Quando o bairro entra no mapa, os rios também ganham espaço na E.M. Senador Nelson Carneiro

Projeto é desenvolvido pelo professor Felipe Feijó.

Por Marcus Tavares

Na E.M. Senador Nelson Carneiro, em Queimados, projeto desenvolvido nas aulas de Geografia ganhou novas possibilidades com a chegada do programa Esse Rio é Meu, ampliando o olhar dos estudantes para os rios e para os problemas socioambientais do território.

O bairro onde vivem, os caminhos que percorrem, os lugares que frequentam e os espaços que fazem parte do cotidiano dos estudantes já eram matéria-prima para as aulas de Geografia do professor Felipe Feijó, na Escola Municipal Senador Nelson Carneiro, no bairro de Três Fontes, em Queimados. O trabalho parte da realidade dos alunos do 6º ano para compreender conceitos como território, paisagem, ocupação do solo, relevo e hidrografia. Foi a esse trabalho que o Programa Esse Rio é Meu veio se somar.

Desde sempre, Felipe já propunha que os estudantes observassem e representassem o espaço onde vivem. Com a chegada do programa, esse olhar ganhou uma nova dimensão, especialmente a partir da identificação dos rios, canais e demais cursos d’água presentes no território e da reflexão sobre sua relação com a qualidade de vida da comunidade. A proposta é transformar o bairro em objeto de investigação e fazer com que as crianças reconheçam no conteúdo escolar os espaços que fazem parte de suas próprias vidas.

Segundo Felipe, o trabalho começa com o levantamento dos lugares mais frequentados pelos alunos. Escola, praça, mercado, quadra, igreja, farmácia, ponto de ônibus e casas de familiares são alguns dos espaços que aparecem nas conversas e atividades. A partir dessas informações, a turma constrói uma espécie de área de influência da escola e passa a observar características do território, como a ocupação do solo, o relevo e a hidrografia.

“Os alunos gostam de se ver representados no conteúdo que desenvolvem na escola. Ficam com muita expectativa de mostrar onde moram, onde jogam bola, o templo da religião que praticam e o cotidiano da comunidade de maneira geral”, conta Feijó.

A atividade também é desenvolvida com o uso do software QGIS, a partir de recortes do bairro que são trabalhados pelos estudantes. Eles inserem informações relacionadas à ocupação do solo, ao relevo e à hidrografia, transformando o conhecimento sobre o lugar onde vivem em representação cartográfica.

Rios, canais, córregos e outros cursos d’água passam a ser observados não apenas como elementos da paisagem, mas também em sua relação com a história local, o ambiente e as condições de vida da população.

A partir desse olhar, questões presentes no cotidiano da comunidade ganham espaço nas discussões em sala de aula. Os próprios estudantes trazem relatos sobre alagamentos, poluição e outros problemas ambientais e sociais que identificam no lugar onde vivem. “Eles costumam denunciar os problemas ambientais e sociais, como os alagamentos e a poluição dos rios”, relata o professor.

A proposta, portanto, não se limita a localizar os rios em um mapa. O objetivo é compreender como esses cursos d’água se relacionam com o território e de que maneira as ações humanas interferem na paisagem.

Para Feijó, uma das contribuições do trabalho é ajudar os estudantes a perceber que a sociedade faz parte da natureza e que as transformações realizadas no espaço têm consequências para a própria população. “O projeto vai ajudar a perceber o quanto nós somos parte integrante da natureza. À medida que alteramos o meio, estamos interferindo também na nossa qualidade de vida”, afirma.

A discussão contribui para desenvolver nos alunos um senso de responsabilidade em relação aos rios da região. O conteúdo de Geografia deixa, assim, de ser apenas uma representação distante nos livros e mapas e passa a estar relacionado às experiências concretas dos estudantes.

A metodologia também favorece o desenvolvimento de habilidades previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), como o reconhecimento das características geográficas do lugar de vivência, a análise das transformações das paisagens e a leitura e produção de mapas.

Situada próxima ao limite com Nova Iguaçu, a unidade atende estudantes dos dois municípios. A própria comunidade está dividida entre as duas cidades, e os moradores utilizam serviços públicos oferecidos por ambos os municípios.

Segundo o professor, a região é pouco assistida por serviços públicos e fica distante dos principais centros comerciais de Queimados e Nova Iguaçu. Nesse contexto, a escola ocupa um papel importante como equipamento público e espaço de referência para os moradores.

É justamente esse território vivido pelos estudantes que se transforma em objeto de estudo. Ao contar onde moram, por onde circulam e quais lugares fazem parte de sua rotina, eles ajudam a construir uma representação do bairro a partir de suas próprias experiências.

Neste primeiro momento, o trabalho está concentrado nas aulas de Geografia. A expectativa, porém, é ampliar a experiência no segundo semestre, envolvendo professores de outras disciplinas. A possibilidade de articulação interdisciplinar pode ampliar ainda mais as discussões propostas pelo Programa Esse Rio é Meu, conectando os rios e o território a diferentes áreas do conhecimento.

Ao colocar os rios no centro de novas perguntas e observações, o Esse Rio é Meu ajuda a aprofundar uma ideia que já orientava as aulas: para compreender a Geografia, é preciso também compreender o lugar onde se vive. E, quando os estudantes aprendem a olhar para esse lugar, os rios deixam de ser apenas linhas no mapa. Felipe destaca: passam a ser parte da história, da paisagem, dos problemas e das possibilidades de transformação da própria comunidade.

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