Fala, Professor(a)! Entrevista com a professora Tânia Brasil
Por Marcus Tavares
Com quase 18 anos de magistério, Tânia Brasil construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com a aprendizagem, pela curiosidade e pela proximidade com os estudantes. Professora da rede municipal do Rio de Janeiro, ela já atuou na Educação Infantil e, atualmente, trabalha com o 6º ano carioca, desenvolvendo atividades de forma multidisciplinar.
Nesta entrevista à revistapontocom, inaugurando a área Fala Mestre!, Tânia fala sobre sua trajetória até chegar à sala de aula, as experiências que marcaram sua carreira, os desafios do cotidiano escolar e aquilo que, segundo ela, faz a profissão continuar valendo a pena: a esperança de contribuir para um mundo melhor para seus alunos.
Confira:
revistapontocom: Quem é a Tânia por trás da sala de aula? Conte um pouco da sua história, de onde veio e da sua formação.
Tânia Brasil: A Tânia por trás da sala de aula é uma pessoa exigente, organizada, mas também muito brincalhona. Estou sempre planejando alguma coisa. Não consigo ficar parada ou à toa. Gosto de aproveitar o tempo e de estar sempre aprendendo. Amo o sol, a praia, caminhar, olhar o céu, observar as estrelas e acordar cedo para aproveitar mais o dia, mesmo que seja para ficar em casa fazendo alguma coisa. Amo Matemática, Ciências… amo cuidar do meio ambiente, reciclar, plantar, colher, cuidar das minhas roseiras e onze-horas. Estudei o Ensino Fundamental em escola pública e o Ensino Médio em uma escola estadual, onde fiz o curso Normal. Naquela época, ser professora era quase um caminho natural para muitas moças, mas eu não queria seguir essa profissão. Queria trabalhar em escritório. Por isso, fiz minha primeira faculdade, de Administração de Empresas. Depois, a vida me levou para outro caminho. Fiz Licenciatura em Matemática pelo CEDERJ, na modalidade a distância, e atualmente estou fazendo uma pós-graduação em Educação, Meio Ambiente e Sustentabilidade pelo IFG, também a distância. Sou casada há 38 anos, mãe de dois filhos, que são professores de Inglês e estou esperando a chegada do meu primeiro neto. Gosto muito de estudar, ensinar e, principalmente, de estar perto dos meus alunos. Costumo dizer que eles não me deixam envelhecer.


revistapontocom: Qual é hoje a sua função? Quantos estudantes já vivenciaram suas aulas?
Tânia Brasil: Sou professora da rede municipal do Rio de Janeiro desde dezembro de 2008 e trabalho há dez anos com o 6º ano Carioca. Como professora II (PII), atuo de forma multidisciplinar, trabalhando com História, Geografia, Língua Portuguesa, Matemática e Ciências. Antes disso, trabalhei durante sete anos na Educação Infantil. Toda a minha trajetória na rede municipal aconteceu na mesma unidade escolar, hoje GET CIEP Graciliano Ramos. Estimo que cerca de 196 crianças tenham passado por minhas turmas da Educação Infantil e aproximadamente 300 estudantes pelo 6º ano Carioca. É muita gente que passou pela minha vida e, de alguma forma, deixou um pouco de si comigo.


revistapontocom: Quando você decidiu ser professora? Houve alguém ou alguma experiência que influenciou essa escolha?
Tânia Brasil: Fiz o curso Normal porque, na minha época, esse era quase o caminho certo para as moças que queriam trabalhar. Mas eu não queria ser professora. Meu sonho era trabalhar em escritório, por isso fiz Administração de Empresas e cheguei a trabalhar como secretária. Já era casada e queria ter filhos e cuidar deles. Então pedi demissão e fiquei em casa. Quando meus filhos cresceram e entraram na escola, comecei a sentir que tinha tempo demais disponível (risos). Meus vizinhos começaram a procurar minha ajuda para tirar dúvidas das atividades escolares dos filhos. Mesmo depois de ter meus filhos, continuava estudando. Foi então que fiz o concurso para a Prefeitura do Rio e passei. Fui convocada quando meus filhos estavam com 11 e 12 anos. Foi nesse momento que percebi que poderia ser professora. Meus filhos já estavam encaminhados e eu poderia voltar ao mercado de trabalho sem deixar de acompanhar minha família. Minha mãe sempre quis que eu fosse professora. No fim, acho que consegui juntar o útil ao agradável: trabalhar, estudar e, principalmente, fazer algo de que passei a gostar muito, sabendo que minha família estava bem cuidada.


revistapontocom: Você se lembra da primeira vez que entrou em uma sala de aula como professora? O que sentiu naquele momento?
Tânia Brasil: A primeira vez sempre assusta, porque a responsabilidade é enorme. Já tinha experiência com crianças da família, cuidava de sobrinhos e primos, e minha casa sempre foi muito cheia. Mas aqueles não eram meus parentes. Eram 28 crianças de quatro anos, muitas delas se separando dos pais pela primeira vez. Era choro para todos os lados. Algumas crianças estavam muito assustadas; outras, nem tanto. Na primeira semana, fazíamos um período de acolhimento e o horário era reduzido. Elas precisavam de atenção, conforto, distração, paciência e muito carinho. Apesar do susto inicial, foi fascinante. Amava trabalhar com as crianças de quatro anos e, naquela época, não conseguia me imaginar em outro ano de escolaridade. Depois, a Educação Infantil foi retirada da nossa escola e surgiu o 6º ano Carioca. Foi quando fui convidada a trabalhar no projeto do 6º ano Carioca. Naquele período, fazia um curso de Ciências no IFRJ, em Nilópolis, e também cursava Licenciatura em Matemática pelo CEDERJ. Foi uma nova etapa da minha vida profissional.


revistapontocom: Ao longo da sua trajetória, houve algum aluno, turma ou experiência que tenha marcado especialmente a sua vida? Por quê?
Tânia Brasil: Tenho muitas experiências gratificantes. Na Educação Infantil, principalmente, o contato com as famílias era muito próximo. Alguns vínculos continuam até hoje. Ainda converso com antigos alunos e até com os pais deles pelo WhatsApp ou encontro essas famílias em festas e outros momentos. É o caso da Gabriela, por exemplo. Com os alunos do 6º ano também acontece algo muito bonito. Eles crescem, vão para outras escolas, mas depois voltam para nos visitar ou mandam mensagens e vídeos contando o que estão fazendo. É muito gratificante perceber que, mesmo depois de tantos anos, ainda fazemos parte da história deles. Em relação a uma turma, lembraria da minha última turma da Educação Infantil. Foi uma turma maravilhosa e a única que acompanhei durante dois anos. Sabe aquela turma que contagia? Eram participativos, felizes, gostavam de ler e eram muito amigos entre si. Nossa! Quantas saudades!


revistapontocom: O que os seus alunos ensinaram a você?
Tânia Brasil: Costumo dizer que todo professor deveria passar pela Educação Infantil antes de trabalhar em qualquer outro ano de escolaridade. As crianças pequenas nos ensinam muito. Aprendi a ter mais paciência, a escutar, a observar antes de julgar e a estudar cada vez mais para ensinar melhor. Aprendi também a trabalhar com diferentes grupos ao mesmo tempo, a utilizar jogos no ensino da Matemática e a transformar os experimentos de Ciências em momentos de descoberta e brincadeira. E aprendi uma coisa fundamental: você pode planejar uma aula, mas é o contato com os alunos que vai moldando o caminho. A aula precisa estar aberta para aquilo que eles trazem.


revistapontocom: Depois de tantos anos de magistério, o que mudou na sua maneira de ensinar e de enxergar a educação?
Tânia Brasil: Depois de 17, quase 18 anos de magistério, procuro me manter sempre atualizada para tornar as aulas mais atrativas e não cair na mesmice. Percebo também que os materiais fornecidos pela Prefeitura vêm sendo atualizados com mais frequência, o que considero um ponto positivo. Tento colocar meus alunos no centro do processo de aprendizagem e fazer com que sejam protagonistas. Mas também aprendi que nem todos os estudantes conseguem avançar da mesma maneira. Muitas vezes, o problema que chega à escola não está propriamente na educação. Existem questões sociais e familiares que interferem diretamente na aprendizagem e no comportamento dos alunos, e a escola acaba recebendo uma responsabilidade que, muitas vezes, vai muito além de sua função.


revistapontocom: Quais foram os momentos mais difíceis da sua trajetória como professora? E o que eles lhe ensinaram?
Tânia Brasil: Os momentos mais difíceis foram aqueles em que precisei lidar com a perda de alunos. Perder uma ex-aluna muito querida, que tirou a própria vida, foi algo extremamente doloroso. Um ano depois, a mãe dela também faleceu. Foi uma história que marcou profundamente minha trajetória. Também vivi a perda de um ex-aluno que acabou sendo morto por seu envolvimento com o crime. Era filho de uma mãe muito presente e protetora, que fazia tudo o que podia pelos filhos e tentou ajudá-lo a seguir outro caminho. Mas, a partir do 8º ano, ele começou a se envolver com o crime, e ela não conseguiu tirá-lo daquela situação. Essas experiências me ensinaram que o professor muitas vezes está diante de problemas que não consegue resolver sozinho. Uma parte da nossa aula, principalmente com os alunos do 6º ano, também passa por conversar sobre essas questões, ouvir, orientar e mostrar que existem outros caminhos. Nem sempre conseguimos mudar uma realidade, mas podemos oferecer uma referência, uma escuta e uma possibilidade diferente.


revistapontocom: O que significa, para você, ser professora hoje?
Tânia Brasil: Costumo dizer aos meus alunos que vou para a escola para me divertir (risos). Tenho uma vida confortável e não preciso chegar à sala de aula carregando os mesmos problemas que muitos deles carregam. Então, se posso estar ali, tenho o compromisso de compartilhar conhecimento de uma maneira leve e descontraída. Uso vídeos, fazemos visitas ao rio, estudamos na horta e agora temos um colaboratório, onde podemos utilizar jogos on-line e desenvolver atividades diferenciadas. Os alunos precisam ser estimulados o tempo todo. Para mim, ensinar também é encontrar maneiras de despertar neles a vontade de aprender.


revistapontocom: Em um mundo de tantas transformações – tecnológicas, sociais e culturais- qual você considera ser o principal papel do professor?
Tânia Brasil: Dar o exemplo. Quando comecei a trabalhar na Educação Infantil, tinha o hábito de sentar na ponta da mesa. Um dia, percebi que uma aluna estava fazendo exatamente a mesma coisa. Não briguei com ela. Naquele momento, percebi que ela simplesmente estava repetindo o que eu fazia. Então parei de sentar daquele jeito e ela também parou. Depois conversei com as crianças sobre isso. Elas tinham apenas quatro anos, mas escutavam e compreendiam muito mais do que imaginamos. Acredito que educamos principalmente pelo exemplo. Lembro também de um aluno que, no retorno às aulas depois da pandemia, costumava ficar deitado nas cadeiras. Nos anos anteriores, ele era considerado um aluno muito indisciplinado. Como precisávamos manter o distanciamento, aquela situação não interferia diretamente na aula, embora, por dentro, eu quisesse muito que ele estivesse sentado como os demais. Pois aquele aluno se tornou meu medalhista de ouro na Olimpíada Carioca de Matemática. Infelizmente, mais tarde ele acabou sendo preso. Depois que saiu, voltou à escola para conversar conosco e contou que estava tentando retornar aos estudos para concluir o 9º ano. É nessas situações que percebemos que a relação entre professor e aluno pode mudar. Antes, eu era professora. Hoje, posso ser também uma amiga e uma referência para ele.


revistapontocom: Que características você acredita que um bom professor precisa ter?
Tânia Brasil: Acho que um bom professor precisa gostar de brincar, de rir e de trocar saberes com outros professores. Precisa ter muita paciência e, principalmente, empatia. Os alunos de hoje vivem em uma realidade diferente daquela em que fomos educados. Precisamos tentar nos colocar no lugar deles, entender o mundo em que vivem e encontrar maneiras de dialogar com eles. E também precisamos estar dispostos a aprender. Professor que acha que já sabe tudo deixou de ser professor.


revistapontocom: Se pudesse conversar com a professora que você era no início da carreira, o que diria?
Tânia Brasil: Eu diria: valeu a pena. Valeu a pena porque aquela professora que eu era no início da carreira me trouxe até aqui. E, principalmente, porque aprendi muito com ela. Ela ainda me emociona e me incentiva a procurar mais conhecimento.


revistapontocom: O que ainda faz você entrar em uma sala de aula e acreditar que vale a pena?
Tânia Brasil: A esperança de um mundo melhor para eles. Quero fazer pelos meus alunos aquilo que fiz pelos meus filhos: dar oportunidades e mostrar que eles podem criar suas próprias asas e voar o mais alto possível. Eles são capazes. Eu repito isso muitas vezes para eles. Gosto de dizer: “Quem espera sempre cansa; quem procura, sempre alcança” e “quem quer, faz acontecer”. Talvez nem todos tenham as mesmas oportunidades, mas acredito que podemos ajudá-los a enxergar possibilidades.

revistapontocom: Que mensagem você deixaria para os professores que estão começando agora?
Tânia Brasil: Não desistam. Mantenham-se sempre atentos ao que acontece no mundo e no dia a dia dos seus alunos. Estejam abertos para aprender, para mudar e para experimentar novas formas de ensinar. Apesar de todas as dificuldades, a educação vale a pena. O mundo precisa de bons exemplos, e a escola muitas vezes é um dos lugares onde nossos alunos encontram esses exemplos. Nem sempre eles têm essas referências em casa. Então, façamos a nossa parte com muito amor, carinho e responsabilidade. E guardem as pequenas recompensas do caminho. Cada cartinha, cada mensagem, cada aluno que volta para visitar a escola ou simplesmente diz “professora, eu me lembro da senhora” é um reconhecimento enorme. Para mim, é isso que faz tudo valer a pena.



