Projeto Esponja Viva: bucha vegetal vira aliada da educação ambiental em escola de Vargem Grande

Professora Denise Machado Domingues conta essa história.

Projeto Esponja Viva transforma o cultivo de uma planta em experiência de sustentabilidade, investigação científica e mudança de hábitos, envolvendo crianças, famílias e profissionais da Escola Municipal Engenheiro Álvaro Sodré.

Por Marcus Tavares

Uma planta cultivada para proteger a horta escolar do sol forte tornou-se ponto de partida para discutir consumo, sustentabilidade e preservação ambiental com crianças da Educação Infantil e do Ensino Fundamental da Escola Municipal Engenheiro Álvaro Sodré, em Vargem Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Trata-se do Projeto Esponja Viva que nasceu de uma necessidade prática e ganhou dimensão coletiva: mostrar que a bucha vegetal pode ser uma alternativa biodegradável à bucha sintética e que pequenas iniciativas podem estimular novas formas de relação com a natureza.

“A experiência foi libertadora, pois nos mostrou que, mesmo com recursos limitados, é possível criar soluções inovadoras e promover aprendizagens significativas”, afirma Denise Machado Domingues, professora adjunta de Educação Infantil e uma das responsáveis pelo projeto.

A iniciativa começou quando a escola aceitou um convite da Prefeitura do Rio para implantar uma horta na unidade. Após uma reunião de alinhamento, a equipe iniciou o trabalho com base em um plano de ação elaborado para o espaço. Logo surgiram desafios relacionados às características do solo, ao controle da temperatura e à irrigação. A exposição ao sol intenso dificultava o desenvolvimento das mudas, e a escola não dispunha de recursos suficientes para comprar telas de sombreamento.

Foi nesse contexto que surgiu a ideia de cultivar a Luffa, planta conhecida como bucha vegetal, para formar uma cobertura natural para a horta. A proposta ganhou força durante uma conversa informal entre duas professoras. Uma delas comentou que uma planta estava se espalhando pelo quintal de sua casa; a outra a reconheceu como bucha vegetal. A conversa revelou uma oportunidade: segundo Denise, mais de 80% dos trabalhadores da escola desconheciam o potencial da planta e suas possibilidades de utilização.

A partir daí, o cultivo deixou de ser apenas uma solução para proteger a horta. O objetivo passou a incluir a apresentação de uma alternativa à bucha sintética, o aproveitamento de recursos naturais e a reflexão sobre os impactos ambientais dos materiais usados no cotidiano. O projeto começou em setembro e continua em andamento, com a meta de estabelecer uma cobertura vegetal para a horta durante o verão.

Inicialmente, a proposta seria desenvolvida com uma turma do primeiro ano. O interesse despertado pela bucha vegetal, porém, levou a equipe a ampliar a experiência para toda a escola. A turma 1102, orientada pelas professoras Patrícia e Denise, ficou responsável por concentrar parte das experiências e dos registros. As crianças plantaram as sementes e passaram a acompanhar o desenvolvimento da planta por meio de um calendário interativo, com fotografias que documentam as diferentes etapas do crescimento.

O trabalho reúne plantio, cuidados com as mudas, observação científica, desenhos, registros e pesquisas sobre sustentabilidade. Os estudantes também investigam possibilidades de aproveitamento da bucha vegetal na produção de diferentes itens, como sabonetes com bucha, vasos para orquídeas e buchas de banho.

“A comparação entre a bucha vegetal e a sintética é um dos eixos da investigação. Enquanto determinados materiais sintéticos podem permanecer no ambiente por centenas de anos, a bucha vegetal é biodegradável e pode se decompor em condições adequadas em um período muito menor. A proposta é levar as crianças a relacionar o cultivo de uma planta às escolhas de consumo e às consequências ambientais do descarte de produtos. Neste sentido, o envolvimento dos estudantes tem sido espontâneo. As visitas à horta se tornaram momentos aguardados com entusiasmo, e a primeira muda de bucha vegetal passou a despertar a curiosidade de crianças e profissionais de toda a unidade. Mais do que aprender sobre uma planta, as crianças estão vivenciando a paciência, a responsabilidade e a satisfação de acompanhar o desenvolvimento de algo que elas próprias ajudaram a cultivar”, relata Denise.

Uma das descobertas que mais surpreendeu os estudantes foi a possibilidade de cultivar a própria bucha vegetal em casa, utilizando sementes e pequenos espaços, sem grandes investimentos. A repercussão também se refletiu na forma como as crianças passaram a observar hábitos cotidianos. Algumas começaram a questionar, por exemplo, o uso de buchas sintéticas na cozinha da própria escola, relacionando essa prática aos impactos ambientais discutidos durante o projeto.

E mais do que isso: as crianças também passaram a compartilhar as informações com os familiares, inclusive com pais que desconheciam as possibilidades de uso da planta. A escola então iniciou a distribuição de mudas aos estudantes que levaram seus próprios vasos. Eles fizeram o plantio, cuidaram das plantas e, após o crescimento, levaram-nas para casa, com a intenção de transplantá-las nos quintais.

Ao avaliar o significado do Esponja Viva, Denise destaca a possibilidade de aproximar as crianças do ambiente natural por meio da observação, do cuidado e da experimentação. Na horta, elas reconhecem as plantas pelo nome, aprendem sobre suas funções e exploram suas características com os sentidos, cheirando e tocando e, quando apropriado e seguro, experimentando.

Para a professora, a educação ambiental ganha sentido quando deixa de ser apenas um conteúdo apresentado nos livros e passa a fazer parte das experiências cotidianas. A criança participa, observa, cuida e percebe que também tem responsabilidade sobre o mundo em que vive.

“Para mim, o projeto Esponja Viva representa uma realização de vida. É a oportunidade de promover o contato das crianças com a natureza, plantar a semente da sustentabilidade e cultivar o respeito pelo meio ambiente com o amor e a responsabilidade que ele merece”, destaca.

Segundo Denise, a horta também trouxe resultados concretos para a alimentação das crianças. A produção de couve já possibilitou duas colheitas, e muitas crianças que antes não aceitavam esse alimento passaram a experimentá-lo e a incluí-lo em sua alimentação. Isso mostra que o contato direto com o cultivo pode transformar a relação dos estudantes com os alimentos e com a própria natureza.

“A experiência nos ensina que a educação ambiental não deve ficar restrita aos livros ou às explicações em sala de aula. Ela ganha sentido quando a criança participa, observa, cuida, experimenta e percebe que também é responsável pelo mundo em que vive. Quando temos a oportunidade de nos aproximar dela, aprendemos a reconhecer que fazemos parte deste planeta e que cuidar dele é também cuidar da nossa própria vida. É preciso oferecer às crianças essa oportunidade de pertencimento, para que cresçam compreendendo, respeitando e protegendo a natureza com consciência, afeto e responsabilidade”.

A experiência já vem ganhando visibilidade. A primeira foi interna, na própria escola, quando duas crianças de cada turma foram sorteadas para representar os colegas e apresentar o trabalho à comunidade escolar. Elas compartilharam as experiências, as descobertas e os conhecimentos construídos ao longo das atividades. A segunda aconteceu durante a Mostra de Hortas da 7ª Coordenadoria Regional de Educação (7ª CRE), realizada no Museu do Pontal. “A participação permitiu divulgar o Esponja Viva e compartilhar com outras pessoas suas possibilidades educativas e ambientais. Os encontros valorizaram o protagonismo infantil e mostraram como as experiências vividas na escola podem ser apresentadas e compartilhadas para além de seus espaços”, conta Denise.

A Escola Municipal Engenheiro Álvaro Sodré atende a 183 estudantes e desenvolve outras iniciativas relacionadas à sustentabilidade e à educação ambiental. Uma delas é o Programa Esse Rio é Meu. A proposta da Esponja Viva vai ao encontro do projeto.

O descarte de esponjas sintéticas é um exemplo de como escolhas aparentemente pequenas podem ter consequências para o meio ambiente. Feitas de materiais plásticos, essas esponjas podem liberar partículas microscópicas durante o uso e o desgaste. Quando chegam aos sistemas de esgoto, ao solo ou à água, essas partículas podem alcançar rios e outros ambientes aquáticos, contribuindo para a poluição por microplásticos.

Uma vez no ambiente, podem ser ingeridas por organismos aquáticos e representar riscos para a vida nos ecossistemas. A bucha vegetal, por ser de origem natural e biodegradável, oferece uma alternativa que ajuda a reduzir a dependência de materiais sintéticos. Mais do que substituir um produto por outro, essa escolha abre espaço para refletir sobre o consumo, o descarte dos resíduos e a responsabilidade de cada pessoa na proteção dos rios. Segundo Josiane Luzia Marques e Silva, coordenadora pedagógica da unidade, a bucha vegetal, dialoga com o Programa Esse Rio é Meu

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