Em seu segundo romance, Fidiguido, Tina Correia, escritora e jornalista sergipana, revisita os “causos” ouvidos na infância e mistura religiosidade, política, música, cordel e fatos históricos em uma saga de amor, desejo, humor e sobrevivência.
Por Marcus Tavares

Há histórias que começam muito antes de serem escritas. Ficam escondidas em conversas sussurradas pelos cantos da casa, em lembranças de família, nas músicas que saem do rádio, nas festas, nas crenças, nos mexericos e nos “causos” que atravessam gerações. É desse território da memória que Tina Correia volta a retirar a matéria-prima de sua literatura. Nesta terça-feira, 8 de setembro, a escritora e jornalista sergipana lança, no Rio de Janeiro, seu segundo livro, “Fidiguido”, uma narrativa que, nas palavras da própria autora, é uma “declaração de amor ao Nordeste”.
Editado pela 7Letras (selo Beiral), o romance será lançado a partir das 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon. Em uma pequena cidade nordestina, onde todos parecem conhecer a vida de todos, Tina constrói uma história marcada pela força da oralidade, pelo humor e pela riqueza da cultura popular. Entre paixões, desejos, religiosidade, política e acontecimentos históricos, personagens inesquecíveis ajudam a compor um retrato de um Brasil ao mesmo tempo rígido em seus costumes e irreverente em sua maneira de contar histórias.
Para Tina, apesar de “Fidiguido” representar uma nova incursão literária, sua maneira de escrever mudou pouco desde o primeiro romance, “Essa Menina – de Paris a Paripiranga”, lançado em 2016. A fonte continua sendo a mesma: a família e aquilo que ela ouviu durante a infância. “Não mudou quase nada na minha maneira de escrever. A inspiração continua sendo a família e os ‘causos’ que eu ouvia, quando criança, sussurrados pelos cantos da casa. Alguns carregados de forte cunho erótico, proibidos para menores”, lembra a autora.
À lembrança pessoal se mistura acontecimentos históricos e elementos que ajudam a construir o imaginário nordestino. A trama é ambientada novamente em uma cidadezinha do Nordeste e dialoga com episódios como o torpedeamento de um navio mercante na costa de Sergipe e a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

A religiosidade também ocupa espaço. Tina recupera histórias inspiradas em situações de sua própria família, como a tia que organizava novenas e trezenas, as sobrinhas que até hoje vestem o hábito de Santa Rita de Cássia no dia dedicado à santa e outra sobrinha que cumpriu uma promessa feita pela mãe, vestindo durante 13 anos as cores azul e branco de Nossa Senhora.
São lembranças que ajudam a dar ao romance uma dimensão que vai além da ficção. A memória familiar se encontra com a história coletiva, criando uma narrativa em que o cotidiano de uma família e os acontecimentos de um país caminham lado a lado. O rádio e seu cancioneiro popular também entram nessa composição. Assim como referências a personagens e movimentos que fazem parte da história brasileira e do imaginário nordestino, como Lampião, padre Cícero, o Partido Comunista e a Coluna Prestes, liderada por Luiz Carlos Prestes.
“Enfim, mantenho a mesma linha do primeiro livro, ‘Essa Menina’”, afirma Tina.
Se a matéria-prima permanece, “Fidiguido” amplia o painel. A autora reúne em sua narrativa diferentes manifestações da cultura popular e uma linguagem marcada por expressões regionais, músicas e referências à tradição oral. Cordéis, serenatas, festas, paixões arrebatadas e histórias de família ajudam a dar ritmo à trama.
No centro dessa construção está o amor — mas não um amor único ou idealizado. Para Tina, “Fidiguido” é, antes de tudo, uma ode ao sentimento em suas diferentes formas. “Fidiguido é uma ode ao amor. O amor do coronel por Resplendor, o amor de Guido pela criança abandonada em sua porta e o amor irracional de Gracinha pelo prático”, define.
“Quando escrevi ‘Fidiguido’, minha intenção era entregar um livro com referências à cultura popular, ao cordel, ao cancioneiro popular, à política. Enfim, uma declaração de amor ao Nordeste”, afirma.
Lançamento de “Fidiguido”
8 de setembro, terça-feira, às 19h
Livraria da Travessa
Shopping Leblon
Av. Afrânio de Melo Franco, 290 – loja 205 A, Leblon, Rio de Janeiro



