E se aprender sobre os ODS virasse um jogo?

Ludicidade e aprendizagem.

Jogo educacional que transforma os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em uma experiência de aprendizagem será lançado em São Paulo no dia 19 de agosto.

Por Marcus Tavares

Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) vão sair das páginas de uma publicação e ganhar espaço entre cartas, perguntas, respostas, estratégias e decisões coletivas, em um jogo capaz de captar a atenção de todos. No dia 19 de agosto, será lançado em São Paulo o Missão 2030: ODS em ação, jogo educacional que integra a publicação Objetivos de Desenvolvimento Sustentável Comentados, da Editora da Câmara dos Deputados. A proposta é transformar uma agenda global, que reúne temas como educação, igualdade, trabalho, meio ambiente, consumo e mudanças climáticas, em uma experiência lúdica de aprendizagem.

O lançamento acontece às 16h, no Hub Green Sampa, em Pinheiros, e contará com apresentação e vivência do jogo, além de uma roda de conversa sobre metodologias ativas, gamificação e educação para a sustentabilidade. O evento é gratuito e tem vagas limitadas. Os participantes também receberão gratuitamente um exemplar da publicação, enquanto houver disponibilidade.

Por trás da iniciativa está Thaís Zschieschang, psicóloga social e pós-doutoranda em Psicologia Social, que atua também à frente de uma consultoria voltada ao impacto socioambiental. Seu trabalho envolve o apoio a organizações sociais, negócios de impacto e laboratórios de inovação interessados em ampliar e mensurar o impacto positivo que geram. Nesse percurso, a gamificação passou a ocupar um espaço importante como ferramenta de sensibilização, educação e mobilização em torno de causas.

“Uma das ferramentas que a gente usa não só para sensibilizar, engajar e educar comunidades, mas também para disseminar pautas importantes e relevantes para a gente, como os objetivos de desenvolvimento sustentável e o ensino de sustentabilidade em escolas, é a gamificação”, explica.

A experiência acumulada inclui jogos sobre temas como enfrentamento ao racismo, linguagem simples, uso da água, resíduos, economia circular, igualdade de gênero, relações justas de trabalho e os próprios ODS. Além de desenvolver jogos, a consultoria também trabalha com metodologias que ajudam organizações, escolas e educadores a criarem suas próprias experiências lúdicas.

O Missão 2030 surgiu justamente desse repertório. A iniciativa nasceu a partir de um convite da Editora da Câmara dos Deputados, que já estava trabalhando na publicação Objetivos de Desenvolvimento Sustentável Comentados. A ideia inicial era apresentar os ODS e ampliar o acesso a informações sobre eles. Uma experiência anterior com um jogo sobre linguagem simples, desenvolvido em parceria com o Tribunal Regional Federal da 1ª Região, chamou a atenção de integrantes da editora e abriu espaço para uma nova proposta.

A provocação era descobrir como fazer com que o conteúdo do livro pudesse também ganhar uma dimensão prática e participativa. A resposta foi um jogo de cartas. No Missão 2030, professores, educadores ou facilitadores organizam os participantes em grupos. As equipes recebem cartas com perguntas e respostas relacionadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Conforme acertam ou erram, acumulam cartas. A dinâmica também inclui cartas de sorte e revés, criando situações que exigem atenção, estratégia e interação entre os jogadores.

Mas a experiência não termina quando as perguntas são respondidas. Ao longo da atividade, as cartas acumuladas são utilizadas para montar um painel visual que representa uma cidade inteligente conectada. É justamente nessa combinação entre conteúdo, interação e construção coletiva que está uma das principais características da proposta. “As perguntas, as imagens e a própria dinâmica de atuação coletiva do jogo têm alguns ganhos, como a integração, a estratégia de comunicação, o próprio pensar em como o que a gente faz afeta no nosso coletivo”, afirma Thaís.

A dinâmica também cria situações em que os participantes precisam lidar com opiniões diferentes, conversar, tomar decisões e perceber que suas escolhas individuais podem produzir consequências para o grupo. Para Thaís, jogar não significa apenas responder corretamente a uma pergunta sobre um dos ODS. Significa também ouvir, argumentar, negociar, lidar com a frustração, construir estratégias e conviver com pessoas diferentes.

A escolha por uma linguagem acessível foi outro aspecto importante do desenvolvimento do jogo. O Missão 2030 foi pensado para pessoas a partir dos 10 anos e pode ser utilizado com adolescentes e adultos, dependendo do contexto. A ideia é evitar que os ODS sejam apresentados como um conjunto de conceitos distantes ou excessivamente técnicos. “Não precisa ser supercomplexo falar sobre”, afirma Thaís. O nível de complexidade pode ser adaptado de acordo com a faixa etária e com o conhecimento prévio dos participantes.

Nesse processo, o papel do professor, do educador ou do facilitador ganha importância. O jogo não pretende substituir a mediação pedagógica. Ao contrário: depende dela para que as perguntas possam gerar discussões, esclarecer dúvidas e aprofundar os temas quando necessário.

O livro Objetivos de Desenvolvimento Sustentável Comentados entra justamente como uma ferramenta complementar para ampliar o repertório de quem conduz a atividade. “O professor tem um papel muito fundamental, que é o de multiplicador para que esse conteúdo, esse tema, chegue em mais pessoas”, explica Thaís. Para ela, cabe também ao educador fazer as correspondências, os detalhamentos e os aprofundamentos necessários de acordo com o público.

Essa preocupação é especialmente importante porque os 17 ODS não formam uma agenda simples. São, na verdade, muitas agendas reunidas em uma única proposta global. “É um assunto, são vários assuntos dentro de um”, observa Thaís. “A gente está falando aqui de uma agenda inteira de desenvolvimento humano e ambição socioambiental.”

Esse foi, segundo ela, um dos maiores desafios na criação do jogo: como apresentar uma agenda tão abrangente sem tentar aprofundar todos os seus temas ao mesmo tempo? A solução foi trabalhar com perguntas, dados e contextualizações capazes de despertar o interesse e abrir caminhos para outras discussões. O jogo funciona, assim, como uma porta de entrada. A partir dele, professores e facilitadores podem aprofundar determinados assuntos de acordo com o contexto e os interesses dos participantes.

É também por isso que o Missão 2030 não foi pensado exclusivamente para escolas. Embora possa ser utilizado com estudantes da educação básica, sua proposta permite a participação de diferentes públicos, especialmente a partir dos 10 anos. A gamificação, nesse contexto, não aparece apenas como uma forma de tornar a atividade mais divertida. Ela é entendida como uma estratégia de aprendizagem capaz de capturar a atenção e estimular trocas entre os participantes. “Ela apoia na aprendizagem pela captura de atenção e também pelas trocas coletivas dentro da dinâmica dos jogos entre os alunos”, afirma Thaís.

Entre as habilidades mobilizadas estão o trabalho em equipe, a comunicação, a resiliência, a capacidade de lidar com a frustração e a tomada de decisões coletivas. Há ainda uma dimensão importante de convivência: experimentar estar em um grupo com pessoas diferentes daquelas com quem se convive habitualmente.

Para crianças e jovens, essa pode ser uma maneira menos tradicional de entrar em contato com conteúdos que, muitas vezes, aparecem na escola por meio de textos, conceitos e explicações. A experiência lúdica cria outra possibilidade de aprendizagem.

Mas há uma questão que acompanha qualquer conversa sobre a Agenda 2030: o que acontece quando chegarmos ao fim do período estabelecido para o cumprimento dos ODS? A resposta de Thaís é direta. O prazo não significa que os problemas deixarão de existir.

A Agenda 2030 representa um pacto construído no âmbito das Nações Unidas para estabelecer prioridades relacionadas à dignidade, à igualdade e ao desenvolvimento sustentável. Seus objetivos traduzem preocupações que envolvem pessoas, territórios e diferentes setores da sociedade.

“Para a gente conseguir trabalhar assuntos assim tão complexos, a gente precisa de estratégia, financiamento, todos os atores que são relevantes, sejam eles públicos, sociais, nacionais, internacionais, pessoas físicas, jurídicas e todo esse processo, somando esforços e preocupados com a mesma agenda”, explica.

O cenário atual, segundo ela, exige ainda mais atenção. Muitos dos resultados previstos para o período não deverão ser alcançados, o que revela a dimensão dos desafios relacionados aos recursos naturais, ao trabalho, à igualdade de gênero, à biodiversidade e a diversas outras áreas. “Isso é muito alarmante porque significa que a gente está falando de recursos naturais, trabalho, igualdade de gênero, biodiversidade, enfim, uma série de elementos que a gente não chegou perto do desejado.”

Para Thaís, entretanto, o eventual encerramento do ciclo da Agenda 2030 não significa o encerramento dessas pautas. Os objetivos podem ganhar novos nomes, novas metas ou novos prazos, mas as questões fundamentais permanecem. “Essas agendas não vão deixar de ser relevantes, a sensibilização e preocupação com esses temas também não.”

É nesse ponto que a educação ganha novamente um papel estratégico. Se a sustentabilidade precisa fazer parte das escolhas individuais, das políticas públicas, das empresas e das organizações, a formação das novas gerações torna-se fundamental. “Engajar pessoas, ainda mais na idade mais nova, para que elas formem suas preocupações já com sustentabilidade, já desde muito cedo, é uma ótima prática. Então, devemos fazer de qualquer forma, independente das eventuais atualizações ou não da agenda.”

O jogo, portanto, não pretende oferecer respostas prontas para os grandes desafios globais. Sua proposta é provocar perguntas, ampliar repertórios e criar situações em que os participantes percebam que os ODS não são apenas compromissos assumidos por governos ou organismos internacionais. São temas que atravessam escolhas cotidianas e dependem da participação de diferentes atores. “Realmente depende de vontade política”, afirma Thaís. Mas, para ela, essa vontade política não se restringe às instituições. Também passa pelas escolhas individuais e pela formação das pessoas.

Empresas, governos, organizações sociais e organismos internacionais são formados por pessoas. Por isso, lideranças sensibilizadas e preparadas para pensar sobre desenvolvimento sustentável podem contribuir para que esses compromissos deixem de ser apenas documentos e passem a orientar decisões.

É justamente nesse espaço entre informação, sensibilização e ação que o Missão 2030 pretende atuar. O jogo terá uma versão disponibilizada gratuitamente e de forma aberta, com manual de regras, cartas e orientações para impressão e utilização. A proposta é que escolas, professores, educadores, organizações e outros interessados possam acessar os arquivos, produzir o material e utilizá-lo em suas próprias atividades.

Quem quiser utilizar o jogo deverá preencher um formulário com algumas informações e, depois, será direcionado aos arquivos necessários para produzir o material, incluindo dicas de impressão e de uso. A ideia é fazer com que uma agenda internacional deixe de parecer distante e passe a fazer parte das conversas, escolhas e experiências do cotidiano. Porque talvez seja justamente aí que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ganhem seu sentido mais concreto: quando deixam de ser apenas 17 metas estabelecidas em um documento internacional e passam a provocar perguntas sobre o mundo que crianças, jovens e adultos querem construir.

Serviço
Lançamento do Missão 2030: ODS em ação
Data: 19 de agosto, às 16h
Local: Hub Green Sampa – Rua Sumidouro, 580, Pinheiros, São Paulo (SP)
Programação: apresentação e vivência do jogo e roda de conversa sobre metodologias ativas, gamificação e educação para a sustentabilidade.
Entrada: gratuita, com vagas limitadas.
Os participantes receberão gratuitamente um exemplar da publicação Objetivos de Desenvolvimento Sustentável Comentados, enquanto houver disponibilidade.

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