Por Marcus Tavares
Entrevista com Marillene Monteiro e Erica Lobo sobre os 40 anos da Escola de Samba Mirim Corações Unidos do CIEP. Na pauta: educação, carnaval, meio ambiente e o programa Esse Rio é Meu.
Criada em 1985, logo após a inauguração do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, a Escola de Samba Mirim Corações Unidos do CIEP chega aos 40 anos reafirmando um propósito que vai além do desfile: formar crianças e jovens por meio da cultura do carnaval.
Neste ano, a escola levou para a avenida um samba-enredo ‘Rio, riachos e ribeiras, o canto silencioso das águas doces’ que coloca a água no centro do debate. Inspirado pelas discussões internas da escola e impulsionado pelo alerta trazido pelo programa Esse Rio é Meu, o tema amplia a reflexão sobre rios e nascentes para todo o território brasileiro, conectando cultura, educação e responsabilidade socioambiental. “O programa Esse Rio é Meu foi um alerta acerca da temática. A escola de samba mirim redimensionou a questão dos rios para todo o território brasileiro”, conta Erica Lobo, diretora pedagógica da escola. A escola desfilou no dia 8 de fevereiro.

Em entrevista à revistapontocom, a presidente da agremiação, Marillene Monteiro, e a diretora pedagógica, Erica Lobo, falam sobre a origem do projeto, o funcionamento ao longo do ano letivo, a construção do samba-enredo, a incorporação da temática ambiental e os desafios de quatro décadas de atuação. Mais do que uma escola de samba, a Corações Unidos do CIEP se consolida como um projeto pedagógico que articula currículo, arte, identidade e cidadania.
Acompanhe:
revistapontocom – Quando e como foi criada a Escola de Samba Mirim Corações Unidos do CIEP?
Marillene Monteiro e Erica Lobo – A Corações Unidos do CIEP foi criada em agosto de 1985 por Darcy Ribeiro, logo após a inauguração do Sambódromo. O objetivo era criar uma instituição que oportunizasse às crianças do entorno que frequentavam o complexo educacional Avenida dos Desfiles, recém-criado à época, uma experiência de cultura no e com o carnaval.
revistapontocom – Como funciona ao longo do ano?
Marillene Monteiro e Erica Lobo – Ao longo do ano, escolas, alunos, responsáveis e gestores escolares participam de ações que perpassam a temática do enredo. As vivências e experiências compartilhadas proporcionam um intercâmbio entre os saberes do carnaval e os conhecimentos que circulam pelo currículo, fortalecendo as aprendizagens por meio das linguagens artísticas e da ludicidade.

revistapontocom – Como as escolas e os professores participam? Quem faz a letra, a música, as fantasias?
Marillene Monteiro e Erica Lobo – Cada unidade participante escolhe, ao conhecer o tema do enredo, o aspecto que deseja abordar, de acordo com seu contexto interno e demandas, com o apoio de material pedagógico formulado e enviado pela escola de samba mirim, que transita por todas as áreas de conhecimento. Crianças e jovens participam de oficinas de composição musical, figurino e coreografia e, assim, de forma coletiva, com os professores que atuam na escola de samba mirim, o Carnaval se desenha e é construído.
revistapontocom – Como o samba-enredo é criado?
Marillene Monteiro e Erica Lobo – A partir da mediação de um professor compositor, o samba vai sendo estruturado ao longo dos meses, sempre amparado na sinopse do enredo, que conta a história que será apresentada no discurso artístico na avenida. Pesquisa, descobertas e conhecimento se cruzam em torno do enredo e dão vida ao samba-enredo.
revistapontocom – Como foi a criação do samba-enredo deste ano: Rios, riachos e ribeiras, o canto silencioso das águas doces?
Marillene Monteiro e Erica Lobo – Foi fruto de oficina que envolve professores, crianças e jovens, motivados pelos diálogos e mobilizações que aconteceram no percurso anual de trabalho da escola de samba mirim em parceria com as unidades
Clique aqui e confira o samba-enredo
revistapontocom – A questão da água e do meio ambiente surgiu como? Foi uma ideia das crianças? Teve alguma relação com o programa Esse Rio é Meu?
Marillene Monteiro e Erica Lobo – A questão das águas surge das discussões internas da diretoria, a partir das demandas que vêm das próprias crianças e dos contextos escolares. A importância de tratar da temática passa por um compromisso pedagógico, político e social de engajar crianças e jovens a compreender melhor a necessidade de proteção das águas como patrimônio e bem, inclusive cultural, impulsionando debates sobre as questões climáticas que já afetam a todos. O programa Esse Rio é Meu foi um alerta acerca da temática. A escola de samba mirim redimensionou a questão dos rios para todo o território brasileiro.
revistapontocom – 40 anos: o que significa essa marca? Quais foram os aprendizados desta jornada? Quais os desafios?
Marillene Monteiro e Erica Lobo – Fazer 40 anos é olhar para trás e se orgulhar das dificuldades superadas, dos avanços conquistados no compromisso com o patrimônio cultural que é o Carnaval Carioca. É reconhecer a importância desse trabalho de quatro décadas, que mobiliza todas as gerações, gera renda e dignidade a famílias e garante o direito de acesso à cultura para todas as crianças e jovens. É ser responsável por apontar um caminho, por meio da educação, em que talentos e habilidades sejam reconhecidos e estimulados em prol de uma vida com possibilidades. Nesse tempo de existência, a escola de samba mirim cresceu e evoluiu na realização e construção de um carnaval que educa, que empodera crianças, professores, famílias e territórios, principalmente em áreas vulneráveis e carentes da cidade. Os desafios foram imensos e continuam a surgir, mas, com eles, descobrimos a oportunidade de cuidar das nossas fragilidades, o que nos impulsionou a fortalecer projetos como Escola de Bamba, Rio de Saias e Caras e Formas da Negritude, para que estes tivessem impacto real e positivo sobre as vidas daqueles que estão em parceria conosco.

revistapontocom – E, por fim: samba e educação têm tudo a ver?
Marillene Monteiro e Erica Lobo – Samba é educação! Samba está no currículo! O samba é generoso, abraça a diversidade, acolhe, empodera, retrata marcas importantes da nossa construção identitária, da nossa formação como povo e sociedade. Se transforma e transforma e carrega em si uma forma de escola que educa.



