Educação ambiental como prática de cidadania: Arlinda Cézar fala sobre transformação, políticas públicas e o futuro sustentável

Por Marcus Tavares

Celebrado em 26 de janeiro, o Dia Mundial da Educação Ambiental convida educadores, estudantes e a sociedade em geral a refletirem sobre o papel do conhecimento na construção de um futuro mais sustentável. Em um contexto marcado por mudanças climáticas, desafios urbanos e a crescente pressão sobre os recursos naturais, a data reforça a importância de transformar informação em ação concreta.

É nesse cenário de desafios ambientais cada vez mais visíveis — das enchentes urbanas às mudanças climáticas globais — que a educação se afirma como uma das principais ferramentas de transformação social. Mais do que informar, ela é chamada a formar cidadãos capazes de repensar hábitos, influenciar comunidades e cobrar políticas públicas sustentáveis.

Para aprofundar esse debate, a revistapontocom conversou com Arlinda Cézar, especialista em Educação Ambiental e Planejamento Ambiental e presidente do Instituto Venturi para Estudos Ambientais. Na entrevista, ela analisa os principais equívocos da sociedade nas grandes cidades, o papel das escolas, o impacto dos projetos locais e a relevância de iniciativas como o programa Esse Rio é Meu na formação de uma nova cultura de cuidado com o meio ambiente.

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom – Educação ambiental é mais informação ou transformação de comportamento?
Arlinda Cézar – Educação ambiental não pode se limitar à transmissão de informações. O conhecimento é o ponto de partida, mas o objetivo final é a transformação de atitudes e práticas cotidianas. Só quando a informação se traduz em comportamento — como reduzir o consumo, separar resíduos ou valorizar áreas verdes — é que ela cumpre seu papel de formar cidadãos conscientes e responsáveis.

revistapontocom – Quais são os principais equívocos da sociedade nas grandes cidades em relação ao meio ambiente?
Arlinda Cézar – Consumo excessivo e descartável, que gera montanhas de resíduos; descarte inadequado de resíduos, especialmente plástico e eletroeletrônicos; desconexão com a natureza: muitos não percebem que rios, praças e parques são parte essencial da qualidade de vida; dependência exagerada do automóvel, que aumenta poluição e congestionamentos; e falta de participação em decisões coletivas sobre o espaço urbano.

revistapontocom – Como a escola pode levar a educação ambiental além da sala de aula?
Arlinda Cézar – A escola deve ser um laboratório vivo de sustentabilidade. Isso significa: projetos de hortas comunitárias e compostagem envolvendo famílias; campanhas de redução de consumo de água e energia que se estendam às casas; parcerias com associações de bairro para revitalizar praças e rios; e incentivo ao protagonismo estudantil em ações ambientais locais.

revistapontocom – Projetos locais têm impacto em problemas globais?
Arlinda Cézar – Sim. Mudanças globais começam em práticas locais. Um projeto de reflorestamento urbano, por exemplo, contribui para absorção de carbono e melhora do microclima. Iniciativas de reciclagem reduzem a pressão sobre aterros e emissões de gases. Quando replicados em diferentes territórios, esses projetos formam uma rede de impacto que dialoga diretamente com os desafios das mudanças climáticas.

revistapontocom – Qual é o papel das crianças e jovens na construção de uma nova cultura ambiental?
Arlinda Cézar – Eles são multiplicadores naturais de valores. Crianças e jovens questionam hábitos, influenciam famílias e têm energia para mobilizar comunidades. Além disso, representam a geração que viverá os efeitos mais intensos da crise climática, por isso sua participação é vital para criar uma cultura de cuidado e inovação.

revistapontocomO brasileiro já percebe a relação entre meio ambiente e qualidade de vida? O que falta compreender?
Arlinda Cézar – Há uma percepção crescente, especialmente em relação à poluição, ao saneamento e às enchentes. Mas ainda falta compreender que qualidade de vida não é apenas ausência de problemas: é também acesso a áreas verdes, ar limpo, água saudável e cidades planejadas de forma sustentável. O meio ambiente não é um “extra”, é a base da saúde e do bem-estar.

revistapontocom – Como a mídia e o jornalismo podem contribuir?
Arlinda Cézar– A mídia tem o poder de transformar a pauta ambiental em prioridade social. Isso se dá por meio de reportagens que mostrem soluções e não apenas problemas; espaço para iniciativas comunitárias inspiradoras; linguagem acessível que conecte ciência ao cotidiano e pressão positiva sobre governos e empresas para maior responsabilidade socioambiental.

revistapontocom – Quais políticas públicas são essenciais para tornar a educação ambiental permanente?
Arlinda Cézar– Inserção da educação ambiental como eixo transversal em todos os níveis de ensino; programas contínuos de formação de professores; incentivo a projetos comunitários com apoio financeiro e técnico; integração entre políticas de saneamento, mobilidade e urbanismo com a educação ambiental; e monitoramento e avaliação de resultados, garantindo continuidade e não apenas ações pontuais.

revistapontocom – Que exemplos de boas práticas a senhora considera inspiradores?
Arlinda Cézar– Destaco iniciativas que mostram como a educação ambiental pode ser prática, criativa e transformadora: O programa Esse Rio é Meu: mobiliza escolas e comunidades para cuidar de rios urbanos, transformando-os em espaços de convivência, aprendizado e pertencimento. É um exemplo de como a educação ambiental pode recuperar ecossistemas e fortalecer vínculos sociais. Hortas escolares e comunitárias: unem educação, alimentação saudável e sustentabilidade. Além de ensinar sobre cultivo e nutrição, aproximam crianças e famílias da terra e da importância da produção local. Projetos de energia solar em escolas públicas: reduzem custos de energia e, ao mesmo tempo, funcionam como laboratório vivo para ensinar sobre transição energética e inovação tecnológica. O programa Semeando Sustentabilidade: promove a formação de professores da rede pública em educação ambiental, garantindo que o tema seja trabalhado de forma contínua e transversal no ensino formal. O programa Reciclar é fazer mágica: vai além da logística reversa do plástico PET, mostrando na prática como funciona a economia circular e os ciclos fechados de consumo. É uma iniciativa que conecta teoria e prática, despertando o olhar crítico para o impacto dos resíduos.

revistapontocom – O que o Dia da Educação Ambiental representa pessoalmente para você?
Arlinda Cézar – É um convite à reflexão e à ação. Para mim, representa a lembrança de que cada gesto educativo pode ser uma semente de transformação. É um dia para renovar compromissos e celebrar conquistas coletivas.

revistapontocom Que mensagem final você deixa para educadores, estudantes e leitores da revistapontocom?
Arlinda Cézar – Educação ambiental é sobre futuro, mas também sobre presente. Cada escolha que fazemos hoje molda o mundo em que viveremos amanhã. Aos educadores, que nunca desistam de plantar sementes; aos estudantes, que mantenham a curiosidade e a coragem de transformar; e aos leitores, que percebam que cuidar do meio ambiente é cuidar da própria vida.

O programa Esse Rio É Meu é desenvolvido em conjunto pela Secretaria Municipal de Educação e pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente da Prefeitura do Rio, em parceria com a oscip planetapontocom e a concessionária Águas do Rio – patrocinadora do programa. O objetivo do programa é engajar escolas na recuperação e preservação dos rios. Cada grupo de escolas da rede pública de ensino do Rio ficou responsável por desenvolver ações em torno de um dos corpos hídricos da cidade.

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