Na EM Vereador Paulo Félix Saudade, o Programa Esse Rio é Meu aproxima os estudantes do rio que atravessa a comunidade e transforma a observação do território em conhecimento, criatividade e ação.
Por Marcus Tavares
Na Vila Laranjal, em Japeri, o Rio D’Ouro faz parte da vida da comunidade. Suas águas estão presentes na paisagem, nas atividades de pesca, nos momentos de lazer e, em algumas situações, na própria subsistência de moradores. Foi justamente essa relação cotidiana que levou a Escola Municipal Vereador Paulo Félix Saudade a transformar o rio em ponto de partida para aprendizagens dentro e fora da sala de aula.

A escola aderiu ao Programa Esse Rio é Meu em 2026, após o lançamento da iniciativa para a Rede Municipal de Educação, realizado em março. Desde então, a proposta vem sendo desenvolvida com as turmas da Educação Infantil, do pré 4 e pré 5, e dos anos iniciais do Ensino Fundamental, do 1º ao 5º ano. A ideia é trabalhar a temática ambiental de forma adequada às diferentes idades, mas sempre tendo como referência o território onde vivem os estudantes.
Para a orientadora educacional Sheila Patricia do Carmo, o primeiro passo foi aproximar a equipe escolar da proposta. Em abril, a escola participou da primeira formação do programa. Na sequência, as professoras conheceram a iniciativa, discutiram seus objetivos e começaram a planejar ações levando em conta a realidade da comunidade e a importância do Rio D’Ouro para o território.

“O Programa está sendo desenvolvido de forma contextualizada e interdisciplinar, valorizando os conhecimentos prévios dos educandos e sua relação com o Rio D’Ouro”, explica Sheila. Segundo ela, essa conexão é especialmente importante porque muitos moradores utilizam o rio e desenvolvem atividades de pesca. “Dessa forma, busca-se relacionar essa realidade aos conteúdos escolares, possibilitando uma aprendizagem mais significativa.”
A aproximação com o rio começou, literalmente, saindo dos muros da escola. Como parte do diagnóstico do território, os estudantes visitaram um trecho do Rio D’Ouro que passa pela Vila Laranjal, nas proximidades da unidade escolar. Durante a atividade, observaram as condições do curso d’água, identificaram problemas e conversaram sobre possíveis ações para sua preservação.

De volta à escola, a experiência foi retomada em uma roda de conversa. Foi desse encontro entre o que os estudantes haviam observado e o que já sabiam sobre o território que nasceu uma nova ideia: criar um jogo educativo sobre o rio.
A proposta foi desenvolvida pela professora Marcela dos Santos Cruz Leal Nunes com a turma do 4º ano. Os estudantes criaram um jogo de trilha com perguntas sobre a importância do Rio D’Ouro para a comunidade, os problemas que podem comprometer sua conservação e as atitudes que podem contribuir para sua preservação.

Mais do que jogar, os alunos participaram de todo o processo de criação. Elaboraram as perguntas, produziram as cartas com questões e respostas e confeccionaram os demais componentes. O tabuleiro e até mesmo o dado foram construídos em sala de aula. O resultado transformou uma atividade de educação ambiental em uma experiência que envolveu pesquisa, escrita, reflexão, criatividade, trabalho coletivo e tomada de decisões.
A iniciativa também permitiu que diferentes áreas do conhecimento fossem articuladas a partir de um tema que faz parte da vida dos próprios estudantes. “A proposta possibilitou integrar diferentes áreas do conhecimento a partir de uma temática presente no cotidiano dos educandos, fortalecendo a consciência ambiental, o sentimento de pertencimento e a responsabilidade de todos pela preservação do Rio D’Ouro”, afirma Sheila.

A repercussão, segundo a professora, tem sido positiva. “Os alunos estão engajados no propósito de cuidar da preservação do rio e do meio ambiente.” Professores e estudantes vêm participando ativamente das ações, fazendo com que o programa se incorpore ao cotidiano da escola.
A expectativa da equipe gestora é que esse envolvimento vá além das atividades propostas pelo programa. A intenção é que os estudantes reconheçam o Rio D’Ouro não apenas como um elemento da paisagem, mas como parte da história, da cultura e da vida da comunidade. “O projeto contribua para a construção de uma consciência ambiental, despertando atitudes de cuidado, respeito e responsabilidade com o meio ambiente e, especialmente, com o Rio que faz parte do cotidiano da comunidade escolar”, destaca Sheila.

Essa relação entre escola e território ganha ainda mais significado em Vila Laranjal, uma comunidade de características predominantemente rurais localizada no 25º distrito de Japeri. Segundo dados do IBGE de 2010, a localidade tinha aproximadamente 934 habitantes. O território é delimitado pelo cruzamento da Estrada da Proença com o ramal de carga da Estrada de Ferro Central do Brasil, estendendo-se até a Estrada do Rio D’Ouro e o Canal do Quebra Coco.
O próprio nome Vila Laranjal remete à história da região. Ao longo do século XX, o cultivo de laranjas marcou a paisagem e a economia local, ao lado da produção de frutas e hortaliças. Embora tenha passado por transformações sociais e econômicas, a comunidade ainda preserva vínculos com o campo. Pequenos sítios e chácaras continuam presentes, com produção de verduras, legumes e frutas destinadas ao consumo das famílias ou à complementação da renda.

É nesse cenário de transição entre características rurais e urbanas que a Escola Municipal Vereador Paulo Félix Saudade desempenha seu papel. A unidade atende aproximadamente 132 estudantes da Educação Infantil aos anos iniciais do Ensino Fundamental, em regime de tempo integral, das 8h às 15h. Mais do que oferecer escolarização, a escola se apresenta como espaço de convivência, fortalecimento de vínculos, valorização dos saberes locais e formação cidadã.
O trabalho desenvolvido com o Esse Rio é Meu dialoga, inclusive, com outras iniciativas já presentes no cotidiano escolar, como os projetos “Respeitar para Conviver: Construindo Relações Saudáveis na Escola”, voltado ao combate ao bullying; “Cuidando da Natureza: Educação e Sustentabilidade na Escola do Campo”; “Alimentação Saudável: Cuidando do Corpo e da Saúde”; “Família na Escola”; “Aluno Presente – Valorizando a Frequência e Combatendo a Evasão Escolar”; “Educação Antirracista – Respeito, Identidade e Diversidade na Escola” e o projeto da Sala de Leitura, “Sacola Viajante – Leitura que Transforma”.
Ao transformar o Rio D’Ouro em objeto de investigação e, depois, em um jogo criado pelos próprios estudantes, a escola encontra uma maneira de aproximar conhecimento escolar e experiência cotidiana. O rio deixa de ser apenas aquilo que passa pela comunidade e se transforma em tema de conversa, pesquisa, criação e aprendizagem — um território que os alunos observam, interpretam e começam também a reconhecer como responsabilidade coletiva.




