No GET Lino Martins da Silva, na Maré, estudantes do 3º ano produziram sabonetes com óleo usado, criaram brinquedos com materiais reutilizados e investigaram a biodiversidade local em um trabalho interdisciplinar do Programa Esse Rio é Meu.
Por Marcus Tavares

O descarte inadequado de resíduos, a preservação da biodiversidade e os conhecimentos tradicionais sobre as plantas foram o ponto de partida de um trabalho desenvolvido este ano por estudantes do 3º ano do Ginásio Educacional Tecnológico (GET) Lino Martins da Silva, localizado no Complexo de Favelas da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro. Com o tema “Ecologia e Sustentabilidade: A Maré que queremos!”, escolhido pelas turmas para a Feira de Ciências, as atividades desenvolvidas no ano letivo foram apresentadas no evento, aproximando os conteúdos escolares das questões socioambientais vividas pela comunidade.

Toda iniciativa integrou o Programa Esse Rio é Meu e reuniu os professores regentes Emanuela do Nascimento Lopes, moradora do Complexo da Maré, Carlos Antonio Mello de Jesus, Adriana Machado da Silva e José Ricardo Carvalho, professor do Colaboratório da escola. O trabalho articulou Ciências, Matemática, Língua Portuguesa, História, Geografia e Arte, em diálogo com o Currículo Carioca e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

A organização das atividades teve três frentes principais: o reaproveitamento do óleo de cozinha, a reciclagem de materiais e a investigação da biodiversidade e dos saberes tradicionais. A divisão de responsabilidades ajudou a organizar o trabalho, mas não criou uma separação rígida entre as experiências. O tema comum permitiu que as crianças participassem de diferentes propostas e relacionassem os conhecimentos construídos.
Do óleo de cozinha à produção de sabonetes





Uma das primeiras atividades abordou os impactos do descarte inadequado do óleo de cozinha. A escola recebeu Anselmo Cardoso, conhecido como Tio Cardoso, representante do projeto DCR – Responsabilidade Ambiental. Ele conversou com os estudantes sobre a destinação correta do resíduo e apresentou a proposta de transformar a unidade escolar em um ecoponto de coleta. A partir da discussão, as turmas conheceram possibilidades de aproveitamento do óleo recolhido, como sua destinação para a produção de ração animal, mediante tratamento adequado, ou sua transformação em sabonetes. A turma escolheu a segunda alternativa, que permitiu a participação das crianças em diferentes etapas.
Sob a orientação do professor Carlos, a produção dos sabonetes foi realizada no Colaboratório da unidade. Os estudantes também criaram as embalagens e a identidade visual dos sabonetes, explorando formas geométricas, composição gráfica e comunicação escrita.






A campanha de arrecadação envolveu as famílias, que ajudaram a reunir óleo de cozinha usado. Dessa forma, a discussão sobre resíduos ultrapassou o espaço da sala de aula e alcançou as residências.




Reciclagem, consumo e criatividade
Outra frente, conduzida pela professora Adriana, trabalhou a reciclagem e a reutilização de materiais. Os estudantes construíram brinquedos, jogos e recursos pedagógicos, discutindo o consumo, o desperdício e a destinação dos resíduos. As atividades exigiram planejamento, criatividade e resolução de problemas, além de estimular a reflexão sobre o que é descartado e sobre as possibilidades de dar novos usos aos materiais.



Plantas, biodiversidade e conhecimentos indígenas
Em outra perspectiva, a professora Emanuela do Nascimento Lopes conduziu as investigações sobre a biodiversidade vegetal e os usos tradicionais das plantas. O trabalho foi articulado à Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER), valorizando conhecimentos transmitidos por diferentes povos e aproximando a educação ambiental das experiências culturais dos estudantes.

Uma das referências foi o jogo Benza Dez: o sagrado da natureza, de Guilherme Carvalho, cuja proposta foi adaptada para as atividades escolares. As crianças investigaram espécies vegetais presentes ou ausentes no território, produziram desenhos e estudaram características e usos de plantas como o urucum e o açafrão, estabelecendo relações com os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas. A produção de tinta natural a partir do açafrão permitiu observar transformações dos materiais e explorar cores e possibilidades de expressão artística.

As atividades também envolveram o reconhecimento de plantas místicas e medicinais e a investigação da diversidade vegetal encontrada na Vila Olímpica Seu Amaro. As conversas sobre cultivo e cuidado com as plantas foram relacionadas à campanha Setembro Amarelo, ampliando a reflexão para o cuidado consigo mesmo, com o outro e com a natureza. A proposta integrou, assim, questões ambientais, culturais e de valorização da vida.

O manguezal e os animais do território
A biodiversidade animal também fez parte do projeto. Em parceria com o Instituto Rocha de Estudos e Biodiversidade (REBio), a escola recebeu animais, criando oportunidades para observação e discussão sobre os ecossistemas da região. Um dos focos foi o manguezal e as transformações ambientais que afetam esse ambiente. Os estudantes discutiram a redução ou a ausência de animais que originalmente integravam o ecossistema, relacionando as mudanças observadas às condições ambientais do território.



Ao longo das atividades, as crianças foram incentivadas a observar, comparar, classificar, registrar e formular perguntas. O objetivo não se limitou à apresentação de produtos na Feira de Ciências: envolveu também o desenvolvimento de um olhar mais crítico para a quantidade de resíduos na comunidade, os efeitos do descarte inadequado e as relações entre o ambiente e a qualidade de vida dos moradores.
Feira de Ciências reúne estudantes, famílias e professores
A culminância do projeto aconteceu na Feira de Ciências, quando as turmas do 3º ano apresentaram os trabalhos, explicaram os processos desenvolvidos e compartilharam os conhecimentos construídos. Segundo os professores, a experiência teve repercussão positiva, especialmente pela integração entre as turmas, pela colaboração entre os docentes e pela autonomia demonstrada pelos estudantes durante as apresentações.


Localizado na comunidade da Nova Holanda, o GET Lino Martins da Silva está inserido em um território marcado pela diversidade cultural, pela intensa vida comunitária e por desafios socioambientais. A proposta buscou considerar esse contexto na organização das atividades, reconhecendo a realidade dos estudantes como parte do processo educativo.

Nas turmas do 3º ano, o trabalho dialogou com outras iniciativas da escola, como as ações relacionadas à Educação para as Relações Étnico-Raciais, à horta escolar e ao reconhecimento da biodiversidade. A integração entre essas experiências permitiu relacionar o currículo às questões ambientais, sociais e culturais da comunidade.
A importãncia do projeto
Ao avaliar os resultados, os professores ressaltam que as mudanças não podem ser medidas apenas pelos objetos produzidos ou pelas atividades apresentadas na feira. “Estamos falando de um processo educativo, e as transformações são graduais, contínuas e nem sempre imediatamente perceptíveis. Para os estudantes, o projeto proporcionou oportunidades de observar o território de maneira mais crítica, formular perguntas, participar de decisões e compreender as relações entre suas ações cotidianas e as condições ambientais da comunidade. Para os professores, ficou a experiência de desenvolver um trabalho interdisciplinar e coletivo, articulando diferentes conhecimentos a partir de questões concretas da realidade dos estudantes. Para a escola, o projeto contribuiu para fortalecer a relação entre currículo, território e comunidade, ampliando as possibilidades de participação das famílias e de construção de práticas pedagógicas compartilhadas. Entretanto, não podemos afirmar que uma experiência isolada transforme definitivamente comportamentos ou realidades. Essas mudanças exigem continuidade, acompanhamento e novas oportunidades de aprendizagem. O principal legado está justamente nas possibilidades que foram construídas e que podem continuar sendo desenvolvidas no cotidiano escolar”, destacam os professores.

Na avaliação da equipe, o Programa Esse Rio é Meu “representa uma oportunidade de reafirmar uma concepção de educação que parte da realidade dos estudantes e reconhece o território como espaço de produção de conhecimentos. A proposta possibilita abordar questões ambientais presentes no cotidiano da comunidade, articulando os conhecimentos escolares às experiências das crianças e incentivando uma compreensão crítica sobre as relações entre sociedade e natureza. Também foi importante estabelecer aproximações entre a educação ambiental e a Educação para as Relações Étnico-Raciais, valorizando diferentes conhecimentos, culturas e formas de relação com a natureza. Além de possibilitar esse olhar cuidadoso e afetuoso para a comunidade onde vivem”.

E não é só isso: segundo os professores, o Esse Rio é Meu representa ainda uma oportunidade de fortalecer o trabalho coletivo entre professores, ampliar a participação das famílias e desenvolver práticas pedagógicas contextualizadas, comprometidas com os desafios e as potencialidades do território.

“O principal significado está na compreensão de que a educação ambiental não deve ser tratada como um conjunto de atividades isoladas, mas como parte de uma formação humana mais ampla, comprometida com a vida, com a coletividade e com a transformação da realidade. Afinal, cuidar do meio ambiente também significa refletir sobre as condições em que vivemos, sobre as relações que estabelecemos e sobre o mundo que desejamos construir coletivamente”, finalizam


