Mapas decoloniais, cartografia social, Complexo da Maré, educação crítica, periferias, geografia, ensino, território, pensamento decolonial, Rio de Janeiro
Por Marcus Tavares
Mais do que instrumentos técnicos, os mapas podem ser ferramentas de poder — capazes de revelar ou ocultar realidades, reforçar estigmas ou dar visibilidade a experiências historicamente silenciadas. É a partir dessa compreensão que o educador Luis Lourenço desenvolve o trabalho com mapas decoloniais, uma proposta que rompe com a cartografia tradicional ao colocar no centro as vivências, percepções e narrativas dos próprios sujeitos que habitam os territórios periféricos.

A experiência teve início com adolescentes da Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré, em um contexto marcado pela ocupação militar do território durante a realização da Copa do Mundo de Futebol de 2014. Diante de um cenário de violência e tensões cotidianas, Lourenço buscou construir uma alternativa pedagógica capaz de estimular a reflexão crítica e o pertencimento territorial. “Os mapas decoloniais ‘falam’ das particularidades, situações, desafios, experiências, vivências, medos, prazeres e lutas que fazem parte da geografia local e que não são lembradas pela cartografia ‘oficial’”, afirma.
Educador explica como a prática desenvolvida na Complexo da Maré ressignifica o território, fortalece identidades e propõe uma leitura contra-hegemônica do espaço
A proposta se consolidou como uma prática educativa colaborativa, em que os estudantes passam a interpretar e representar o espaço onde vivem, produzindo conhecimento a partir de suas próprias experiências. Ao longo do processo, surgem debates sobre estigmas, desigualdades e identidades, ampliando a compreensão sobre o território e fortalecendo vínculos com o lugar. “Ao final do ano, eles afirmam que são mareenses”, destaca o educador, que integra a equipe da coordenação de Cooperação Social/Fiocruz, do Projeto Tecendo Diálogos e Produzindo Conhecimentos.

Hoje, a metodologia segue em reconstrução em outros contextos, como no Complexo do São Carlos, mantendo como eixo central a ideia de que mapear também é disputar narrativas. Em entrevista à revistapontocom, Luis Lourenço detalha os fundamentos dessa cartografia crítica, seus impactos na educação e os desafios de expandir a proposta para outros territórios.

Acompanhe a entrevista:
revistapontocom – O que são, na prática, os chamados “mapas decoloniais”?
Luis Lourenço – Os mapas decoloniais (ou descoloniais) são uma forma crítica de criar representações cartográficas, dando visibilidade aos elementos socioespaciais que normalmente não são representados. Eles são ferramentas para elaborarmos outras interpretações do mundo, rompendo com lógicas coloniais, estereótipos e fabulações que recaem sobre territórios e populações periféricas. Essa cartografia é influênciada pela perspectiva do pensamento decolonial, que tem desenvolvido críticas a visão eurocentrica de mundo e a perpetuação das relações de poder constituídas durante a colonização e que ainda estão vigentes na sociedade atual. Os mapas decoloniais são elaborados tendo em mente essas críticas desencadeadas pelo pensamento decolonial. Porém, por ser um mapa, seu campo discursivo de atuação são as representações espaciais, que são portadoras de poder, na medida que tem a capacidade de ocultar ou visibilizar um território e suas características. Em outras palavras, os mapas decoloniais “falam” das particularidades, situações, desafios, experiências, vivências, medos, prazeres, lutas que fazem parte da geografia local, e que não são lembradas pela cartografia “oficial” feita, sobretudo, pelo Estado.
revistapontocom – Quando e como surgiu a ideia de trabalhar com mapas e cartografia social com adolescentes da Maré?
Luis Lourenço – Em 2014, eu atuava como educador de Geografia no Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré – CEASM, dando aula para os(as) adolescentes do Projeto Preparatório para o Ensino Médio, jovens que estavam cursando o 9° do Ensino Fundamental. Nessa época, a favela da Maré estava sendo ocupada pelo Exército Brasileiro, visando garantir a “segurança” para as pessoas que chegavam ao Rio de Janeiro em meio a realização da Copa do Mundo de Futebol de 2014. Nesse contexto de ocupação militar do território da Maré, muitas violências estavam ocorrendo no local e eu sentia que era necessário elaborar alguma iniciativa que me ajudasse a compreender aquela realidade que estavámos vivenciando, ao mesmo tempo, eu acreditava que era importnte desenvolver uma pedagogia que pudesse contrapor o cenário de violência que estávamos presenciando na Maré. O estopim que incendiou meus pensamentos em relação a essa questão foi um dia em que eu subi o Morro do Timbau, onde é a sede do CEASM para dar aula e tinha um canhão do Exército apontado para a porta da instituição. Aquilo foi muito simbólico para mim, uma arma de guerra direcionada para um lugar de ensino. A partir daí, influenciado pelo pensamento decolonial, comecei a pensar formas de desenvolver uma pedagogia que pudesse fazer com que os(as) estudantes refletissem sobre a realidade mareense e consequentemente, tecer uma identificação deles(as) com o território da Maré, lugar em que viviam.
revistapontocom – Como esse conceito se traduz em sala de aula? É uma criação colaborativa?
Luis Lourenço – Essa ideia se traduz na sala de aula a partir da construção de representações que ilustrem o espaço vivido dos estudantes. Por ser uma iniciativa que tomou forma a partir da Maré, a ideia era construir representações de aspectos presentes no território mareense através do olhar e das experiências dos(as) discentes e utilizar essas informações para construir o desenvolvimentos dos conteúdos da disciplina. É uma criação colaborativa na medida que as representações cartográficas são elaboradas a partir dos(as) estudantes, num processo orgânico de vivência no lugar. Essa condição abre diversos debates construtivos sobre temáticas referentes ao local cartografado.
revistapontocom – Ccomo o projeto atua hoje?
Luis Lourenço – Atualmente não estou trabalhando na Maré como educador. Nesse momento, estou reconstruindo essa metodologia no Complexo do São Carlos, onde estou dando aulas de Geografia no Pré-vestibular São Carlos Ativo.
revistapontocom – Por que o senhor considerou importante produzir mapas do próprio território, em vez de utilizar representações tradicionais?
Luis Lourenço – Na Maré, favela em que fui criado e que durante muitos anos atuei como educador, saber os limites das territorialidades que controlam o local pode ser um elemento de vida ou morte. Quando era adolescente, havia muitas questões sobre ir de um lado para o outro na Maré, pois os limites entre os grupos criminosos atuantes no local reverberavam de múltiplas formas no cotidiano dos moradores. Quando me tornei professor, percebi que era necessário saber exatamente onde terminava e começava cada favela do complexo da Maré, não apenas por causa da violência, mas também para entender a pluralidade de morfologias urbanas que existem no local. Quando fui procurar mapas da Maré, não encontrava representações que permenorizassem as características do território, no máximo, mapas que demarcavam o bairro. Mas, minhas necessidades eram mais profundas do que apenas saber os limites que o Estado demarcou para a Maré. Assim surgiu meu interesse em construir outras representações além da cartografia tradicional, demonstrando outras relações que existem na Maré, tendo como referência a experiência dos(as) estudantes.
revistapontocom – Que tipo de reações ou debates surgem quando os mapas eram apresentados coletivamente? Qual é a contribuição desse projeto?
Luis Lourenço – Surgiam múltiplas reações, de concordância ou discordância entre os(as) estudantes. Diversos conflitos eram ativivados na sala de forma propositiva que avançava para discussões muito interessantes, principalmente sobre os estereótipos e estigmas que existiam dentro do próprio território mareense. Debates sobre que lugar na Maré era melhor ou pior, onde era mais violento, qual favela era a “zona sul da Maré”, entre tantos outros. Mas, o mais interessante era verificar como aos poucos os(as) adolescentes iam descobrindo a compreendendo melhor o espaço em que viviam, tecendo uma relação de identidade com o lugar.
revistapontocom – O projeto vem impactando outras disciplinas ou profissionais, como psicólogos e educadores de outras áreas?
Luis Lourenço – Sim, pois muitas informações que são cartografadas nos mapas são interdisciplinares e, embora a atividade tenha sido pensada no âmbito da Geografia, as informações podem ser apropriadas pela história, sociologia, filosofia, biologia ou pelas disciplinas que trabalham com linguagens. As equipes psicopedagógicas aproveitam várias informações, sobretudo quando elas revelam questões pessoais dos(as) estudantes que merecem um olhar ou uma intervenção a fim de solucionar ou ajudar discentes que estejam passando por problemas ou em conflitos com familiares. A prática de cartografia decolonial sempre revela informações que não são verbalizadas pela oralidade, e sim expressas pela linguagem da representação dos mapas. E isso exige que o educador(a) tenha conhecimento sobre o território onde vive os(as) estudantes, pois assim, é possível conectar as expressões cartográficas com as características do lugar e identificar situações que potencialmente podem ser problemas que estejam impactando os(as) discentes.
revistapontocom – Houve (há) mudanças perceptíveis na relação dos estudantes com o território após o trabalho com os mapas? Especificamente com a região da Maré?
Luis Lourenço – Sim, pois eles(as) amplificam suas capacidades de realizar críticas sobre o território onde vivem, mas o maior impacto é a tessitura de uma identidade territorial com o lugar onde residem. Normalmente, no início do ano, (as) estudantes tem vergonha de dizer que moram na favela da Maré… ao final do ano eles(as) afirmam que são mareenses. Além disso percebe-se que aos poucos surge entre eles(as) o entendimento de que a Maré é um lugar simbólico e funcional, pois existem histórias e memórias que vem de dos seus antepassados e se materializam no lugar, ao mesmo tempo que a é o espaço vivido para eles(as), e que devem lutar para que ocorra transformações socioespaciais para melhorar o lugar onde vivem.
revistapontocom – A metodologia já chegou a ser incorporada ou adaptada por outras escolas ou projetos? Poderia exemplificar?
Luis Lourenço – Nas escolas em que trabalhei, nunca consegui apoio e suporte para aplicar esse método, que demanda tempo e comprometimento. No ambiente escolar, sempre estamos imersos na lógica do calendário, provas, etc, que acaba se cristalizando como dinâmica escolar e dificultando o estabelecimento de iniciativas como essa da cartografia, que está para além da absorção de conteúdos, sendo uma ferramenta de construção da crítica socioespacial, ainda que mediada pela expressão da linguagem cartográfica.
revistapontocom – O senhor acredita que essa experiência pode servir de modelo para outras periferias brasileiras? O que seria fundamental para replicá-la?
Luis Lourenço – Não acho que possa servir de modelo, penso ser mais uma experiência para gerar reflexões. Não podemos esquecer que ela foi pensada para a Maré, que é uma favela bem diferente da maioria dos outros territórios favelizados, tanto do ponto de vista geográfico como político/cultural. Quando pensei o método de ensino mediante os mapas decoloniais, estava olhando para o lugar onde eu atuava, a Maré. Lá temos diversas infraestruturas socioespaciais que dão suporte ao processo de construir os mapas, como por exemplo, o Museu da Maré. Para um impacto pedagógico mais amplo, os mapas precisam estar atrelados as estruturas referênciais do território, num diálogo propositivo que potencializa o ato de educar. Dada essa situação, acho que essa experiência de cartografia ao ser transplantada para outros lugares, precisa ser criticada a partir do local, a fim de encontrar a melhor maneira de desenvolver o conhecimento. Embora parte do método possa ser replicado em outros locais, o central é apontar o objetivo a ser alcançado com os mapas decoloniais, e tendo esse horizonte traçado, pensar a partir do território ações que possam potencializar o desenvolvimento dos saberes.



