No EDI Ana Carolina Pacheco da Silva, o programa Esse Rio é Meu articula educação ambiental, cultura brasileira e participação das famílias em experiências que valorizam a biodiversidade e a história da comunidade.
Por Marcus Tavares
Conhecer o rio que atravessa o território onde vivem, refletir sobre os impactos da poluição e descobrir a diversidade natural e cultural do Brasil. No Espaço de Desenvolvimento Infantil (EDI) Ana Carolina Pacheco da Silva, na Cidade de Deus, em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro, essas experiências fazem parte do aprendizado de cerca de 150 crianças. Desde 2024, o programa Esse Rio é Meu integra o trabalho pedagógico da unidade, aproximando a educação ambiental do cotidiano dos estudantes.



Ao longo dos últimos três anos, as atividades envolveram visitas ao Rio Grande, caminhadas ecológicas, produção de maquetes, brinquedos com materiais recicláveis, cartazes e murais. O trabalho também se articulou ao projeto pedagógico anual da escola, que, em 2026, tem como tema “Brasil e suas Maravilhas!”. A proposta ampliou as descobertas das crianças para as cinco regiões brasileiras, relacionando cultura, biodiversidade, sustentabilidade e preservação da natureza.



Professora adjunta de Educação Infantil, regente da turma Maternal I (EI 21), Flavia Adami Mendes Duarte Camargo atua desde 2024 como professora focal do Esse Rio é Meu na unidade. Nesta entrevista à revistapontocom, ela conta como o programa foi desenvolvido, destaca a participação das crianças e das famílias e reflete sobre as aprendizagens construídas ao longo do percurso.
revistapontocom – Como o programa Esse Rio é Meu foi desenvolvido ao longo desses três anos? Flavia Adami Mendes Duarte Camargo – O programa chegou à escola em abril de 2024 e passou a ser desenvolvido em articulação com o Projeto Pedagógico Anual (PPA), ao longo de três anos.
Em 2024, nosso foco foi conhecer o território e realizar intervenções relacionadas ao Rio Grande, localizado na Cidade de Deus. Trabalhamos questões como poluição, história, pertencimento e preservação, por meio de relatos, visitas e vídeos produzidos pelos pais e familiares com a participação das crianças. Também discutimos a importância de combater a violência contra a natureza e de construir um ambiente sustentável e saudável. Utilizamos materiais recicláveis para representar o estado do rio e refletimos sobre as diferenças entre um rio limpo e um poluído, o que poderia ser feito para mudar essa realidade, o racismo ambiental, suas consequências, os riscos e as possíveis soluções.



Em 2025, ampliamos as discussões para a preservação de nascentes, lagos e oceanos, sem deixar de acompanhar a situação do Rio Grande. As crianças do Maternal II construíram uma maquete representando como gostariam que o rio estivesse no presente e no futuro: limpo. Conversamos sobre a qualidade da água, a diferença entre a água limpa e transparente e as condições atuais do rio. Também exploramos os animais que vivem nesse ambiente e os habitats adequados para cada espécie.
As turmas da Educação Infantil participaram de atividades de coleta seletiva, reutilização de materiais e confecção de brinquedos. Produzimos folhetos e prospectos para a comunidade escolar sobre equilíbrio dos ecossistemas e reaproveitamento de materiais. As famílias também colaboraram com a reciclagem e com a coleta de óleo de cozinha usado na escola, ao longo do ano, como forma de incentivar a conscientização e a adoção de hábitos mais sustentáveis no cotidiano.




A culminância cultural envolveu crianças e responsáveis. Cada região foi apresentada com musicalidade própria e elementos culturais que despertaram o interesse das crianças. Também conversamos sobre preservação ambiental e animais ameaçados de extinção. Uma das descobertas foi que, na Região Norte, o açaí é consumido como sobremesa, diferentemente do hábito mais comum no Sudeste. Conhecemos ainda o Projeto Tamar, a vida marinha e os animais aquáticos, além de temas como as casas ribeirinhas, o saneamento e os rios Negro e Solimões, com sua diversidade de animais.
Em 2026, o trabalho se articulou ao PPA e ao Plano de Dimensão da escola, com o tema “Brasil e suas Maravilhas!”. Exploramos as cinco regiões brasileiras – Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste – por meio de suas manifestações artísticas, culinária, vestimentas, expressões regionais, paisagens e pontos turísticos. Relacionamos esse percurso ao Esse Rio é Meu, abordando a preservação da natureza, os biomas, a sustentabilidade, a educação ambiental e o protagonismo infantil.





revistapontocom – Que atividades as crianças realizaram durante o projeto? Flavia Adami Mendes Duarte Camargo – As crianças participaram de todo o processo pedagógico. Visitamos o Rio Grande e fizemos uma caminhada ecológica para observar o rio e o ambiente ao redor. Também construímos maquetes, promovemos atividades de coleta de materiais recicláveis e confeccionamos brinquedos, cartazes e murais. As propostas foram desenvolvidas por meio do diálogo e de experiências concretas, respeitando as possibilidades de cada faixa etária. O objetivo foi aproximar as crianças das questões ambientais de maneira lúdica e significativa, permitindo que observassem o território, expressassem suas ideias e participassem das ações.


revistapontocom – Como as atividades foram organizadas? Havia um fio condutor para o trabalho? Flavia Adami Mendes Duarte Camargo – As atividades foram orientadas e acompanhadas pelos educadores, com propostas realizadas em grandes e pequenos grupos e também individualmente. Em alguns momentos, trabalhamos por segmento; em outros, duas ou mais turmas se uniram em torno de um mesmo objetivo. O fio condutor foi o tema do PPA da escola, articulado às referências e às propostas apresentadas nas formações de professores do programa Esse Rio é Meu. Também consideramos a espontaneidade das crianças e as perguntas que surgiam no cotidiano escolar. Dessa forma, o trabalho foi construído a partir do planejamento pedagógico, mas permaneceu aberto às curiosidades e descobertas dos estudantes.


revistapontocom – O que as crianças descobriram com essas experiências? Flavia Adami Mendes Duarte Camargo – Descobriram a biodiversidade e a importância de proteger o meio ambiente para que todos possam viver de maneira mais saudável e em harmonia com a natureza. As experiências também contribuíram para que desenvolvessem um olhar mais atento ao lugar onde vivem, compreendendo que suas atitudes podem fazer diferença na preservação ambiental.


revistapontocom – Como foi a repercussão do trabalho na escola e na comunidade? Flavia Adami Mendes Duarte Camargo – Contamos com parcerias importantes. A Eco Rede, da Alfazendo, oferece experiências lúdicas e interativas que ampliam o conhecimento das crianças. A COMLURB realiza apresentações teatrais sobre a natureza, a preservação e a conscientização ambiental. Já o Posto Hamilton Land, que atende à comunidade, desenvolve propostas relacionadas à saúde e ao meio ambiente, mostrando como uma natureza saudável contribui para a prevenção de doenças. Também divulgamos as atividades da escola nas redes sociais, como Instagram e Facebook, onde recebemos retornos positivos. Essa repercussão ajuda a ampliar a visibilidade do trabalho e a compartilhar com a comunidade as experiências construídas pelas crianças.


revistapontocom – Como as famílias e a direção escolar participam do projeto? Flavia Adami Mendes Duarte Camargo – As famílias participam de forma constante. Ajudam a divulgar o trabalho, comparecem a conversas e ações de conscientização, contribuem com mudas para o plantio e a horta, participam de oficinas e acompanham as culminâncias e os projetos desenvolvidos pela escola. Essa parceria fortalece o vínculo entre a unidade e a comunidade. A gestão também oferece apoio fundamental. A diretora Adelaide Calazans e a diretora adjunta Priscila Ane acompanham e apoiam as ações, contribuindo para que o projeto se desenvolva com a participação da equipe escolar.


revistapontocom – Que transformações o projeto trouxe para as crianças, os professores e a escola? Flavia Adami Mendes Duarte Camargo – Para as crianças, ficou um olhar mais atento ao ambiente ao redor e a oportunidade de vivenciar experiências de maneira leve, prazerosa, criativa e lúdica. Para os professores, o trabalho mostrou como a união da equipe e a busca contínua por conhecimento valem a pena, especialmente quando percebemos o envolvimento espontâneo das crianças e o sentimento de pertencimento que elas desenvolvem. É um processo de descobertas e aprendizagens constantes também para nós, educadores. Para a escola, a experiência fortaleceu o envolvimento da comunidade escolar com a preservação dos corpos hídricos e a conscientização ambiental. O trabalho ultrapassa os muros da unidade ao incentivar atitudes sustentáveis, responsabilidade coletiva e valorização da história e do território onde a comunidade está inserida.


revistapontocom – E para a senhora? Flavia Adami Mendes Duarte Camargo – Significa reflexão e reconhecimento da natureza como fonte de vida, beleza e aprendizagem. O projeto contribuiu para ampliar nossa sensibilidade, estimular o respeito e a cooperação e mostrar que cada pequena ação pode ajudar na construção de um ambiente mais saudável. Sou grata à equipe e à gestão pelo apoio e pelo envolvimento nesse percurso. Para a escola, foi muito significativo perceber que cada criança, à sua maneira, pôde contribuir para a preservação da natureza. Esse aprendizado reforça a importância de educar para o cuidado, a responsabilidade e o pertencimento desde a infância.

Equipe da unidade escolar envolvida com o programa Esse Rio é Meu
Adelaide Calazans Costa – diretora
Priscila Ane – diretora adjunta
Aline Correia (PEI)
Ana Cristina – Professora de Literatura das Infâncias
Andréa Rodrigues (PAEI)
Cristiane Farneze (AEI)
Flavia Adami (PAEI)
Flávio Ubirajara (AEI)
Izabel Gomes (PEI)
Jane Guimarães (PEI)
Lúcia Helena (AEI)
Mariana Alves (PEI)
Maurício Penchel – Professor de Educação Física
Melissa Caciano (PEI)
Sarah Gomes (AEI)
Thamires Nobre (PEI)
Valéria Fernanda (AEI)



