Na Creche Municipal Emília Joana da Fonseca Marques, na Praça Seca, o programa Esse Rio é Meu inspira experiências pedagógicas que envolvem crianças e famílias na descoberta da importância de preservar a natureza e o Rio Tindiba.
Por Marcus Tavares
Como despertar nas crianças pequenas o interesse pelo cuidado com o meio ambiente? Na Creche Municipal Emília Joana da Fonseca Marques, na Praça Seca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, a resposta está nas histórias, nas brincadeiras, nas investigações e nas experiências que aproximam a aprendizagem do cotidiano infantil. Com cerca de 130 crianças, de 1 ano a 3 anos e 11 meses, a unidade desenvolve atividades que abordam a destinação adequada do lixo, a preservação dos rios e a sustentabilidade.
O trabalho integra o programa Esse Rio é Meu e envolve também as famílias e a comunidade escolar. Em uma das experiências, as crianças visitaram o Rio Tindiba e observaram a poluição da água. Em outra, brincadeiras de pescaria imaginária deram origem a conversas sobre os peixes e a importância da água limpa.
Professora de Educação Infantil há 15 anos, formada em Pedagogia e pós-graduada em Psicopedagogia Institucional, Renata Barboza dos Santos é professora regente da turma EI 22, do Maternal 1. Nesta entrevista à revistapontocom, ela conta como as atividades são desenvolvidas, compartilha as descobertas das crianças e destaca a importância de reconhecer os pequenos como protagonistas do próprio aprendizado.
revistapontocom – Que atividades as crianças desenvolveram em 2025? Renata Barboza dos Santos – Ao longo de 2025, realizamos atividades relacionadas ao Plano das Dimensões da unidade e ao programa Esse Rio é Meu, da 7ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE). As crianças e seus familiares visitaram o EDI Eu Sou para conhecer o espaço e compartilhar propostas de cuidad o com o planeta e com o Rio Tindiba, que também passa perto dessa unidade. Antes da visita, contamos na creche a história Viagem ao Planeta Lixo, de Dirlei Elem, que nos ajudou a explorar questões ambientais e de sustentabilidade.

Também brincamos de atravessar uma ponte imaginária sobre o Rio Tindiba e confeccionamos um cartaz de conscientização sobre os cuidados com o lixo e com o rio. Levamos o material e mensagens educativas ao EDI Eu Sou, onde realizamos uma campanha. Na Rua Cândido Benício, distribuímos mensagens a comerciantes, pedestres e mototaxistas. Durante essas experiências, as crianças observaram o rio e perceberam a presença de lixo nas ruas. Depois, fizemos rodas de conversa sobre a destinação dos resíduos, a coleta seletiva e os três Rs: reduzir, reutilizar e reciclar.

Pedimos às famílias que separassem materiais recicláveis, fotografassem esse processo e levassem os registros à creche. Os materiais também foram utilizados na produção de arte e brinquedos. Organizamos um circuito de coleta seletiva, no qual as crianças separaram e classificaram plástico, papel, metal e vidro. Elas também gostaram de brincar de caminhar sobre uma ponte feita de corda, imaginando o Rio Tindiba com águas limpas, muitos peixes e até um jacaré. Construímos ainda uma nave espacial com garrafas PET e viajamos imaginariamente pelo espaço sideral.


Percebemos um grande envolvimento das crianças com os cuidados ambientais. Maria Ester, da turma EI 32 em 2025, disse que não podíamos gastar muita água do “mundinho”. A mãe de Sarah, também da EI 32, contou que a filha viu um cano estourado e, ao observar um homem consertando o vazamento, disse: “Você não pode deixar a água do mundinho acabar!”.
Isaac Oliveira, da mesma turma, comentou: “Tia, na rua tem lixo e o cachorro fez cocô e xixi na rua!”. Depois da campanha, quando seguíamos para o refeitório, Sarah disse: “Eu estou investigando se alguém jogou lixo em nossa creche. Ah, nossa creche está limpinha!”. No dia seguinte, várias crianças recolheram papéis deixados por alunos do CIEP e outros resíduos, explicando que estavam limpando a creche. A fala de Sarah inspirou o subprojeto “Os detetives da sala azul!”, desenvolvido no quarto bimestre de 2025. Como quem investiga pode ser um detetive, as crianças gostaram da ideia e passaram a explorar a cor azul na sala de referência, nos brinquedos e nas roupas.


Também criamos um juramento coletivo: “Nós prometemos cuidar bem dos nossos rios, de nossas praias e lagos, de nossos animais, de nossas plantinhas! Vamos reciclar e transformar o nosso lixo e plantar muitas sementes e mudinhas!”. A atividade terminou com a celebração: “Viva a nossa Creche Emília Joana! Uma creche que transforma e contagia!”.

revistapontocom – E em 2026, quais atividades foram desenvolvidas? Renata Barboza dos Santos – Neste ano, nossas propostas pedagógicas continuaram alinhadas ao programa Esse Rio é Meu. Cada turma desenvolveu subprojetos com experiências voltadas aos cuidados com o meio ambiente, à reciclagem e à preservação de rios, lagos e mares.
A turma do Berçário participou da brincadeira africana Terra e Mar. A EI 21 confeccionou bilboquês, brinquedos de origem indígena, com garrafas PET. A EI 31 explorou os animais marinhos e a cultura oceânica por meio de atividades na sala de referência e de um passeio ao AquaRio. Na EI 32, a capivara e seu habitat entraram em pauta depois que Ravi contou, durante uma roda de conversa, que havia visto o animal no shopping com os pais. A partir desse relato, as crianças investigaram suas características e levantaram hipóteses: disseram que a capivara comia capim, que era grande ou pequena e que tinha muitos filhotes. Juntos, produziram um texto coletivo, pintaram uma capivara feita de papelão e montaram um cartaz.

Na EI 22, turma em que sou professora regente, as crianças começaram o ano explorando buracos no chão da quadra descoberta do CIEP Doutor Adelino de Palma Carlos, onde a creche funciona. Elas costumavam pegar galhos para usar como anzóis e brincar de pescar peixes imaginários. A partir dessas brincadeiras, investigamos os cuidados com a água parada. Também construímos um mosquito da dengue com uma garrafa PET para explorar o tema no quintal da creche. Depois, pedimos aos funcionários da empresa Zelart que tapassem os buracos da quadra.

Paralelamente, trabalhamos a cultura oceânica e o habitat dos peixes. Com o programa Esse Rio é Meu, as crianças foram com suas famílias observar o Rio Tindiba, próximo à creche. Perceberam que a água estava poluída e relacionaram essa condição à ausência de peixes no local. Retomamos, então, a brincadeira de pescar, usando tampinhas de garrafa como peixes imaginários. De maneira lúdica, discutimos a importância da água limpa e exploramos conhecimentos matemáticos, como cores e quantidades. Comparamos a presença de muitos peixes em um rio limpo com a situação de um rio poluído, onde os peixes podem morrer.

As crianças expressaram suas hipóteses e opiniões nas rodas de conversa. Lorenna Cerqueira, por exemplo, comentou: “Tia, o Rio Tindiba tem cheiro de cocô”. As descobertas continuam no quarto bimestre. Quando viu que um dos buracos da quadra havia sido tapado, Cauã Adriano perguntou: “Tia, cadê o peixe?”. A partir dessa curiosidade, seguimos explorando a cultura oceânica por meio de histórias, cantigas de roda, brincadeiras, músicas e experiências relacionadas ao cotidiano das crianças, tanto na família quanto na creche.

revistapontocom – O que as crianças descobriram com essas experiências? Renata Barboza dos Santos – Nossas crianças são pequenas investigadoras que fazem grandes descobertas. Elas percebem que precisamos cuidar do nosso “mundinho” e se envolvem nessa proposta. Quando escutamos atentamente e registramos suas falas, percebemos como as atividades pedagógicas fortalecem o protagonismo infantil. As crianças expressam opiniões críticas e levam o que aprendem para além dos muros da creche.

revistapontocom – Como tem sido a repercussão do trabalho na escola? Renata Barboza dos Santos – Crianças, famílias, funcionários e toda a comunidade escolar participam e se envolvem nas propostas. As famílias são parceiras, e a direção não apenas apoia as ações, mas também participa delas. Temos momentos como o “Aconteceu na creche!”, em que familiares, crianças e professores compartilham oficinas de brinquedos, oficinas de arte e passeios educativos.

revistapontocom – Que transformações o programa trouxe para as crianças, os professores e a escola? Renata Barboza dos Santos – Somos uma instituição de ensino que acredita no potencial das crianças e no poder de uma educação de qualidade, que ultrapassa os muros da creche e contribui para formar uma sociedade mais consciente e responsável. A Creche Emília Joana é um lugar onde o amor contagia e transforma. Juntos, somos mais fortes! Participar do programa Esse Rio é Meu tem sido muito gratificante. A formação continuada nos ajuda a compreender e reconhecer nosso papel na sociedade, além de transformar hábitos e atitudes em favor de um mundo melhor.

Ao mesmo tempo que ensinamos, aprendemos muito com as crianças. Durante as atividades sobre os cuidados com rios, mares, lagoas e animais, Enddy Lucca pergunta: “Pode jogar lixo no rio, pode?”. As outras crianças respondem em coro: “Não!”. Sou muito grata e feliz por ser professora na Creche Emília Joana e contribuir, junto com meus colegas, para a vida de cada criança e das famílias da comunidade escolar.

revistapontocom – O que o programa Esse Rio é Meu significa para a senhora? Renata Barboza dos Santos – Amo trabalhar com projetos, porque essa metodologia envolve todos e proporciona experiências significativas. A criança é sempre a protagonista das nossas propostas pedagógicas. Fico encantada com as falas das crianças, com os conhecimentos de mundo que trazem e com aquilo que levam para além dos muros da creche. Tem sido e continuará sendo muito gratificante fazer parte do grupo que desenvolve propostas a partir do programa Esse Rio é Meu. Espero que possamos continuar contribuindo, junto com toda a equipe pedagógica da unidade, com práticas significativas que favoreçam a troca de experiências com outras instituições e colegas de profissão. Sou grata por fazer parte dessa formação.







