Do laboratório à escola: quando a geografia marinha coloca o oceano no centro da educação

Conheça o Laboratório de Geografia Marinha E Gestão Costeira Integrada, da UFRJ.

Por Marcus Tavares

Geografia marinha: projeto de extensão da UFRJ aproxima estudantes e comunidades dos conhecimentos sobre praias, manguezais, mudanças climáticas e território e mostra que aprender sobre o mar também é aprender sobre o Brasil.

Durante muito tempo, o oceano pareceu estar distante da sala de aula. Embora esteja presente em diferentes áreas do conhecimento, seus processos e sua importância ainda são pouco explorados na Educação Básica. É justamente para aproximar esse universo de crianças e jovens que o Laboratório de Geografia Marinha e Gestão Costeira Integrada, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vem ampliando sua atuação junto às escolas por meio do Projeto de Extensão Mar à Vista.

Flavia Moraes Lins de Barros na foz do rio São Francisco em Sergipe em trabalho de campo em 2024.

Coordenado pela professora Flavia Moraes Lins de Barros, o laboratório reúne uma trajetória de décadas de pesquisas sobre praias, sedimentos, erosão costeira, relevo marinho e gestão das zonas costeiras. Ao longo do tempo, porém, suas pesquisas passaram a incorporar também questões relacionadas ao uso e à ocupação do litoral, aos conflitos existentes nesses territórios, à vulnerabilidade social e aos efeitos das mudanças climáticas. A aproximação com a Educação Básica nasceu desse movimento de levar para fora da universidade conhecimentos produzidos pela pesquisa científica, mas também de trazer para dentro dela os saberes e as experiências das comunidades que vivem nos territórios costeiros.

“Eu acredito que levar esses conhecimentos para a Educação Básica é fundamental atualmente. A gente precisa realmente ampliar a cultura oceânica, ampliar a importância do conhecimento científico voltado para a zona costeira e marinha”, afirma Flavia Moraes Lins de Barros.

A história do laboratório, formalmente criado em 1995 com o nome de Laboratório de Geomorfologia Fluvial, Costeira e Submarina, remonta às décadas de 1970 e 1980, quando alguns pesquisadores da UFRJ começaram a focar seus estudos na interface da terra com o mar e nos oceanos. Naquele período, os estudos relacionados às zonas costeiras e marinhas eram liderados pelo geógrafo Dieter Muehe que buscava compreender a dinâmica física das praias: sua topografia, a influência das ondas e das marés, a movimentação dos sedimentos e as transformações do relevo. Entre os trabalhos pioneiros estavam levantamentos topográficos realizados na Praia de Copacabana e estudos sobre o fundo marinho. A pesquisa também avançou para a compreensão da origem das lagoas costeiras, do transporte de areia e da composição dos sedimentos.

A partir do final dos anos 1980, o conhecimento produzido pelos pesquisadores passou também a dialogar com a formulação de políticas públicas voltadas ao litoral brasileiro. O laboratório participou de discussões relacionadas ao gerenciamento costeiro, ao mapeamento das praias, aos diferentes usos da zona costeira e aos conflitos existentes nesses espaços. A erosão costeira, os riscos e a vulnerabilidade também sempre estiveram entre os temas de investigação.

Mais tarde, especialmente a partir dos anos 2000, o laboratório passou a incorporar de maneira mais abrangente a chamada Geografia Marinha, trocando de nome para Laboratório de Geografia Marinha e Gestão Costeira Integrada em 2003. A mudança ampliou o olhar. As pesquisas continuaram investigando a dinâmica física das praias, mas passaram também a observar as relações entre sociedade, território e ambiente marinho.

Crianças do projeto Flautistas da Marambaia gerido pela Empresa Timbre no sítio Burle Marx identificando lugares no mapa de Barra de Guaratiba para gerar uma cartografia social.

“Ele deixa de ser um laboratório mais da parte física da geografia, que seria essa parte da dinâmica física das praias, da evolução geológica do relevo e das lagunas, e passa a ser um laboratório que continua incorporando toda essa parte da geografia física, da geomorfologia, isso é muito vivo ainda, mas que também se debruça para compreender outras questões voltadas para o que a gente chama de Geografia Marinha mesmo”, explica a pesquisadora.

Uma das linhas de pesquisa que ganhou força foi justamente a investigação da vulnerabilidade costeira e dos riscos associados às transformações das praias. O olhar não se restringe à erosão ou às alterações físicas do litoral. A pesquisa também procura compreender quem vive nesses territórios e quem está mais exposto aos impactos de eventos extremos, como ressacas e inundações litorâneas. “Então a gente trabalha não apenas com a vulnerabilidade física, a erosão costeira, como é que as praias reagem, quais os riscos relacionados a isso, mas também a vulnerabilidade social”, conta Flavia.

A cidade do Rio de Janeiro tornou-se, nesse processo, um importante território de investigação. Quando assumiu a coordenação do laboratório em 2014, Flavia Moraes Lins de Barros percebeu uma lacuna nos estudos sobre as praias urbanas cariocas. “Por incrível que pareça, havia uma grande lacuna de estudos das praias urbanas da cidade do Rio de Janeiro, porque as pessoas que estudavam a dinâmica de praias estavam fugindo dessas praias muito alteradas pela urbanização.”

O laboratório passou, então, a desenvolver pesquisas em praias como Copacabana, Ipanema, Leblon, Arpoador, Barra da Tijuca, São Conrado e Macumba. Em alguns desses locais, são realizados monitoramentos periódicos da faixa de areia, mantendo uma tradição de estudos que remonta às primeiras pesquisas desenvolvidas pelo laboratório.

Foi também a necessidade de compreender melhor o que acontece nas praias que aproximou o laboratório da ciência cidadã e em 2018 é então criado o projeto de extensão Mar à Vista associado ao laboratório. A ideia começou a ser pensada a partir da coleta de informações sobre as condições das praias, como a relação entre ressacas e a largura da faixa de areia e questões relacionadas à poluição. Para isso, os pesquisadores passaram a ouvir também quem vive e trabalha nesses espaços, como guarda-vidas, barraqueiros e outros trabalhadores.

A proposta se aproximou, então, dos princípios da ciência cidadã, em que a população participa da produção de informações que podem contribuir para a pesquisa científica. A pandemia de Covid-19 modificou os caminhos inicialmente imaginados. O projeto ganhou um perfil nas redes sociais para divulgar conhecimentos sobre geografia marinha e geomorfologia costeira e, posteriormente, passou a trabalhar também com uma metodologia de monitoramento participativo das praias por meio de fotografias usando um método internacional chamado CoastSnap.

A proposta, que teve financiamento por meio de editais pela FAPERJ e CNPq, utiliza estações instaladas nas praias. As pessoas que passam pelo local podem fotografar os pontos indicados e enviar as imagens. Essas fotografias são posteriormente processadas e georreferenciadas, permitindo acompanhar mudanças na posição da linha de costa e na largura da faixa de areia.

Equipe do Mar à Vista durante o Bio na Praia no Leme em 2026.

No estado do Rio de Janeiro, o projeto já reúne mais de 1.500 fotografias. Há estações em locais como Prainha e Grumari, na cidade do Rio, além de praias de Cabo Frio, Macaé e Rio das Ostras. O envolvimento da população, nesse caso, transforma uma atividade cotidiana — fotografar uma praia — em uma possibilidade de colaboração com a pesquisa científica. “O que a gente produz em termos de pesquisa é levado para o Mar à Vista e o que a gente aprende com a experiência, com as ações do Mar à Vista também é levado para a nossa pesquisa acadêmica”, resume.

Essa lógica de troca acabou abrindo outra frente de atuação. Se as pessoas poderiam participar da produção de dados sobre as praias, por que não aproximar também as crianças e os jovens dos conhecimentos que estavam sendo produzidos na universidade?

Um dos primeiros trabalhos ocorreu na Escola Municipal Professor Vieira Fazenda, em Barra de Guaratiba, localizada em uma região próxima à Restinga da Marambaia e à Reserva Biológica de Guaratiba, onde existe uma área de manguezal. A aproximação aconteceu a partir da professora Cláudia Ernest Dias, que já desenvolvia com os estudantes atividades que articulavam música, arte e o ecossistema do manguezal.

Foi nesse contexto que Flavia começou a realizar visitas pedagógicas e a conversar com os estudantes sobre temas como poluição, estuários, marés e manguezais. A experiência se ampliou para outras escolas, inclusive em Cabo Frio, unidades do Colégio Pedro II e escolas particulares.

O princípio é levar para as crianças e adolescentes os mesmos conceitos que fazem parte da pesquisa acadêmica, mas por meio de experiências, brincadeiras, jogos, mapas, imagens e atividades práticas. “Os conceitos de estuário, maré, onda, correntes, praias, sedimentos. A gente tem uma coleção de areias que a gente construiu”, explica.

A coleção permite discutir a origem dos sedimentos, os minerais presentes na areia, o tamanho dos grãos e a relação entre essas características e o comportamento das praias. Também é possível mostrar como o tamanho da areia influencia a declividade de uma praia e sua relação com as ondas.

A ciência, nesse processo, também vira jogo. Um dos materiais pedagógicos desenvolvidos pelo projeto é um jogo da memória construído a partir de desenhos feitos por estudantes da Escola Municipal Professor Vieira Fazenda. As imagens representam animais e elementos do manguezal. Mas a proposta vai além de encontrar os pares. Ao acertar uma imagem, a criança recebe também informações relacionadas ao conceito representado.

“Então a ideia é levar esses conceitos de feições costeiras, de laguna, praia, estuário, delta, maré, etc., que são conceitos muito ricos na geografia marinha, assim como também discutir gestão costeira, poluição, impactos, urbanização”, complementa.

Stand do Mar à Vista durante evento de divulgação científica do Parque Natural Municipal da Prainha em 2025.

Outro recurso é um caça-palavras feito com tampinhas recicláveis e elásticos. Mais uma vez, cada palavra encontrada vem acompanhada de um conceito relacionado. Há ainda um jogo de trilha dedicado ao Sistema Costeiro e Marinho do Brasil. A atividade apresenta aos estudantes um Brasil que não termina na faixa continental, mas se estende pelo território marinho.

A chamada Amazônia Azul também entra na brincadeira. Com um grande mapa, os alunos percorrem o território marítimo brasileiro, identificando ilhas, profundidades e diferentes características do espaço oceânico.“Qual é o nosso território nacional para além do território continental? O que a gente tem de Brasil para dentro do mar?”, provoca a professora.

A proposta é trabalhar principalmente com estudantes do quinto ao nono ano, aproximando conceitos científicos de experiências concretas. A experiência do Mar à Vista não se restringe às aulas tradicionais de geografia. O trabalho vem sendo desenvolvido em projetos que articulam ciência, arte, música e conhecimento do território. Entre as iniciativas estão ações no Sítio Burle Marx e em Grumari, projetos que nasceram da experiência na Escola Municipal Professor Vieira Fazenda.

No projeto que ocorre em Grumari, que recebeu o nome de Kurumary e é coordenado pelo BRBio, por exemplo, as crianças participam de atividades artísticas, como artes plásticas, flauta e acrobacia, enquanto também têm contato com conteúdos relacionados ao sistema costeiro e marinho. Mapas são utilizados para identificar elementos do território: o mar, a Mata Atlântica, os pescadores e outros espaços e atividades presentes na região.

A tecnologia também entra em cena. Com o apoio de uma parceria com a empresa HabitatGeo, o projeto utiliza imagens produzidas por drone para observar a paisagem. As fotografias podem posteriormente ser utilizadas em atividades artísticas. No Sítio Burle Marx, coordenado pela Empresa Timbre, a proposta segue uma lógica semelhante, combinando atividades artísticas com conteúdos relacionados ao sistema costeiro e marinho brasileiro e à cultura oceânica.

Na Escola Municipal Isabel Salgado, por sua vez, o trabalho foi estruturado em um programa de sete meses com estudantes do quinto ano. A cada aula, um dos sete princípios da cultura oceânica é trabalhado em diálogo com conceitos da Geografia Marinha. A previsão inclui ainda uma atividade de campo em uma praia da cidade do Rio de Janeiro, com discussões sobre nível do mar e técnicas de mapeamento.

A experiência acumulada nas escolas, nos projetos de extensão e na divulgação científica levou Flavia a organizar o livro “Geografia Marinha e Cultura Oceânica: contribuições da geografia ao ensino sobre Oceano e áreas costeiras nas escolas”, publicado em 2023 pela editora Paco. A obra foi finalista da primeira edição do Prêmio Jabuti Acadêmico, ficando entre os cinco finalistas.

Apresentação dos princípios da Cultura Oceânica para alunos do 5o ano da E.M. GEO Isabel Salgado.

O livro parte de uma constatação: muitos dos conhecimentos necessários para compreender o oceano já fazem parte da própria tradição da Geografia. A relação entre oceanos e atmosfera, as bacias hidrográficas, as correntes marítimas, a circulação oceânica, as mudanças climáticas, as navegações e as relações entre sociedade e natureza são temas que podem ser trabalhados a partir de conceitos que a disciplina já desenvolve.

“Quando começa a ser falado sobre cultura oceânica, que é um conceito que traz a ideia de levar para a sociedade a importância dos oceanos, de alfabetização desse tema para a sociedade, a gente começa a pensar que talvez a gente não precisasse inventar a roda.”

Para a pesquisadora, a Geografia pode ocupar um papel central nesse processo justamente por já possuir ferramentas para compreender o espaço e as relações entre diferentes fenômenos. O livro reúne conteúdos sobre Geografia Marinha, cultura oceânica e temas que podem ser trabalhados nas escolas, além de capítulos dedicados às diferentes regiões costeiras brasileiras.

Ampliar a cultura oceânica, para Flavia, deixou de ser apenas uma possibilidade pedagógica e passou a ser uma necessidade diante dos desafios contemporâneos. A relação entre oceano e mudanças climáticas é um dos pontos centrais dessa discussão. “Não tem mais como a gente falar em mudança climática sem falar de oceano, sem falar de manguezal”, afirma.

Os manguezais são importantes na captura de carbono, enquanto os fitoplânctons presentes nos oceanos também participam de processos fundamentais para o equilíbrio ambiental e para a atmosfera. Mas o oceano está relacionado a muito mais do que clima. Está no fundo do mar o relevo que sustenta diferentes processos e recursos minerais. No leito marinho também estão cabos submarinos responsáveis por conectar países e viabilizar parte da infraestrutura global de comunicação.

Para uma criança ou adolescente, compreender esses elementos significa perceber que o oceano não é apenas o lugar onde se vai à praia. Ele é território, infraestrutura, economia, biodiversidade, clima, cultura, geopolítica e parte da própria identidade brasileira. “Entender a importância da conexão que o oceano faz entre os lugares, das rotas da geopolítica, dos recursos minerais que tem no seu subsolo, da legislação, do fato da gente, nosso país não terminar onde começa o mar, mas sim ser constituído também por todo um território marinho, tudo isso é algo que a gente tem tentado levar para a educação básica”, destaca.

É nesse movimento de troca que o laboratório e o Projeto Mar à Vista encontram sua principal razão de existir. A universidade leva para as escolas e para as comunidades conhecimentos produzidos a partir de pesquisas científicas, mas também aprende com as pessoas que vivem nos territórios costeiros.

Realização de perfil de praia com uso de mira topográfica e régua.

O laboratório reúne bancos de dados construídos a partir de longos períodos de monitoramento das praias, análises de sedimentos, perfis topográficos, estudos sobre a morfodinâmica praial e levantamentos sobre eventos extremos, como ressacas e inundações litorâneas. Esse conhecimento, associado à experiência das comunidades e às atividades realizadas nas escolas, pode contribuir para uma compreensão mais ampla das zonas costeiras e para políticas públicas mais adequadas. “Com todo esse repertório de dados muito robustos, associados a um repertório de conceitos geográficos consolidados, a gente acredita que possamos contribuir para uma gestão costeira integrada mais eficiente.”

Mais do que ensinar conceitos, a proposta é formar pessoas capazes de olhar para o território e compreender as relações que existem nele. E, para Flavia Moraes Lins de Barros, esse processo precisa começar cedo. “Eu acredito que é na Educação Básica que a gente vai formar cidadãos melhores para o futuro.”

A mensagem da coordenadora do Laboratório de Geografia Marinha e Gestão Costeira Integrada aos professores é, portanto, também um convite para mudar o olhar sobre aquilo que já está presente no currículo. Não necessariamente para criar uma nova disciplina ou acrescentar mais um conteúdo à rotina escolar, mas para perceber que a praia pode ser uma sala de aula, o manguezal pode ser um laboratório, a areia pode contar uma história geológica, uma fotografia pode ajudar a monitorar a linha de costa e um mapa pode revelar que o território brasileiro continua para além do continente.

“Deixo como mensagem para que todos os professores voltem seus olhares para o mar e o oceano, explorando seus mistérios, sua potencialidade e também sua importância para a sociedade atual e para as mudanças climáticas. Faço um convite para ter o Mar à Vista de seus olhos e, a partir disso, abrir novas possibilidades de conhecimentos e de inovações para lidar com as mudanças climáticas e os desafios globais.”, finaliza.

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