Por Marcus Tavares
A terceira mesa do seminário “Caminhos da Água”, realizada no Museu do Amanhã, aprofundou o debate ao tratar os rios não apenas como infraestrutura hídrica, mas como elementos centrais da cultura, da memória e da própria organização da vida social. Sob mediação do jornalista André Trigueiro, o painel reuniu diferentes perspectivas para discutir o que está em jogo quando se fala em água no Brasil: não apenas acesso, mas modelo de desenvolvimento, gestão pública e relação civilizatória com a natureza.
Logo na abertura, Trigueiro imprimiu um tom contundente ao debate, deslocando a discussão para uma crítica estrutural à forma como o país lida com seus recursos naturais. Ao relacionar cultura, política e meio ambiente, o jornalista apontou contradições profundas de um país que, mesmo sendo uma potência hídrica, convive com níveis alarmantes de degradação.

“A cultura, esse conjunto de crenças, valores e tradições que a gente vai passando de geração em geração, explica o que é ser brasileiro, o que é ser carioca. E o que explicaria o fato de nós, nesse país tão generoso e abundante do ponto de vista do patrimônio megabiodiverso, sermos também um país que depreda, destrói e devasta num ritmo avassalador? Não estou falando só de rios. Temos mais de 90 milhões de brasileiros sem esgoto coletado e tratado e mais de 30 milhões sem acesso à água encanada de qualidade. Todas as bacias hidrográficas estão depredadas. E quando a gente tenta entender por quê, lembro de um hidrologista da USP que dizia: os países não são avaliados pela quantidade de água que possuem, mas pela gestão dessas águas. E o que vemos hoje é o enfraquecimento de regras ambientais, o aparelhamento de órgãos de fiscalização, decisões que comprometem a resiliência da natureza e, diretamente, a qualidade da água. A Mata Atlântica, por exemplo, de onde vem a água que abastece 100 milhões de brasileiros, está sendo ferida de morte. Quando se enfraquece a fiscalização, isso bate diretamente na água. E não adianta falar só de educação inspiradora se a gente não cobra das autoridades o cumprimento do que está na Constituição. O artigo 225 é claro sobre o dever de proteger o meio ambiente. Sem vigilância da sociedade, a gente corre o risco de normalizar uma cultura ecocida.”
O discurso estabeleceu um eixo central da mesa: a crise hídrica não é apenas técnica, mas política e cultural. A gestão da água, ou a ausência dela, revela prioridades, disputas de poder e escolhas de modelo de desenvolvimento. Essa dimensão estrutural foi ampliada pela Secretária de Cultura do Pará, Úrsula Vidal, que trouxe a perspectiva amazônica para o debate. Sua fala evidenciou como os impactos sobre os rios atingem diretamente modos de vida, saberes ancestrais e identidades coletivas.

“Estamos vendo um cenário de ataque a toda a arquitetura institucional que cuida da preservação e do desenvolvimento sustentável. Mas na Amazônia isso não é novo, nós sofremos isso há décadas. É um território muito maltratado por um modelo de desenvolvimento que afeta nascentes, rios e modos de vida, principalmente das comunidades tradicionais, que são guardiãs dessa biodiversidade. Muito antes de qualquer política pública, os povos indígenas já compreendiam essa dinâmica das águas. No Marajó, por exemplo, havia comunidades com registros de milhares de anos que construíam uma engenharia adaptada ao regime das águas, sem brigar com a natureza. A água sobe e desce todos os dias e a arquitetura acompanha esse movimento. É uma lógica de convivência, não de enfrentamento. O que vemos hoje é o contrário: um modelo de desenvolvimento que briga com os rios, que canaliza, concretiza, destrói. Em Belém, uma cidade com várias bacias hidrográficas, os rios foram transformados em canais de concreto. Isso é uma brutalidade.”
Ao aprofundar a crítica, a secretária relacionou grandes projetos de infraestrutura a perdas irreparáveis para populações locais, evidenciando como a lógica do “progresso” frequentemente ignora dimensões culturais e humanas.
“Quando você mexe no fluxo de um rio, você desestrutura toda a vida que existe ali. E não é só o meio ambiente, são as pessoas. Minha mãe pesquisou comunidades que foram deslocadas por Belo Monte. Não é só perder a casa, é perder a memória, o cemitério dos antepassados, o sentido de pertencimento. É arrancar uma identidade. E, no fim, esse modelo de progresso nem se sustenta: Belo Monte, com bilhões investidos, opera muito abaixo da capacidade. Então, para garantir uma energia que nem é tão limpa assim, se sacrifica populações inteiras. O que nos mantém de pé é a cultura, a memória, saber quem somos e, sobretudo, para onde não queremos ir.”
Na interface entre gestão, território e cultura, Márcio Santa Rosa, coordenador de Economia Azul e baías da Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade do Rio, trouxe uma perspectiva que combina experiência técnica e atuação cultural, destacando a complexidade da gestão das águas no Brasil.

“A complexidade das águas brasileiras é enorme. Os rios não respeitam limites administrativos, eles atravessam territórios, conectam estados, conectam realidades diferentes. A gente precisa olhar para as bacias hidrográficas como unidade de gestão. Desde as primeiras civilizações, as pessoas se organizam em torno da água. E hoje, apesar de toda a tecnologia, a gente ainda enfrenta dificuldades básicas de gestão. A história do saneamento mostra isso: foram décadas de tentativas que não conseguiram avançar como deveriam. Agora, com novos modelos, a gente tenta acelerar esse processo, mas ainda há muitos desafios, principalmente nas áreas mais vulneráveis.”
Márcio também destacou o papel da criatividade e da cultura como ferramentas fundamentais para mobilizar a sociedade: “A criatividade é essencial. A gente precisa envolver as pessoas, trabalhar com educação, com arte, com cultura. Criança cantando sobre rio, escrevendo, criando, isso transforma. Mas também é importante contar a história, entender como chegamos até aqui. O ser humano é capaz de resolver problemas, mas a gestão muitas vezes é o grande desafio. E, além disso, existem entraves estruturais, como limitações financeiras e institucionais, que dificultam a execução de políticas públicas. Ainda assim, a gente precisa avançar, porque a mudança já está acontecendo e o nível de consciência das pessoas sobre água, clima e meio ambiente está crescendo.”
Encerrando o painel, Ricardo Piquet, Presidente do IDG, trouxe uma reflexão centrada na comunicação e na sensibilização da sociedade, apontando que o grande desafio não é apenas informar, mas mobilizar. “A gente erra na estratégia, erra na comunicação e erra na capacidade de afetar as pessoas. A água é tema recorrente há décadas, mas ainda não conseguimos transformar isso em mudança de comportamento. Se não houver afeto, se não houver valor, as pessoas não se movem. Você pode ter toda a informação, mas se não tocar, não muda nada. E isso vale para tudo: mudanças climáticas, meio ambiente, água. A gente precisa provocar as pessoas.”

Ao resgatar experiências pessoais, ele também evidenciou a degradação progressiva dos ecossistemas ao longo das gerações: “Na minha infância, a gente pescava com abundância. Hoje, meus filhos já não tinham essa realidade e meus netos praticamente não veem mais peixe. Isso mostra o que aconteceu com os nossos rios e mares. E, ao mesmo tempo, a gente vive situações absurdas, como regiões com abundância de água onde as pessoas não têm água para beber. Isso revela uma falha profunda na forma como a gente se relaciona com esse recurso.”
Por fim, destacou o papel das instituições culturais na construção de uma consciência ativa: “O objetivo não é sair daqui com uma visão de fim de mundo, mas sair esperançoso — no sentido que Paulo Freire usava: esperança ativa, de fazer alguma coisa para mudar. A gente precisa mostrar que é grave, mas que tem solução. A ciência já tem respostas, o que falta é escala e mobilização.”
Ao longo da mesa, consolidou-se a ideia de que a crise da água no Brasil é, antes de tudo, uma crise de gestão, de modelo de desenvolvimento e de relação cultural com a natureza. Mais do que recuperar rios, o desafio colocado é reconstruir vínculos — entre sociedade, território e meio ambiente — a partir de uma perspectiva que una conhecimento técnico, memória histórica e engajamento coletivo.



