‘Psiuuu… eu estou escutando o Rio Carioca’. Escondido, rio é descoberto pelas crianças da Creche Municipal Aracy Guimarães Rosa

Professora Karin Albuquerque explica essa história.

Por Marcus Tavares

Por meio de muita brincadeira, investigação e estudo, o Rio Carioca é prova da importância do conhecimento e pertencimento do território por parte dos cidadãos.

Por baixo das ruas, do asfalto e do cotidiano do bairro do Catete, corre um rio que durante muito tempo passou despercebido pelas crianças da Creche Municipal Aracy Guimarães Rosa. O Rio Carioca estava ali, tão próximo e, ao mesmo tempo, tão invisível. Até que uma pergunta, uma brincadeira com água e terra e o desejo de conhecer melhor o território começaram a mudar essa relação.

Foi assim que nasceu a experiência da professora de Educação Infantil Karin Albuquerque com o programa Esse Rio é Meu. Há dez anos na rede municipal, Karin levou para o projeto uma pesquisa que já desenvolve no doutorado na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), dedicada às relações de bebês e crianças pequenas com os chamados “corposnatureza” no quintal da creche — uma expressão que utiliza para questionar a ideia de que seres humanos e Natureza estão separados.

Na Aracy Guimarães Rosa, a investigação sobre o Rio Carioca começou antes mesmo de as crianças chegarem às suas margens. Nasceu no quintal, entre árvores, sementes, terra e água. Regar plantas, brincar com lama, observar os caminhos da água, inventar histórias e construir novas formas de habitar aquele espaço foram experiências que, pouco a pouco, conduziram o grupo até o rio.

O que poderia ser apenas um projeto sobre um curso d’água tornou-se uma investigação sobre território, memória, povos originários, imaginação e pertencimento. Aimberê, indígena Tupinambá, e Kiandra, uma sereia de Angola, passaram a fazer parte das narrativas das crianças. O quintal ganhou um “Rio Carioca” feito de tecido azul, barracas transformaram o espaço em um acampamento “Na Beira do Rio” e caixas de papelão viraram igarás, as canoas dos Tupinambá.

Até que chegou o momento de encontrar o rio de verdade. No Largo do Boticário, as crianças puderam olhar, escutar, cantar e estar diante do Rio Carioca que já habitava suas histórias. Mas talvez o momento mais revelador tenha acontecido antes, dentro da própria creche. Uma criança se deitou no chão, chamou os colegas e, em silêncio, anunciou: “Psiuuu… eu estou escutando o Rio Carioca.”

A experiência mostra como crianças pequenas podem construir relações profundas com questões como água, território e cuidado quando têm a oportunidade de experimentar, imaginar e investigar a partir do próprio corpo. E revela também uma pergunta que atravessa o trabalho de Karin: o que acontece quando deixamos de olhar a Natureza como algo separado de nós e passamos a reconhecê-la como parte daquilo que somos?

Nesta entrevista à revistapontocom, Karin Albuquerque conta como o Rio Carioca entrou no cotidiano da Creche Municipal Aracy Guimarães Rosa, as descobertas das crianças e como o projeto ajudou a construir outras formas de olhar, brincar e habitar o território.

Confira:

revistapontocom: Como nasceu o projeto Esse Rio é Meu na escola?
Karin Albuquerque: O projeto nasceu nas minhas turmas na Creche Aracy, a partir do convite da professora articuladora, Luciana Gonçalves, que me procurou perguntando se eu poderia olhar para esse projeto da prefeitura e embarcar com a minha turma, principalmente porque ele tinha muita relação com a minha pesquisa de doutorado. Inicialmente, achei a proposta um desafio. Fiquei pensando em como nos relacionar com um rio que passa por nós de forma totalmente despercebida e como trazê-lo para crianças tão pequenas. Mas fiquei curiosa em olhar para essa relação e perceber o que acontece quando prestamos atenção a um rio que tem sido invisibilizado por tanto tempo.

revistapontocom: Por que o Rio Carioca foi escolhido para ser conhecido e investigado pela turma?
Karin Albuquerque: O Rio Carioca foi escolhido por fazer parte do território da nossa creche, localizada no Catete, e porque, apesar de estar tão próximo, muitas vezes permanece invisível no cotidiano. Relacionar-se com o Rio Carioca possibilitaria habitar de outra forma o lugar onde vivemos, conhecer as histórias que atravessam o nosso entorno e perceber os diferentes modos de relação que os povos originários estabeleceram com esse rio. O Carioca também carrega uma história importante para a cidade, pois foi um grande manancial que abasteceu o Rio de Janeiro e, durante muito tempo, suas águas foram utilizadas pelas populações que habitavam esse território. Seu próprio nome atravessa a nossa identidade, pois é a origem da palavra que nomeia quem nasce no Rio de Janeiro. É um rio que já foi habitado de outras formas. As pessoas se banharam em suas águas, brincaram, pescaram e se deslocaram por elas. Hoje, porém, é um rio que muitas vezes não é percebido, permanece escondido e, em alguns trechos, apresenta mau cheiro, embora também possamos perceber movimentos e melhorias recentes em sua recuperação. Assim, conhecer e investigar o Rio Carioca foi uma aposta em aproximar as crianças de um ser que habita a cidade e que também nos habita, despertando curiosidade, pertencimento, afeto e cuidado. A proposta era que, ao prestar atenção no rio, pudéssemos construir uma relação mais íntima com ele e imaginar outras possibilidades de relação entre os diferentes modos da Natureza.

revistapontocom: Como o programa foi apresentado às crianças?
Karin Albuquerque: O projeto foi se construindo a partir das experiências que já vivíamos no quintal da creche. Começamos pelas árvores, pelas sementes, pela terra e pela água. As crianças plantaram, cuidaram, regaram, colheram, experimentaram frutas e brincaram com os outros modos da Natureza que habitam o quintal da creche. Foi nesse cotidiano de cuidado e investigação que começamos a perceber que não estávamos apenas conhecendo, mas construindo relações com os seres e com o território que habitamos. A água foi fundamental e esteve muito presente nesse primeiro momento. Regar as plantas, observar seus caminhos, brincar com água e terra, explorar poças, lama e diferentes materialidades do quintal foram experiências que alimentaram a curiosidade das crianças e nos ajudaram a pensar sobre os caminhos da água e as relações entre os diferentes modos da Natureza. A partir daí, fomos nos aproximando dos povos originários e das histórias do território onde vivemos. O encontro com Aimberê e com as narrativas relacionadas aos Tupinambá foi abrindo outras possibilidades de olhar para o nosso próprio território. E foi nesse percurso, entre árvores, sementes, água, terra, histórias e povos originários, que o Rio Carioca apareceu como mais um ser a ser conhecido e escutado. Então, o primeiro contato das crianças com a proposta aconteceu no corpo, no quintal, na água, na terra, no cuidado e nas histórias. O rio foi se tornando uma continuidade desse caminho que já estávamos percorrendo. Quando chegamos ao Rio Carioca, ele não era um assunto novo, mas parte de uma investigação maior sobre como nos relacionamos com os outros corpos-natureza. Foi assim que começamos a construir a ideia de que a Natureza não está separada de nós. Somos sementes, somos raízes, somos histórias e estamos sempre em movimento. E, nesse movimento, o Rio Carioca passou a fazer parte da nossa história também.

revistapontocom: Quais foram as principais etapas do projeto?
Karin Albuquerque: A primeira etapa foi a aproximação com o Rio Carioca, a partir das conversas, observações e brincadeiras com a água no quintal. Em seguida, ampliamos as investigações conhecendo a história de Aimberê, indígena Tupinambá, que nos aproximou das histórias dos povos originários e de suas relações com o rio, a terra e o território. A presença de Aimberê, materializada em um boneco, passou a alimentar as narrativas, brincadeiras e descobertas das crianças. Na etapa seguinte, realizamos o acampamento “Na Beira do Rio Carioca”, com barracas, transformando o quintal da creche em um espaço de imaginação, convivência e experimentação. As crianças passaram o dia no quintal e viveram ali momentos de alimentação, descanso, brincadeiras, músicas, fogueira e celebração, criando outras formas de habitar e perceber o território. A culminância aconteceu com a visita ao Largo do Boticário, quando encontramos o Rio Carioca em seu próprio território e compartilhamos esse momento com as famílias. Nesse percurso, Aimberê e Kiandra, sereia de Angola, ampliaram nossas narrativas sobre rios, águas, povos, memórias e pertencimentos. O canto de “Olelê” às margens do rio marcou esse encontro entre corpo, música, água e memória. Por fim, as crianças realizaram uma pintura coletiva do Rio Carioca no chão do quintal da creche, registrando, por meio de cores, traços e memórias, os afetos e sentidos construídos ao longo do projeto. Assim, cada etapa contribuiu para que o rio deixasse de ser apenas um elemento do entorno e passasse a ser reconhecido pelas crianças como parte da história, da vida e do território que habitamos.

revistapontocom: Que atividades foram realizadas com as crianças?
Karin Albuquerque: A principal atividade do projeto foi possibilitar que as crianças vivenciassem a água e construíssem relações com ela a partir do brincar. No quintal, a água esteve presente cotidianamente: as crianças regavam as árvores, brincavam, enchiam e esvaziavam potes, misturavam água e terra, criavam diferentes possibilidades e experimentavam a lama. Essas experiências nos ajudaram a pensar que o rio também nos atravessa em situações aparentemente simples, até mesmo quando a água chega por uma torneira. Ampliamos essa experiência buscando possibilitar às crianças viver “às margens do rio”. Organizamos o acampamento “Na Beira do Rio”, solicitando barracas às famílias e transformando o quintal em um espaço de convivência inspirado nas margens do Carioca. Durante um dia inteiro, toda a nossa rotina aconteceu ali: brincamos, nos alimentamos, descansamos e vivemos o quintal de uma maneira diferente. Também convidamos as famílias para, junto com as crianças, conhecer o Rio Carioca em seu próprio território. Fomos ao Largo do Boticário de ônibus, escolhido especialmente a partir da curiosidade das crianças sobre o rio que passa por baixo do asfalto. “Como tem um rio passando por baixo da rua?” Essa pergunta orientou nossa escolha por esse primeiro percurso, antes de outros lugares possíveis. Como encerramento, trouxemos novamente o rio para o nosso quintal. As crianças produziram coletivamente o seu próprio Rio Carioca, transformando em pintura, cores e traços as experiências, imagens e memórias construídas ao longo de todo o percurso. Também construímos, com caixas de papelão, nossas canoas, as igarás, como eram chamadas pelos Tupinambás, que passaram a compor as brincadeiras e as novas narrativas criadas pelas crianças.

revistapontocom: O projeto também trabalhou com livros, música, brincadeiras, personagens e outras linguagens. Como esses diferentes recursos ajudaram a construir a relação das crianças com o tema das águas?
Karin Albuquerque: Ao longo do projeto, buscamos que as crianças se aproximassem do tema das águas não apenas por meio de informações, mas principalmente pela experiência, pela imaginação e pelas diferentes linguagens da infância. A água esteve presente no brincar cotidiano, nas histórias, nas músicas, nos personagens e nas experiências corporais, permitindo que cada criança construísse sua própria relação com o Rio Carioca. Um grande tecido azul, representando o Rio Carioca, também nos acompanhou nesse percurso. Brincamos, cantamos e contamos muitas histórias na beira do nosso Rio Carioca. Uma das histórias que mais marcou o percurso foi “Olelê”, de Fábio Simões, que possibilitou às crianças conhecerem outras formas de relação com o rio e com as águas. A narrativa também trouxe a música para o centro da experiência e encantou a turma, que a escolheu para cantar durante o nosso passeio ao Largo do Boticário, às margens do Rio Carioca.

revistapontocom: Como surgiram Aimberê e Kiandra dentro do projeto? O que esses personagens possibilitaram trabalhar com as crianças?
Karin Albuquerque: A partir dessas vivências, ampliamos o imaginário sobre o Rio Carioca com a produção de Aimberê, indígena Tupinambá que lutou para defender os rios, as florestas e a terra, e com a chegada de Kiandra, uma boneca sereia produzida pelas estagiárias do PIBID-UFRJ, Maria e Beatriz. Elas também apresentaram às crianças a história de Kiandra, que veio acompanhada do tamarindo, uma fruta de Angola. Na narrativa construída com o grupo, Kiandra, ao atravessar o oceano e chegar ao Rio Carioca, encontrou Aimberê. Esses personagens passaram a alimentar nossas fabulações e nos ajudaram a imaginar como poderia ter sido o Rio Carioca para os povos que viviam neste território antes da invasão europeia.

revistapontocom: Que descobertas ou curiosidades das crianças foram surgindo durante o projeto?
Karin Albuquerque: Uma das curiosidades que mais mobilizou o grupo foi descobrir que o Rio Carioca passa tão perto de nós e atravessa o território onde vivemos, muitas vezes escondido, correndo por baixo das ruas e do asfalto. Essa descoberta despertou perguntas e muita imaginação nas crianças, que começaram a perceber o rio como algo presente, mesmo quando não podíamos vê-lo. Uma situação que nos marcou aconteceu quando uma das crianças se deitou no chão da sala e, em silêncio, convidou os colegas a fazerem o mesmo. Então disse: “Psiuuu… eu estou escutando o Rio Carioca.” Foi um momento muito bonito e significativo, porque revelou como a experiência com o projeto havia transformado a maneira como as crianças percebiam o rio. O Rio Carioca já não era apenas algo que se vê, mas também algo que se pode imaginar, escutar e sentir.

revistapontocom: Em algum momento vocês perceberam que o Rio Carioca deixou de ser apenas um tema do projeto e passou a fazer parte do imaginário e das experiências das crianças? Como isso aconteceu? Karin Albuquerque: Sim. Percebemos que o Rio Carioca deixou de ser apenas um tema quando passou a habitar as narrativas, as brincadeiras e as experiências cotidianas das crianças. O rio começou a aparecer espontaneamente nas falas, nas invenções e nas brincadeiras, sem precisar ser sempre apresentado ou proposto pelos adultos. O quintal, especialmente, ganhou novos sentidos. Estar ali passou a ser também uma possibilidade de convidar o Rio Carioca para brincar. A água, a terra, a lama, as árvores, as canoas e as histórias dos personagens se misturavam às brincadeiras e às fabulações das crianças. O rio passou a fazer parte daquele espaço, mesmo quando não estava visível. Foi nesse movimento que percebemos que o projeto havia ultrapassado as atividades planejadas. O Rio Carioca tornou-se uma presença no imaginário das crianças, um companheiro de brincadeiras e narrativas que continua sendo convocado sempre que elas encontram uma possibilidade de brincar, imaginar e criar novas histórias no quintal.

revistapontocom: Parece, então, que o projeto dialogou com outras áreas do conhecimento?
Karin Albuquerque: O projeto atravessou o cotidiano da escola de muitas maneiras, porque o rio esteve presente nas brincadeiras, nas histórias, nas músicas, nas experiências com água e terra, nas produções das crianças, na alimentação e na relação com o próprio quintal. A partir dele, foi possível dialogar com diferentes linguagens: oralidade e narrativa, música, movimento, artes visuais, brincadeira simbólica e investigação do território. O projeto nos reafirmou que o conhecimento é produzido nas relações das crianças não apenas com as professoras, mas também com a água, a terra, as árvores e o Rio.

revistapontocom: Qual foi a importância de levar as crianças para conhecer o Rio Carioca?
Karin Albuquerque: Conhecer presencialmente o Rio Carioca foi fundamental porque, até aquele momento, o rio já existia para as crianças nas histórias, nas brincadeiras, nas músicas, nas imagens e no imaginário. Faltava encontrá-lo em seu próprio território. E foi muito emocionante ver o brilho no olhar e a alegria dos sorrisos ao encontrar o rio que já estava fazendo parte da vida delas. O passeio ao Largo do Boticário possibilitou esse encontro entre o rio imaginado e o rio vivido. As crianças puderam olhar, escutar, caminhar, cantar e estar às suas margens, percebendo que aquele rio sobre o qual tanto havíamos conversado realmente fazia parte do lugar onde vivem. Também foi muito significativo percorrer esse caminho de ônibus e observar o rio entrando e desaparecendo sob o asfalto. A curiosidade das crianças sobre “como tem um rio passando por baixo do asfalto?” ganhou ali uma experiência concreta. Foi uma oportunidade de perceber que o território guarda histórias e presenças que nem sempre estão visíveis. O encontro também evidenciou o quanto o Rio Carioca não está sendo cuidado pelos humanos e a importância de conhecer sua existência e resistência para, assim, pensarmos, como sociedade, outros modos de relação.

revistapontocom: O que a experiência de desenvolver o projeto revelou sobre a capacidade das crianças pequenas de compreender questões relacionadas às águas, ao território e ao cuidado com o meio ambiente?
Karin Albuquerque: A experiência nos mostrou que as crianças pequenas compreendem questões complexas quando podem vivenciá-las de maneira significativa, pelo corpo, pela brincadeira, pela imaginação e pelas relações que estabelecem com o mundo. As crianças não precisaram receber respostas prontas sobre o rio, a água ou o cuidado com a Terra. Elas foram construindo sentidos a partir das próprias experiências: ao regar as árvores, brincar com a água e a terra, imaginar o rio passando pelo quintal, perguntar sobre o rio escondido sob o asfalto ou simplesmente tentar escutá-lo. Percebemos que, para as crianças, cuidar das águas também pode começar por criar uma relação de afeto e pertencimento com elas. Quando o rio passa a fazer parte de suas histórias e brincadeiras, deixa de ser algo distante e passa a ser percebido como parte da vida.

revistapontocom: Ao olhar para todo o percurso, quais foram os principais aprendizados das crianças? E da equipe da escola?
Karin Albuquerque: Talvez um dos principais aprendizados tenha sido perceber que o rio está mais perto do que imaginamos e que as águas fazem parte do território, mesmo quando não conseguimos vê-las. As crianças aprenderam com o Rio Carioca a imaginar, escutar, perguntar, criar narrativas, construir coletivamente e perceber que suas próprias perguntas podem abrir novos caminhos para o grupo. Para a equipe — e agradeço à Brunna Cortêz e à Sandra Barbosa, minhas parceiras de trabalho que construíram comigo essas propostas —, um dos principais aprendizados foi reafirmar a importância de escutar as crianças e permitir que suas curiosidades realmente orientem o percurso. Muitas vezes, uma pergunta ou uma pequena situação vivida por elas abriu caminhos que não estavam previstos inicialmente. O Rio Carioca também nos ensinou a olhar de outra maneira para o território da escola. Algo que estava tão perto podia permanecer invisível até que as crianças nos ajudassem a enxergá-lo de outra forma.

revistapontocom: O que ‘ficou’ depois do projeto?
Karin Albuquerque: Acontece muita coisa quando prestamos atenção ao rio que nos atravessa. Quando damos visibilidade, muitas possibilidades surgem. Esperamos que tenha ficado, sobretudo, uma relação de afeto e pertencimento com as águas e com o território. Que, ao encontrar uma poça, uma torneira, uma árvore sendo regada ou qualquer outro lugar onde a água esteja presente, as crianças possam lembrar que ali também existe uma possibilidade de encontro, cuidado e brincadeira. O Rio Carioca passou a fazer parte das narrativas da turma e acreditamos que essa presença pode permanecer para além do encerramento do projeto. Mais do que lembrar informações sobre o rio, desejamos que as crianças carreguem a experiência de ter podido conhecê-lo, imaginá-lo, percorrê-lo e criar com ele. Que permaneça também a ideia de que aquilo que está perto de nós merece ser olhado, escutado e cuidado. E precisamos reinventar outras formas de habitar o mundo, pois o modo como alguns humanos habitam — essa nossa forma ocidental de habitar — não está dando certo. Precisamos urgentemente proteger, cuidar e, principalmente, mudar.

revistapontocom: Se você tivesse que resumir o projeto Esse Rio é Meu em uma ideia, qual seria?
Karin Albuquerque: Quando conhecemos, imaginamos e criamos vínculos, também começamos a compreender a importância do cuidado. Somos Natureza e, enquanto continuarmos nos percebendo como separados dos rios, das águas e da terra, continuaremos tornando essas presenças invisíveis. O projeto “Esse Rio é Meu” foi um convite para nutrir bons encontros e criar possibilidades para que as crianças se afetassem pelo rio, pelo território e pelas histórias que nele habitam. Desde a primeira infância, acreditamos ser fundamental construir outras maneiras de estar e habitar o mundo, reconhecendo que somos Natureza. “Esse Rio é Meu” foi, assim, um convite para conhecer, imaginar, criar vínculos e, a partir desses encontros, aprender a cuidar.

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