intelectuais até progressistas brasileiros, que consideram todos os eventos literários e todos os espaços de literatura um espaço de não entretenimento. É preciso abrir um espaço onde aquela narrativa feita para jovens sonharem, para imaginar, para deixar de apenas aprender sobre sobrevivência e aprender sobre imaginar o seu próprio futuro. Esses espaços precisam se encontrar. Precisamos caminhar para esse entendimento de que, sim, essas narrativas são tão poderosas quanto literatura educativa.

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