Rio Bomba: EM Evadyr Molina transforma um curso d’água degradado em objeto de investigação

Orientadoras pedagógicas Lia Pereira e Marcele Leal explicam como a escola vem trabalhando.

Na EM Evadyr Molina, estudantes do 1º ao 5º ano pesquisam, conversam, produzem textos e trabalhos artísticos para compreender a relação entre o rio e a comunidade de Venda da Cruz.

Por Marcus Tavares

O rio passa perto da escola, mas a proximidade não significa, necessariamente, reconhecimento. Em Venda da Cruz, bairro de São Gonçalo, o Rio Bomba convive com uma realidade de poluição e descarte irregular de resíduos. Por isso, é frequentemente chamado de “valão” por moradores. Na Escola Municipal Evadyr Molina, o curso d’água passou a ser colocado no centro das conversas justamente para que os estudantes possam compreender o que existe por trás dessa paisagem e qual é a relação dela com a comunidade.

A iniciativa faz parte do Programa Esse Rio é Meu e envolve os 406 estudantes do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental da unidade. O trabalho não se concentra em uma única disciplina. Pesquisa, conversa, escrita, desenho, produção de cartazes e atividades artísticas são utilizadas para aproximar os alunos de uma questão que está presente no entorno da escola.

“O projeto ‘Esse Rio é Meu’ vem sendo desenvolvido de forma interdisciplinar, integrado ao planejamento pedagógico da escola”, explicam as orientadoras pedagógicas Lia Pereira e Marcele Leal. A partir das características de cada faixa etária, as turmas são convidadas a observar o Rio Bomba e discutir questões relacionadas à sua preservação e à maneira como a população se relaciona com ele.

A escolha do rio como objeto de trabalho não aconteceu por acaso. A escola está localizada próxima ao curso d’água e convive com os efeitos da degradação. O problema, portanto, está no cotidiano dos estudantes. Em vez de tratar a poluição como uma questão distante, as atividades partem dessa realidade para discutir o papel dos rios na cidade, os impactos provocados pelo descarte de resíduos e as responsabilidades envolvidas na conservação dos espaços comuns.

É também uma oportunidade para reconstruir a percepção sobre o próprio Rio Bomba. Segundo as orientadoras, as atividades fizeram com que os estudantes passassem a observar com mais atenção o ambiente ao redor da escola e a reconhecer o curso d’água como parte da história e da realidade da comunidade.

O envolvimento aparece nas próprias conversas em sala de aula. As questões discutidas na escola são levadas pelos alunos para suas casas, onde continuam sendo debatidas com familiares. “Os estudantes se envolvem com entusiasmo e levam os conhecimentos adquiridos para suas famílias”, relatam Lia e Marcele.

Os professores também participam diretamente. Cabe a cada turma encontrar maneiras de trabalhar o tema de acordo com seus conteúdos e características. Uma discussão sobre o rio pode resultar em uma pesquisa, uma produção escrita, um desenho ou uma atividade artística. O que muda é a forma de abordagem; o ponto de partida permanece o mesmo: o Rio Bomba e a realidade que o cerca.

A participação das famílias é estimulada pela escola sempre que possível. Os responsáveis são convidados a acompanhar as ações e a contribuir para que as conversas iniciadas na unidade circulem também fora dela. Dessa forma, o programa cria uma ponte entre aquilo que os estudantes descobrem na escola e as experiências que fazem parte da vida no bairro.

O trabalho com o Rio Bomba integra uma proposta pedagógica mais ampla da Evadyr Molina. A escola desenvolve ações relacionadas à educação antirracista, leitura, matemática e cidadania, além de projetos e atividades que abordam sustentabilidade, reciclagem e a relação dos estudantes com os espaços onde vivem.

Para a direção, o Esse Rio é Meu pode contribuir para fortalecer o sentimento de pertencimento dos alunos em relação ao Rio Bomba. A expectativa é que eles compreendam os problemas enfrentados pelo curso d’água sem deixar de reconhecê-lo como parte da comunidade.

A situação atual do rio, marcada pela poluição, não desaparece quando passa a ser discutida na escola. Mas ganha outro significado quando se transforma em pergunta, pesquisa, texto, desenho e conversa. É nesse espaço entre a realidade encontrada pelos estudantes e a possibilidade de compreendê-la que a escola aposta. Porque, antes de pensar em como transformar um rio, talvez seja necessário voltar a enxergá-lo como rio.

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