Rios invisíveis, consciência visível: o desafio ambiental nas escolas de São João de Meriti

Entrevista com a secretária de Educação, Eneila Maria Feitosa Lucas Corrêa.

Por Marcus Tavares

Secretária de Educação destaca protagonismo juvenil e investe no programa Esse Rio é Meu como ferramenta de transformação social nas escolas de São João de Meriti

Em uma das cidades mais densamente povoadas da Baixada Fluminense, onde muitos rios estão canalizados ou escondidos sob o concreto, a educação ambiental surge como estratégia para ressignificar o território e fortalecer o sentimento de pertencimento dos estudantes nas escolas de São João de Meriti. A chegada do programa Esse Rio é Meu é vista como uma oportunidade de tornar visível o que, por anos, permaneceu esquecido — e de transformar a relação dos jovens com o espaço onde vivem.

Em entrevista em formato pingue-pongue à revistapontocom, a secretária municipal de Educação, Ciência e Tecnologia, Eneila Maria Feitosa Lucas Corrêa, afirma que o desafio é mudar a percepção dos rios urbanos, frequentemente associados à degradação, e compreendê-los como elementos fundamentais para o planejamento urbano e a saúde ambiental. “É preciso transformar o ‘concreto’ em elemento educacional e tornar o invisível em visível”, resume.

Ao longo da conversa, a secretária destaca o papel do professor como agente mobilizador no território, a importância do protagonismo juvenil e a expectativa de que o projeto amplie o engajamento escolar, contribua para reduzir a evasão e ajude a formar cidadãos mais conscientes e comprometidos com o futuro da cidade.

Eneila Maria Feitosa Lucas Corrêa é mestranda em Educação, graduada em Língua Portuguesa e Literaturas e professora efetiva das redes municipal e estadual do Rio de Janeiro. Possui especializações em Gestão Pública Educacional, Gestão Democrática (UFRJ), Linguística Aplicada, Inspeção Escolar, Escola de Gestores (UFRJ) e Programas e Projetos Federais (MEC). Já foi secretária de Educação em Belford Roxo e em São João de Meriti, além de subsecretária estadual de Trabalho e Renda do Rio de Janeiro. Atuou como diretora escolar, coordenadora de educação pública, assessora técnica da SEEDUC-RJ e coordenadora da Faculdade FABEL.

A Prefeitura de São João de Meriti e a OSCIP planetapontocom assinaram, no dia 9 de fevereiro, termo de cooperação técnica que marcou a chegada do programa Esse Rio é Meu ao município. A iniciativa, realizada com o patrocínio da concessionária Águas do Rio, tem como objetivo engajar escolas públicas na recuperação e preservação dos rios que cortam a cidade, integrando educação ambiental, participação comunitária e cuidado com os recursos hídricos. Clique aqui e saiba mais

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom – Em uma cidade com alta densidade populacional e poucos espaços verdes, como trabalhar a percepção dos estudantes sobre rios que muitas vezes estão canalizados ou invisíveis?
Eneila Maria Feitosa Lucas Corrêa
– Em um município com as características de SJM é fundamental transformar o “concreto” em um elemento educacional, tornando o invisível em visível.  Assim, acreditamos na importância de transformar a percepção do rio de esgoto a céu aberto, feio, fétido, insalubre e morto em um elemento vivo, fundamental para o planejamento urbano e para a saúde ambiental.

revistapontocom – O programa pode contribuir para uma nova relação dos jovens com o território, especialmente em áreas urbanizadas?
Eneila Maria Feitosa Lucas Corrêa
– Sim! Pode contribuir e muito.  Acreditamos na capacidade de mobilização e engajamento dos jovens e este engajamento é fundamental para transformar a sua relação com o território e assim contribuir na mudança e no cenário ambiental. No geral, os jovens devidamente orientados e estimulados tendem a se destacar, especialmente, no que se refere a disseminação de informações.

revistapontocom – A rede municipal enfrenta desafios estruturais históricos. De que forma projetos como o Esse Rio é Meu contribuem para ampliar repertório e perspectiva de futuro dos alunos?
Eneila Maria Feitosa Lucas Corrêa
– São inúmeros os desafios. O projeto tem tudo para colaborar para identificar os problemas e os desafios locais e assim contribuir para garantir equidade e qualidade educativa para todos, bem como auxiliar os alunos para atuarem como agentes de transformação.

revistapontocom – Como o programa Esse Rio é Meu vai dialogar com as diretrizes da rede municipal de ensino?
Eneila Maria Feitosa Lucas Corrêa –
As diretrizes têm como pressuposto que a educação é um meio de transformação da realidade, visando superar desigualdades e diferenças que levem a processos de exclusão. Deste modo, um projeto que tem como características aspectos como o cuidar, o educar, o território, a comunidade, o pertencimento e as ações intersetoriais têm tudo para contribuir com o trabalho realizado na nossa rede.

revistapontocom – De que forma a educação ambiental já vinha sendo trabalhada nas escolas e o que muda com a chegada do programa?
Eneila Maria Feitosa Lucas Corrêa
– Defendemos a premissa de que a educação ambiental não deve ser vista apenas como uma ação pontual, mas sim como uma prática contínua e sistemática. Por isso procuramos investir na formação dos educadores para que a temática seja incorporada de forma efetiva na rotina escolar. Investimos também em livros sobre o meio ambiente. Também incluímos o tema na grade curricular pois acreditamos na importância de os alunos serem conscientizados desde cedo sobre a gestão adequada dos resíduos sólidos e das práticas sustentáveis. Além disso, incentivamos que as escolas desenvolvam projetos e atividades que estimulem a participação dos estudantes: separação e destinação correta dos resíduos gerados na escola; coleta de óleo; criação de horta; reciclagem de materiais; participação na olimpíada de eficiência energética etc. Também promovemos passeios pedagógicos com foco no meio ambiente.  Para este ano também estamos organizando uma grande gincana com o olhar voltado para o meio ambiente aliado a qualidade de vida e uma campanha de conscientização para toda comunidade escolar com foco na adoção de práticas sustentáveis. Sem contar nas parcerias com instituições do primeiro, segundo e terceiro setor. O Esse Rio é Meu, com a sua experiência de grande sucesso em outros municípios e consolidado como uma política educacional de grande impacto na educação ambiental e recuperação dos rios, chega em SJM, com absoluta certeza para somar. Estamos muito orgulhosos desta parceria tão valiosa e temos certeza de que será de grande sucesso.

revistapontocom – Como a secretaria avalia o papel do professor como agente mobilizador das questões ambientais no território?
Eneila Maria Feitosa Lucas Corrêa
– Devemos ter em mente que o professor não apenas transmite saber, mas sim atua como orientador, promovendo discussões e estimulando a reflexão sobre questões ambientais, agindo também como um agente de transformação social. Por esta razão estimulamos e valorizamos o educador que integra a temática ambiental de forma interdisciplinar nos mais diversos componentes curriculares e que utiliza o território como recurso didático com foco na preservação, na sustentabilidade e no uso responsável dos recursos naturais.

revistapontocom – O programa propõe que os estudantes desenvolvam ações práticas sobre os rios locais. Como a secretaria enxerga esse protagonismo juvenil?
Eneila Maria Feitosa Lucas Corrêa
– Assumimos e reforçamos o compromisso da rede com a formação cidadã e participativa dos estudantes, preparando-os para serem líderes conscientes, engajados e transformadores da realidade ao seu redor. Por esta razão o protagonismo juvenil é tão valorizado na nossa rede, uma vez que coloca o estudante no centro do processo de ensino e aprendizagem, de forma que ele utilize seus conhecimentos para agir e participar na sociedade, ultrapassando inclusive os muros da escola. 

revistapontocom – Há expectativa de que o projeto contribua para reduzir a evasão ou ampliar o engajamento escolar também?
Eneila Maria Feitosa Lucas Corrêa
– Projetos de educação ambiental contribuem no combate a evasão escolar ao tornar o aprendizado prático, relevante e motivador, aumentando o sentimento de pertencimento do aluno. Iniciativas como “Esse Rio é Meu” transformam a escola em um espaço atrativo e acolhedor, reduzindo o desinteresse, que é uma grande causa do abandono escolar.

revistapontocom – O programa pode fortalecer a identidade dos estudantes com o município? E com a comunidade também?
Eneila Maria Feitosa Lucas Corrêa
– Programa com as características do “Esse Rio é Meu” sem sombra de dúvida promove engajamento comunitário, pertencimento, desenvolvimento pessoal e social dos alunos, e muitas vezes melhorando a qualidade de vida.

revistapontocom – O que a senhora espera do programa Esse Rio é Meu em São João de Meriti?
Eneila Maria Feitosa Lucas Corrêa
– Em São João de Meriti, esperamos que o programa “Esse Rio é Meu” seja mais do que uma iniciativa pedagógica: que seja uma verdadeira semente de transformação. Que ele inspire nossos estudantes a olharem com mais cuidado para o lugar onde vivem, fortalecendo o sentimento de pertencimento, responsabilidade e esperança. Desejamos que o projeto contribua para formar cidadãos sensíveis, conscientes e comprometidos com a preservação do meio ambiente e com a construção de um futuro mais justo e sustentável. Que, por meio de uma abordagem interdisciplinar, nossos alunos compreendam a importância das pequenas e grandes ações e percebam que cada um pode fazer a diferença na sua comunidade.

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