Juliete Pantoja

revistapontocom – Como a senhora avalia a qualidade da Educação pública no âmbito do Governo do Estado do Rio de Janeiro? Juliete Pantoja – A educação pública do Estado do Rio de Janeiro está muito aquém daquela que a nossa população precisa e merece. Para nós, o principal problema é que a educação pública não tem sido tratada como prioridade do Estado. Professores e demais profissionais precisam de valorização, carreira e condições adequadas de trabalho; as escolas precisam de infraestrutura digna; e os estudantes precisam encontrar condições concretas para permanecer e aprender com qualidade e segurança. Também precisamos enfrentar uma concepção de educação que reduz a escola à preparação para o mercado de trabalho. Educação pública de qualidade significa formação científica, cultural e esportiva. O Rio de Janeiro tem universidades, centros de pesquisa, professores qualificados e uma enorme capacidade de produzir conhecimento. O que falta é colocar essa riqueza a serviço da educação pública. Nosso compromisso é inverter as prioridades, colocando o dinheiro público para financiar e fortalecer a educação pública, com concurso público, valorização dos profissionais, expansão da rede e participação efetiva das comunidades escolares nas decisões.

revistapontocom – Quais são os dez principais desafios da Educação pública no âmbito do Governo do Estado do Rio de Janeiro? Juliete Pantoja – Valorização dos profissionais da educação e enfrentamento à precarização dos vínculos. Nossa proposta é realizar concursos públicos, combater a terceirização e as contratações precárias e construir um plano de carreira que valorize efetivamente os profissionais da educação. Garantir infraestrutura digna em todas as escolas. Não podemos naturalizar estudantes e profissionais enfrentando problemas de climatização, conservação dos prédios, equipamentos ou espaços inadequados. Enfrentar a evasão e garantir a permanência estudantil. Defendemos uma política estadual de permanência, articulada à alimentação, transporte e demais condições necessárias para que os jovens consigam continuar estudando. Ampliar a oferta de creches e garantir o direito à educação infantil. A falta de vagas em creches públicas ainda é uma barreira para milhares de famílias e atinge especialmente as mulheres trabalhadoras. Embora a oferta de creches seja principalmente uma atribuição dos municípios, o Governo do Estado não pode se omitir diante desse problema. É necessário atuar em cooperação com as prefeituras para ampliar a rede pública, apoiar a criação de novas vagas e fortalecer a educação infantil pública e em tempo integral. Recuperar e fortalecer a formação integral dos estudantes. Defendemos uma formação completa e a presença das disciplinas fundamentais na formação dos estudantes. Fortalecer a EJA e o ensino noturno. Uma parcela enorme da classe trabalhadora precisa conciliar estudo, trabalho e responsabilidades familiares. Nosso programa assume o compromisso de reverter o fechamento dessas turmas e assegurar sua manutenção. Democratizar a gestão e fortalecer a participação da comunidade escolar. Professor, funcionário, estudante e família não podem ser meros executores ou receptores de decisões tomadas de cima para baixo. É fundamental fortalecer a organização estudantil e garantir efetivamente a Lei do Grêmio Livre. Garantir uma educação verdadeiramente inclusiva e combater todas as formas de discriminação. Isso exige acessibilidade, profissionais e estrutura adequados para estudantes com deficiência, além do enfrentamento ao racismo, ao machismo e às demais formas de discriminação. Garantir financiamento público suficiente para a educação pública. Queremos rever as prioridades do Estado e assegurar que os recursos públicos sejam destinados à rede pública. Garantir a segurança e a proteção de toda a comunidade escolar. Isso exige políticas efetivas de prevenção e enfrentamento ao assédio e a todas as formas de violência no ambiente escolar, além de enfrentar os impactos da violência urbana e das operações policiais sobre o direito à educação, especialmente nas favelas e periferias.

revistapontocom – A senhora conhece o dia a dia das escolas públicas estaduais e de seus professores ou é algo distante de sua realidade? Juliete Pantoja – Não é uma realidade distante de mim. Pelo contrário, a escola pública e os serviços públicos fazem parte da minha vida e da realidade da minha família. Eu estudei em escola pública e sou mãe de um jovem que também estuda na rede pública. Moro na Zona Norte do Rio de Janeiro, utilizo transporte público e conheço, como milhões de trabalhadores e trabalhadoras do nosso estado, o que significa depender de serviços públicos para viver. Além disso, há muitos anos atuo nos movimentos sociais e, ao longo dessa trajetória, também estive ao lado dos profissionais da educação, de seus sindicatos e movimentos em greves e mobilizações em defesa da escola pública.

revistapontocom – Qual é a proposta de sua campanha para a área da Educação? Existe algum documento? Podemos ter acesso? Juliete Pantoja – Nossa proposta central é fazer da educação pública uma prioridade do Estado e tratá-la efetivamente como um direito, e não como uma mercadoria. Para nós, não basta administrar os problemas atuais da rede. É necessário reconstruir e ampliar a educação pública, garantir financiamento adequado e colocar no centro dessa política a valorização dos profissionais da educação e o direito de todos os estudantes a uma formação pública, gratuita, laica, democrática e de qualidade. E sim, o conjunto de propostas para alcançar isso está documentado e pode ser consultado. Elas fazem parte do nosso Programa de Governo para o Estado do Rio de Janeiro, “80 Propostas da Unidade Popular para Transformar o Rio de Janeiro”, que possui um capítulo específico dedicado à educação, além de propostas relacionadas à juventude, acessibilidade, transporte e demais políticas que interferem diretamente na vida escolar. Nossa candidatura estadual também está vinculada a um projeto nacional. O Programa de Governo da Unidade Popular para o Brasil, apresentado pela candidatura de Samara Martins

revistapontocom – Se eleita, o que é possível ser feito em curto prazo? Há alguma prioridade? Juliete Pantoja – Nossa prioridade imediata será enfrentar a situação de precarização da rede estadual, valorizando os profissionais da educação, instituir uma Política Estadual de Auxílio-Permanência Estudantil, além de fortalecer a alimentação escolar e garantir o passe livre intermunicipal para estudantes. Existem ainda decisões políticas que podem ser tomadas imediatamente. Entre elas está a desmilitarização das escolas estaduais e o fim do programa de escolas cívico-militares. Outra medida de curto prazo será realizar um levantamento das necessidades da rede, escola por escola. A partir desse diagnóstico, queremos estabelecer um plano emergencial de recuperação da rede e, ao mesmo tempo, iniciar a expansão necessária para garantir o direito à educação.

revistapontocom – O que está sendo realizado pela atual gestão da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro que merece ter continuidade? O que é preciso mudar de imediato? Juliete Pantoja – Um exemplo é a expansão da educação em tempo integral. A atual gestão vem aumentando o número de vagas nessa modalidade, e consideramos que essa expansão deve continuar. Os dados mais recentes do Ideb também registraram uma melhora dos indicadores educacionais do Rio de Janeiro, resultado que precisa ser reconhecido e que certamente envolve, antes de tudo, o trabalho cotidiano dos professores, funcionários e estudantes da rede pública. Entretanto, defendemos uma concepção diferente sobre o próprio ensino integral. Não queremos apenas ampliar o número de horas que o estudante permanece dentro da escola. É necessário garantir infraestrutura, alimentação adequada, professores e demais profissionais em número suficiente e uma formação científica, cultural, artística e esportiva. Nosso programa estabelece como objetivo ampliar gradualmente o ensino integral para 100% das escolas da rede pública estadual. O que precisa mudar imediatamente é a política de precarização do trabalho na educação. Queremos substituir progressivamente a dependência de contratos temporários e terceirização por concursos públicos, recompor os quadros da rede e construir uma verdadeira política de valorização profissional, com carreira, salários dignos e formação continuada. Outra mudança imediata será interromper o fechamento sistemático de turmas e escolas, especialmente no ensino noturno e na Educação de Jovens e Adultos. Também romperemos com a política de militarização das escolas e vamos garantir efetivamente a Lei do Grêmio Livre e fortalecer a participação dos estudantes na vida das escolas.

revistapontocom – Pode-se dizer que a educação será prioridade em seu governo? Como um Governador pode, de fato, torná-la prioritária entre tantas demandas? Juliete Pantoja – Sim. A educação será uma das prioridades centrais do nosso governo. Mas dizer que a educação é prioridade não pode ser apenas uma frase de campanha. Prioridade se demonstra no orçamento, na valorização dos profissionais, nas condições das escolas e nas decisões que um governo toma todos os dias. Sabemos que o Governo do Estado precisa responder simultaneamente a problemas graves na saúde, segurança, transporte, habitação e diversas outras áreas. Não enxergamos, porém, esses direitos como concorrentes entre si. Educação pública de qualidade é parte fundamental de um projeto de desenvolvimento econômico e social para o Rio de Janeiro e tem impacto sobre todas essas áreas. Por isso, tornar a educação prioritária significa, em primeiro lugar, mudar as prioridades do orçamento estadual. O Rio de Janeiro é um estado rico, mas essa riqueza não tem sido convertida na mesma proporção em direitos e serviços públicos para a população. Em 2026, por exemplo, o orçamento estadual prevê R$ 10,89 bilhões em despesas com Educação, enquanto a estimativa de renúncias decorrentes de benefícios e incentivos fiscais alcança R$ 24,14 bilhões. Nosso programa propõe justamente a revisão da política de isenções fiscais concedidas às grandes empresas e uma auditoria dos grandes devedores de impostos, além de uma mudança geral das prioridades econômicas do Estado. Para nós, os recursos públicos precisam estar prioritariamente a serviço dos direitos da população.

revistapontocom – Por que professores, funcionários, estudantes e suas famílias deveriam votar na senhora para Governadora? Juliete Pantoja – Quando dizemos que vamos valorizar a educação, estamos falando de valorizar a vida do povo do Rio de Janeiro. Valorizar quem trabalha, quem estuda, quem pega transporte público todos os dias, quem precisa da escola pública para seus filhos e quem dedica sua vida profissional a garantir o direito à educação. Por isso, nossa candidatura não pretende apresentar apenas promessas para a educação, mas um programa político revolucionário, que propõe mudar as prioridades do Governo do Estado. É esse projeto que colocamos à disposição dos professores, funcionários, estudantes e de suas famílias. Queremos que nossa candidatura seja julgada pelo programa que apresentamos e, sobretudo, pelas lutas que a Unidade Popular e os movimentos que constroem o nosso partido realizam todos os dias ao lado dos trabalhadores e da juventude do Estado do Rio de Janeiro. É dessa luta concreta que nascem os nossos compromissos e é a ela que queremos dar voz no Governo do Estado.

revistapontocom – Se eleita, que perfil de secretário de educação a senhora buscaria?
Juliete Pantoja – Buscaria uma pessoa profundamente comprometida com nosso programa para a educação e que conheça a realidade da escola pública e esteja disposta a construir uma gestão ouvindo e respeitando os trabalhadores e estudantes.

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