Saneamento, Educação e Saúde

Por Marcus Tavares

Na segunda mesa do seminário “Caminhos da Água”, realizado no Museu do Amanhã, o debate aprofundou a relação entre saneamento básico, saúde pública e educação, evidenciando como a ausência de infraestrutura impacta diretamente o cotidiano das populações, especialmente nas áreas mais vulneráveis. Mediado pela jornalista Sarah Cozzolino, o painel reuniu especialistas que trouxeram diferentes perspectivas sobre o tema, articulando dados clínicos, experiências de campo e políticas públicas.

A partir da dimensão da saúde, o médico Luis Fernando Correia destacou que os impactos do saneamento vão muito além das chamadas doenças de veiculação hídrica, alcançando aspectos menos visíveis, mas igualmente críticos:

“No Brasil, a gente vive no Rio de Janeiro, por exemplo, uma doença de transmissão hídrica que tem a ver com limpeza também, que é a leptospirose, que é muito importante. Ela vai acontecer onde acontecem as enchentes, os deslizamentos, o escorrimento de água e de lodo. Mas mais do que as doenças de transmissão hídrica, me chama a atenção que a gente diminui a transmissão de doença respiratória quando lava a mão. Vimos isso durante a Covid. Nos locais onde você tinha água para lavar a mão, você tinha menos transmissão, porque você não se contamina e não leva a mão ao rosto. Um dos pontos ressaltados hoje pela OMS é que saneamento e higiene das mãos têm a ver com água potável, água limpa. Ao mesmo tempo, se você não tem nada disso, você espalha bactérias multirresistentes pela sociedade. A OMS classifica isso como um desafio da saúde mundial. Se não temos saneamento, essas bactérias deixam de ser intra-hospitalares e passam a circular na comunidade. Então vai muito além daquele conceito clássico de doença. Claro que diarreia, cólera e outras são importantes numericamente, mas tem esse outro impacto que muitas vezes não é comentado. E quando você traduz isso para a economia, você tem menos internação, menos gasto no sistema de saúde, aumento de produtividade pela diminuição do absenteísmo. É daí que vem aquela conta da OMS de quatro dólares de retorno para cada dólar investido, podendo chegar a sete dólares em áreas mais críticas.”

A fala reforçou o entendimento de que o saneamento deve ser tratado como uma política estruturante de saúde pública, com efeitos diretos na prevenção de doenças e na sustentabilidade dos sistemas de saúde.

Na interface com a educação, a Subsecretária de Inovação e Projetos Estratégicos, da Secretaria Municipal de Educação do Rio, Ana Paula Massonetto destacou o papel estratégico das escolas na implementação de ações concretas e na formação de uma cultura de cuidado com o meio ambiente e com a água:

“Esse Rio é Meu é uma das principais iniciativas que está trazendo efetividade para essas ações de desenvolvimento sustentável. Para a gente, é uma parceria estratégica. Hoje a rede municipal atende desde a creche até o nono ano, com 1.558 escolas, e o programa está em todas elas, com alcance de mais de 600 mil famílias. Uma das principais características do programa, e por isso ele dá tão certo, é a escuta ativa e o engajamento. Ele parte da escuta das escolas, está integrado às políticas públicas da rede e ao projeto pedagógico de cada unidade, e trabalha com a resolução de problemas reais. Está alinhado ao nosso modelo de ensino integral inovador, com educação mão na massa, protagonismo do aluno, uso adequado da tecnologia e abordagem interdisciplinar, envolvendo ciência, tecnologia, artes, engenharia e matemática. As escolas recebem formação, desenvolvem ações de conscientização da comunidade, de prevenção e de recuperação do meio ambiente, a partir de um mapa georreferenciado. O impacto para a gente é enorme e totalmente integrado às nossas metas e estratégias.”

Já o presidente do Instituto Instituto Aegea, Edson Carlos, trouxe uma leitura a partir da experiência em campo, destacando como a ausência de saneamento revela e aprofunda desigualdades históricas no país:

“Quando a gente fala de não ter saneamento básico, esse brasileiro que não tem saneamento tem rosto: é o mais pobre, é uma população majoritariamente negra, são famílias lideradas por mulheres. Isso acentua a desigualdade. Eu passei 11 anos no Trata Brasil andando o país e conheci um Brasil que eu não sabia que existia. Em Manaus, por exemplo, visitei palafitas onde pessoas de 60 anos nunca tinham tomado água potável na vida e há mais de 20 anos não recebiam um parente em casa, de vergonha das condições em que viviam. Quando você leva saneamento, você não está só levando infraestrutura, você está resgatando dignidade. A pessoa volta a receber os filhos, os netos, retoma o convívio familiar. Isso é muito mais do que obra, é reconstrução de cidadania.”

Ao ampliar o olhar para além da infraestrutura, ele também destacou os desafios nas escolas e a necessidade de ações complementares: “Eu visitei muitas escolas que não tinham banheiro. Não adianta ter rede se não tem banheiro. Crianças tinham que andar 500 metros, um quilômetro, para ir a um buraco no chão, e isso gera outros problemas, como vergonha, evasão e até risco de violência. Então, o saneamento resolve muita coisa, mas não resolve tudo sozinho. Por isso, o Instituto Aegea também atua em outras frentes, como a reforma de escolas. Estamos reformando unidades no semiárido com o Unicef e vamos reformar 320 escolas no Alto Marajó, uma das regiões mais vulneráveis do Brasil. O país precisa disso e tudo que a gente fizer ainda é pouco.”

Ao longo da mesa, ficou evidente que o saneamento básico deve ser compreendido como uma política integrada, que articula saúde, educação e desenvolvimento social. Mais do que garantir acesso à água e ao esgoto tratado, trata-se de enfrentar desigualdades estruturais e promover dignidade — um desafio que, como ressaltaram os participantes, exige investimento, políticas públicas consistentes e engajamento coletivo.

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