Por Marcus Tavares
Na Escola Municipal João de Deus, na Penha, coleção Turma do Planeta é usada em atividades que articulam leitura, pesquisa e reflexão sobre a preservação dos rios.
A princípio uma atividade de leitura simples com os estudantes: levar livros para ler em casa e compartilhar com os familiares. Mas, ao retornarem à escola, os alunos trouxeram mais do que as histórias lidas: trouxeram resumos, descobertas, perguntas e a vontade de compartilhar com os colegas o que haviam aprendido. A experiência, realizada no âmbito do programa Esse Rio é Meu, na Escola Municipal João de Deus, na Penha, acabou transformando a literatura em ponto de partida para conhecer melhor o território e refletir sobre a preservação dos recursos hídricos.
Os livros fazem parte da coleção Turma do Planeta, utilizada pela escola para incentivar o hábito da leitura e, ao mesmo tempo, ampliar a percepção dos estudantes sobre a importância dos rios da região. Depois da leitura individual em casa, os alunos apresentaram as histórias e os conhecimentos adquiridos para colegas das turmas 1101, 1201 e 1301. Cada um preparou um breve resumo da obra e recontou a história para os demais.
A atividade foi organizada e mediada pela professora Daniele Coutinho, que acompanhou a preparação dos estudantes e coordenou a socialização das leituras. Para ela, a experiência mostrou que a literatura pode abrir caminhos para discussões que vão muito além da própria narrativa. “A leitura passou a ser o primeiro passo para conversar sobre preservação ambiental, poluição dos rios e responsabilidade coletiva. As histórias ajudaram os alunos a perceber que os problemas relacionados aos recursos naturais não estão distantes de sua realidade e que as escolhas individuais também fazem parte de um desafio que envolve toda a sociedade”, conta.
Entre os temas que mais despertaram o interesse dos estudantes, a preservação dos rios e os impactos provocados pela poluição foram os principais. As discussões levaram a uma compreensão importante: cuidar do meio ambiente não é responsabilidade de uma única pessoa ou instituição. “Somente com a colaboração de todos é possível reduzir a poluição e cuidar dos recursos naturais”, destacam Sarah Luz, coordenadora da escola, e Daniele Coutinho, professora da turma 1402.
A reação dos estudantes às histórias também ajudou a impulsionar o trabalho. Segundo as educadoras, houve grande interesse pelos personagens e pelas narrativas, especialmente nos dois últimos livros trabalhados, considerados mais dinâmicos e envolventes. A identificação com as histórias favoreceu a participação nas conversas e contribuiu para despertar o gosto pela leitura.
Mas foi quando os livros levaram os estudantes para fora das páginas que a experiência ganhou uma nova dimensão. Com o auxílio do mapa da escola, os alunos localizaram o Rio Carioca e começaram a investigar mais sobre o curso d’água. Pesquisaram informações sobre seu percurso, sua nascente e sua foz e também buscaram conhecer as atuais condições de poluição do rio.
A atividade despertou uma curiosidade que ajuda a explicar a força da proposta: afinal, onde está o Rio Carioca em relação à escola? Como seria chegar até ele? Os estudantes passaram a discutir possíveis trajetos e meios de transporte para alcançar o rio. A pergunta geográfica transformou-se, assim, em uma oportunidade de aproximar o conteúdo estudado da vida cotidiana. A experiência permitiu que eles percebessem que o rio não é apenas um elemento apresentado em um livro ou em um mapa. É parte de um território real, com uma história, um percurso, problemas e relações com as pessoas que vivem em seu entorno.
Para Sarah Luz, essa conexão entre o conteúdo escolar e a realidade local é um dos aspectos mais importantes do trabalho. Ao localizar o Rio Carioca e tentar compreender como chegar até ele, os estudantes estabeleceram uma relação concreta entre aquilo que estavam aprendendo e o espaço onde vivem.
A atividade também revelou como diferentes áreas do conhecimento podem se encontrar a partir de uma mesma proposta. Em Língua Portuguesa, os estudantes trabalharam leitura, interpretação, produção de resumos e oralidade. Em Geografia, localizaram o Rio Carioca no mapa e investigaram seu percurso. Em Ciências, discutiram a poluição dos rios, a preservação ambiental e a importância dos recursos naturais.
A literatura funcionou, portanto, como uma espécie de fio condutor para uma experiência interdisciplinar. “Os ganhos foram significativos para a aprendizagem dos estudantes, ao integrar o incentivo à leitura com a educação ambiental”, avaliam Sarah Luz e Daniele Coutinho.
A partir das histórias, os estudantes também tiveram contato com questões que ultrapassam a realidade imediata do rio. As conversas abordaram temas como os impactos da poluição e das mudanças climáticas, suas consequências para a sociedade e para o meio ambiente e possíveis ações para reduzir esses impactos. O debate trouxe ainda uma dimensão de cidadania. Os alunos passaram a refletir sobre a responsabilidade individual, mas também sobre o papel das políticas públicas na preservação ambiental.
Esse equilíbrio entre responsabilidade pessoal e responsabilidade coletiva aparece como uma das aprendizagens que a escola considera mais importantes. Cuidar do meio ambiente envolve atitudes cotidianas, mas também depende de decisões e políticas capazes de proteger os recursos naturais. A proposta ganhou ainda um novo espaço dentro das próprias famílias. Como parte da atividade, os estudantes levaram os livros para casa e contaram com a participação dos familiares na elaboração de cartazes com os resumos das histórias.
A leitura, que começou na escola, passou então a ocupar também o ambiente doméstico. Para as educadoras, essa participação ajudou a fortalecer o vínculo entre escola e família, além de incentivar a leitura compartilhada e ampliar o envolvimento dos responsáveis no processo de aprendizagem. Segundo elas, uma obra literária pode ser muito mais do que um recurso para estimular a leitura. Ao apresentar personagens e histórias relacionados a questões ambientais, os livros da coleção Turma do Planeta abriram espaço para que os estudantes observassem o próprio território com outros olhos.
O Rio Carioca, antes distante ou pouco conhecido, passou a ser objeto de pesquisa, conversa e curiosidade. A partir dele, vieram discussões sobre poluição, recursos naturais, mudanças climáticas, responsabilidade cidadã e políticas públicas.
Para Sarah Luz e Daniele Coutinho, esse é um dos principais resultados da experiência: ampliar a consciência dos estudantes de que cada cidadão tem um papel na preservação do meio ambiente, sem perder de vista que as transformações também dependem da ação coletiva e de políticas públicas eficazes.
A expectativa da escola é que esse olhar permaneça ao longo do ano letivo. Mais do que memorizar informações sobre um rio ou compreender conceitos relacionados à preservação ambiental, a intenção é que os estudantes passem a reconhecer a relação entre o lugar onde vivem e os desafios ambientais que fazem parte da cidade.
“Afinal, quando um livro consegue levar uma criança a procurar um rio no mapa, perguntar onde ele nasce, descobrir onde deságua e querer saber como chegar até ele, a leitura deixa de ser apenas uma atividade escolar. Torna-se uma forma de descobrir o território — e, a partir dessa descoberta, compreender que cuidar dele também é uma responsabilidade de todos”, finalizam.
O programa Esse Rio É Meu é desenvolvido em conjunto pela Secretaria Municipal de Educação e pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente da Prefeitura do Rio, em parceria com a oscip planetapontocom e a concessionária Águas do Rio – patrocinadora do programa. O objetivo do programa é engajar escolas na recuperação e preservação dos rios. Cada grupo de escolas da rede pública de ensino do Rio ficou responsável por desenvolver ações em torno de um dos corpos hídricos da cidade.



