À margem do Rio Abel, estudantes da EM Professor Alberto Pirro descobrem novos caminhos para aprender

Entrevista com a professora Renata Soneghetti Cauper Pinto.

Por Marcus Tavares

Projeto desenvolvido com estudantes do 9º ano, na EM Professor Alberto Pirro, em Queimados, aproxima o ensino de Língua Portuguesa e Geografia dos problemas ambientais do território e transforma o Rio Abel em objeto de estudo, reflexão e produção.

O que um rio que passa perto da escola pode ensinar aos estudantes? Na Escola Municipal Professor Alberto Pirro, localizada no bairro Jardim Alzira, em Queimados, a resposta começou a aparecer nas aulas de Língua Portuguesa. Ao trabalhar questões ambientais com as turmas do 9º ano, a professora Renata Soneghetti Cauper Pinto encontrou uma maneira de aproximar conteúdos curriculares da realidade vivida pelos próprios alunos e colocou o Rio Abel no centro dessa conversa.

A proposta partiu de uma inquietação da professora: criar situações em que os estudantes pudessem observar, conhecer e refletir sobre o lugar onde vivem. Mais do que falar genericamente sobre meio ambiente, a intenção foi fazer com que eles percebessem os problemas ambientais existentes no próprio território e identificassem possibilidades de atuação. “Essa proposta nasceu da minha inquietação em encontrar maneiras de levar cada aluno a observar, conhecer e refletir sobre o meio em que vive”, explica Renata.

clique aqui e conheça um pouco mais sobre o trabalho da professora com os estudantes

A iniciativa também dialoga com os estudos que a professora vem realizando na Especialização Lato Sensu em Educação Ambiental para Educadores, do Colégio Técnico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CTUR/UFRRJ). Sob orientação do professor doutor Alex Braz Iacone Santos, Renata vem aprofundando questões relacionadas à preservação ambiental e buscando novas formas de levar esse conhecimento para a escola.

O primeiro movimento do trabalho foi conversar. Antes de iniciar as produções dos estudantes, a professora promoveu uma roda de conversa sobre meio ambiente. O objetivo era identificar o que os alunos já sabiam e, ao mesmo tempo, ampliar seus conhecimentos sobre questões como poluição, aquecimento global e efeito estufa.

Vídeos também foram utilizados para estimular a discussão. A partir daí, a conversa avançou para temas mais próximos do cotidiano, como coleta seletiva, reciclagem e tratamento de esgoto. A preocupação era estabelecer uma ponte entre conhecimentos já trabalhados em outras disciplinas, especialmente Ciências, e os conteúdos desenvolvidos nas aulas de Língua Portuguesa.

Essa articulação apareceu também na escolha dos gêneros textuais. Artigos de opinião, notícias, textos informativos e poesias passaram a ser utilizados como instrumentos para discutir os problemas ambientais e, ao mesmo tempo, desenvolver habilidades de leitura, interpretação e produção textual.

Em uma segunda etapa, os estudantes foram convidados a produzir materiais de comunicação sobre Educação Ambiental. A professora escolheu trabalhar com o gênero post, mostrando aos alunos como esse formato pode ser utilizado para informar e sensibilizar outras pessoas.

Para estimular a criatividade, Renata levou diferentes exemplos para a sala de aula. Em grupos, os estudantes passaram então a planejar como poderiam transformar aquilo que haviam aprendido em mensagens capazes de chegar à comunidade. O resultado foi uma série de posts produzidos pelos próprios alunos e compartilhados em um espaço digital. A comunidade escolar também foi convidada a participar, deixando comentários nas produções.

O trabalho envolve todas as turmas do 9º ano e está articulado ao Projeto Político-Pedagógico da escola. Neste ano, a unidade trabalha com o tema “Raízes que se conectam: Alberto Pirro resgatando memórias”, em diálogo com a proposta da Rede Municipal de Ensino de Queimados, “Árvore: Afeto que Aproxima; Tecnologia que Ensina; a Educação que Transforma”.

Nesse contexto, estudar o Rio Abel significa, segundo a professora, também olhar para o território e para a relação que a comunidade estabelece com ele. O rio enfrenta problemas como descarte inadequado de resíduos, assoreamento e degradação de suas margens. “A proposta, portanto, não se encerra na produção dos posts. Novas atividades estão previstas, entre elas a produção de poesias e debates sobre gestão de resíduos. O projeto também deverá avançar para uma oficina educativa voltada às questões ambientais, em uma ação interdisciplinar com a disciplina de Geografia, conduzida pelo professor Paulo Walter Freire do Nascimento, professor de Geografia da escola”, conta.

Nessa próxima etapa, os estudantes terão de mobilizar conhecimentos básicos de leitura e interpretação de mapas para compreender melhor o território e localizar o Rio Abel. A atividade amplia a discussão: o rio deixa de ser apenas um tema ambiental e passa a ser também uma referência para pensar espaço, comunidade e território.

A participação da Geografia amplia a perspectiva do projeto e permite que os estudantes estabeleçam relações entre os problemas ambientais e as características do território em que vivem. Ao observar a localização do Rio Abel, seus percursos e as áreas afetadas pelos impactos ambientais, os alunos podem compreender que questões como o descarte inadequado de resíduos, o assoreamento e a degradação das margens não estão isoladas, mas fazem parte de uma realidade territorial que pode ser investigada e compreendida.

Para Renata, esse movimento é fundamental para que os estudantes percebam que os conhecimentos escolares podem ajudar a compreender e transformar a realidade. “O objetivo geral do projeto é justamente promover a consciência socioambiental dos alunos a partir da discussão de problemas ambientais existentes no local onde vivem. A expectativa é que cada estudante possa reconhecer seu papel na conservação do meio ambiente e compreender que as escolhas feitas hoje também produzem efeitos para as próximas gerações”.

A Escola Municipal Professor Alberto Pirro atende 333 estudantes no 1º segmento e outros 409 nos Anos Finais do Ensino Fundamental. A unidade desenvolve ainda projetos como o Projeto Família, o Projeto de Leitura e atividades junto ao Grêmio Estudantil, buscando fortalecer a identidade dos estudantes por meio de uma educação interdisciplinar e transformadora.

No projeto desenvolvido por Renata, essa transformação começa justamente por uma mudança de olhar. Antes de produzir um post, escrever uma poesia ou interpretar um mapa, os estudantes são convidados a olhar para o lugar onde vivem. E, quando o olhar muda, o território também pode passar a ser compreendido de outra maneira. O Rio Abel, que poderia permanecer apenas como parte da paisagem de Queimados, transforma-se em conteúdo, pergunta, objeto de investigação e possibilidade de ação.

À margem do Rio Abel, os estudantes descobrem que aprender sobre o meio ambiente também significa compreender a própria comunidade, reconhecer os desafios do território e perceber que diferentes áreas do conhecimento podem se encontrar para ajudar a interpretar e transformar a realidade.

Professora de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental da rede municipal de Queimados e no Ensino Médio da Rede Estadual, em São João de Meriti, Renata é mestre em Língua Portuguesa pelo Mestrado Profissional em Letras (PROFLETRAS/UERJ-FFP). É graduada em Letras pela UFRJ, com habilitação em Português e Francês, e em Comunicação Social pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha). Também possui especializações em Língua Portuguesa, Estudos Literários, Leitura e Escrita no Ensino de Surdos, Linguística Forense e Metodologia do Ensino de Francês como Língua Estrangeira.

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