Por Marcus Tavares

A mesa de abertura do seminário “Caminhos da Água”, realizada no Museu do Amanhã, trouxe para o centro do debate a relação entre saneamento, educação e desenvolvimento econômico, evidenciando os desafios estruturais do país no acesso à água e ao esgoto tratado. Mediado pela jornalista Miriam Leitão, o painel reuniu representantes do setor público e da iniciativa privada.
Ao iniciar a mesa, Miriam Leitão conectou o tema da água a uma dimensão global e existencial, destacando sua centralidade para a vida: “Os pesquisadores da NASA sempre estão à procura desesperada por informação. Qual a informação que as sondas buscam? Vestígios de água em outros planetas. Porque se há algum vestígio, ou se há um sinal de que em algum momento houve água naquele planeta, a informação é: houve vida. Então, se há algum sinal de que possa haver água, quem sabe pode ser um planeta para o qual a gente fuja quando a gente acabar de destruir esse. Então a água é a mãe da vida e é a mãe da vida que a gente conversa hoje. […] O Brasil é o país que tem mais água de superfície no mundo, tem 13% da água do mundo. E por que nós vivemos falando em falência hídrica? É porque nós temos maltratado os rios.”, disparou.
A jornalista também destacou o papel da educação e dos professores nesse processo de transformação, reforçando a importância do debate para além da infraestrutura.

Representando o BNDES, a Diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática, do BNDES, Luciana Costa abordou o novo marco do saneamento e os desafios de financiamento no país, ressaltando a necessidade de articulação entre diferentes setores. Ela disse que, desde 2020, com o novo marco do saneamento, foram criadas as condições econômicas para que o país pudesse canalizar investimento para esgoto e água.
“[…] A meta é que até 2033, 99% da população brasileira tenha acesso à água potável e 90% ao esgoto tratado. […] O investimento em saneamento é de longo prazo, exige capital do BNDES, mas a gente também entende que o nosso balanço sozinho não vai ter condições de mobilizar todo o capital que o país precisa, que é estimado entre R$ 800 bilhões e R$ 1 trilhão. Então a gente precisa de mercado de capitais, de bancos, de players privados e do setor público induzindo.”
Ela também destacou o papel do banco na estruturação de projetos e na atração de investidores:
“Quando o BNDES entra num projeto, o banco é um selo de qualidade e a gente ajuda que o mercado de capitais venha, que bancos privados venham. […] A agenda da transformação ecológica, da preservação dos recursos naturais, é sobretudo uma agenda de desenvolvimento econômico, porque gera emprego, gera renda e leva dignidade para a população.”

Já o presidente da Águas do Rio, Anselmo Seto Leal, trouxe exemplos concretos do impacto do saneamento no cotidiano da população, especialmente em áreas vulneráveis:
“Na Mangueira, o absenteísmo escolar caiu em 45%. Absenteísmo é quando a criança falta mais de dois dias por semana na escola. Na Barreira do Vasco, 25%. Então a gente vê que agora a criança pode ir mais na escola, seja porque a mãe ou o pai não precisam mais esperar em casa o dia que a água cai, seja porque a criança não pisa mais no esgoto e fica doente.”
Segundo ele, o saneamento produz um ambiente de prosperidade compartilhada, mas que precisa ainda ser ampliado. De acordo com Anselmo, ainda existem um milhão de fluminenses que não têm água dentro de casa, que tomam banho de caneca. Em comunidades como a Maré, famílias convivem com esgoto dentro de casa. O nosso desafio é levar infraestrutura principalmente para aqueles que foram alijados do serviço no passado.”
Ao final, o executivo reforçou a importância da educação e da mudança de comportamento: “Se a gente não falar sobre saneamento dentro de casa, para as crianças, uma família não se reestrutura. […] O problema do esgoto, na média, as pessoas só veem quando pisam, quando cheiram. Se ele saiu da sua frente, ele passa a ser problema de outro. Enquanto a gente não tiver consciência de que, como sociedade, tem que resolver isso, a gente vai continuar vivendo essas crises.”
A mesa evidenciou que o saneamento básico não se limita à infraestrutura, mas está diretamente ligado à educação, à saúde e ao desenvolvimento econômico, exigindo investimentos, políticas públicas consistentes e engajamento social.



