Por Marcus Tavares
Esse Rio é Meu: projeto da Escola Municipal Domingos Paschoal Cegalla une educação midiática, alfabetização, memória afetiva e conscientização ambiental para salvar o Rio Tindiba
O que uma criança pode fazer para salvar um rio? Na Escola Municipal Domingos Paschoal Cegalla, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, essa pergunta ganhou resposta concreta em forma de reportagens, entrevistas, pesquisas de campo, vídeos e até um jornal produzido inteiramente pelos próprios estudantes. Assim nasceu o Jornal da Esperança, projeto que transformou alunos do 3º ano do Ensino Fundamental em repórteres, pesquisadores e multiplicadores de conhecimento sobre a preservação do Rio Tindiba, em Jacarepaguá.
A iniciativa é desenvolvida pela professora Rebeca Magalhães e integra as ações do programa Esse Rio é Meu, articulada ao Projeto ANDAR, da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, que incentiva a educação midiática e o protagonismo estudantil. Mais do que um jornal escolar, a proposta se consolidou como um espaço de escuta, participação e formação cidadã, fortalecendo os vínculos entre escola, família e comunidade.
“O jornal se tornou um espaço para dar visibilidade às vozes da nossa comunidade escolar, registrar experiências vividas pelos estudantes e compartilhar as aprendizagens construídas ao longo do ano”, explica a professora.
No projeto, o Rio Tindiba deixa de ser apenas um elemento geográfico para se tornar um território vivo de memória e pertencimento. As crianças foram incentivadas a compartilhar lembranças ligadas ao rio, como histórias familiares, brincadeiras, caminhos cotidianos e mudanças observadas na paisagem urbana.
A partir dessas narrativas, surgiu uma reflexão central: preservar o rio também significa preservar a história da própria comunidade.
O trabalho incorporou ainda estudos sobre culturas indígenas, especialmente conhecimentos tradicionais relacionados ao respeito às águas e à natureza, ampliando a compreensão dos estudantes sobre sustentabilidade e responsabilidade socioambiental.

No Jornal da Esperança, os estudantes participaram de todas as etapas da produção, desde a sugestão de pautas até a edição final. Eles realizaram entrevistas, escreveram textos, produziram ilustrações e organizaram informações, assumindo o papel de jovens jornalistas.
A escolha do nome do jornal também foi coletiva e democrática. A proposta vencedora veio de um aluno público-alvo da Educação Especial, que sintetizou o espírito do projeto ao afirmar que o jornal deveria levar esperança às pessoas. A decisão marcou o caráter inclusivo da iniciativa, que passou a representar valores como participação, solidariedade e transformação social por meio da educação.

Uma das atividades mais marcantes foi a pesquisa de campo realizada com apoio das famílias. Os estudantes observaram trechos do Rio Tindiba próximos às suas residências e registraram dados em fichas de observação.
Entre os aspectos analisados estavam a presença de lixo, o lançamento de esgoto, a vegetação local, a presença de animais e possíveis ações de preservação. Os dados foram posteriormente sistematizados em sala de aula e serviram de base para a produção das reportagens e demais conteúdos do jornal, aproximando o conhecimento escolar da realidade vivida pelos estudantes.


Além do jornal, os alunos produziram um livro de tecido dedicado ao Rio Tindiba, reunindo textos, ilustrações, memórias e propostas de preservação ambiental.
Outro elemento central do projeto é o personagem Capitão Limpeza, criado em 2024. O super-herói ambiental participa de apresentações e ações educativas e utiliza uma linguagem lúdica para dialogar com as crianças sobre o cuidado com o meio ambiente, incentivando pequenas atitudes cotidianas capazes de gerar grandes transformações.

Embora o Jornal da Esperança tenha sido lançado em 2026, suas raízes remontam a 2024, quando a professora Rebeca Magalhães iniciou ações do programa Esse Rio é Meu na Escola Municipal Domingos Paschoal Cegalla. Ao longo desse percurso, ela desenvolveu práticas pedagógicas voltadas à alfabetização, educação ambiental e protagonismo estudantil.

Educadora, alfabetizadora e palestrante, Rebeca é graduada em Pedagogia e Letras, especialista em Alfabetização e Letramento e neuropsicopedagoga. Atua nos anos iniciais do Ensino Fundamental com projetos que articulam leitura, escrita, investigação e valorização do território. Em sua trajetória, recebeu o II Prêmio Magda Soares: Transformando Vidas pela Leitura em 2025 e reconhecimento da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro em 2026 pelo trabalho desenvolvido com turmas do 2º ano do Ensino Fundamental.

Sua prática pedagógica se orienta pela formação de estudantes críticos, participativos e capazes de compreender e transformar a realidade em que vivem.
Entre as ações realizadas desde 2024 na escola estão a arrecadação de tampinhas plásticas, produção de cartazes sobre preservação ambiental, peças teatrais, vídeos educativos, confecção do mascote Capitão Limpeza em amigurumi e intervenções artísticas com materiais recicláveis, consolidando uma proposta contínua de educação ambiental integrada ao currículo.


O Jornal da Esperança ultrapassou os muros da escola. As produções são compartilhadas no Instagram da unidade (@emcegalla) e no canal do YouTube (@cegalla), ampliando o alcance das ações.
A iniciativa também ganhou visibilidade na MultiRio, dentro do Projeto ANDAR, tornando-se referência em educação midiática e protagonismo estudantil na rede municipal. Ao compartilhar suas experiências, os estudantes mostram que pequenas ações podem gerar grandes impactos e inspirar outras escolas a desenvolverem projetos semelhantes.



O programa Esse Rio É Meu é desenvolvido em conjunto pela Secretaria Municipal de Educação e pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente da Prefeitura do Rio, em parceria com a oscip planetapontocom e a concessionária Águas do Rio – patrocinadora do programa. O objetivo do programa é engajar escolas na recuperação e preservação dos rios. Cada grupo de escolas da rede pública de ensino do Rio ficou responsável por desenvolver ações em torno de um dos corpos hídricos da cidade.



