Por Marcus Tavares
Montagem Entre dois rio, do grupo Fala, Barroco reúne estudantes e artistas em uma jornada cênica entre os rios Capibaribe e Mossoró, evocando questões ambientais, sociais, de gênero e decoloniais.

Do encontro entre dois rios nasce uma história de memória, resistência e sobrevivência coletiva. Entre Dois Rios, novo espetáculo do grupo artístico Fala, Barroco, estreia no dia 27 de agosto, às 19h, durante o VI Conlid – Colóquio Nacional de Linguagem e Discurso, em Mossoró (RN), que acontece no campus Central da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, localizado na Rua Prof. Antônio Campos, s/n, Bairro Costa e Silva, BR 110 – KM 46/48).
A peça estabelece uma ponte entre o Rio Capibaribe, apresentado na obra O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto, e o Rio Mossoró, transformado cenicamente em a “gata com sarna”. Em sete atos, a montagem conduz o público por uma jornada que atravessa nascentes, manguezais e outras paisagens aquáticas até alcançar o oceano Atlântico.

Mais do que contar a história de dois rios, o espetáculo procura trazer à cena existências, memórias e vozes que, apesar de historicamente silenciadas, insistem em permanecer. A água funciona como fio condutor de uma narrativa que articula território, identidade, gênero, memória e questões socioambientais.
A dramaturgia e a direção geral são de Leila Tabosa. O elenco reúne estudantes da Faculdade de Letras e Artes da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern) e artistas da comunidade externa à instituição.

Do cão sem plumas à gata com sarna
“O ponto de partida está no universo poético de João Cabral de Melo Neto. Em O cão sem plumas, o poeta transforma o Rio Capibaribe em personagem e revela, por meio de sua paisagem, as desigualdades e contradições sociais do Nordeste. Em Entre Dois Rios, essa referência ganha novos desdobramentos. O Capibaribe encontra o Mossoró, e o cão se encontra com a gata. A partir desse diálogo, a montagem amplia a reflexão para outros mitos, nomes e memórias pré-coloniais da América Latina”, explica Leila Tabosa.
O resultado é uma dramaturgia que se movimenta em elipse, cruzando diferentes tempos, territórios e referências culturais até retornar ao rio que pertence à própria cidade onde o espetáculo é produzido. “O rio da nossa aldeia” torna-se, assim, o Rio Mossoró. A imagem da “gata com sarna” dá forma cênica a um rio marcado por feridas, assoreamento e interrupções, mas também pela persistência de uma existência que se recusa a desaparecer.

Teatro como ação política
Criado em 2014 como projeto de extensão universitária da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), o Fala, Barroco tem como uma de suas bases a percepção teórica do neobarroco latino-americano. O grupo também estabelece um diálogo particular com a obra de João Cabral, incorporando à cena elementos do neobarroco e da cultura latino-americana.
A nova montagem assume uma perspectiva de teatro político-social. O debate ambiental aparece associado a outras dimensões da vida coletiva, especialmente às questões de gênero, às desigualdades e às memórias de povos e territórios historicamente marginalizados.

Segundo o grupo, sua atuação é formada, em grande parte, por integrantes envolvidos em ações afirmativas dentro e fora da universidade, com uma compreensão teórica e prática das questões de gênero a partir de uma perspectiva interseccional.
Essa característica atravessa a própria construção da personagem central. Em cena, uma maestrina se (re)parte entre mulher e gata. Quando assume a versão mulher, sua voz dialoga com a poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. Como gata, incorpora o grito dos rios assoreados e de seus “sagrados interrompidos”, aproximando-se também da figura de La Llorona de Xochimilco e de outras imagens ligadas às profundezas ocultas das águas.


Uma jornada pelas águas
A trajetória proposta pelo espetáculo começa nas nascentes e atravessa manguezais turvos, espaços de passagem e existências que precisam ser reencontradas e ressignificadas. A viagem segue em direção ao oceano Atlântico, onde diferentes vultos e memórias reaparecem.
Nesse percurso, a água não é apenas cenário. Ela se transforma em personagem, memória e força política. Os rios carregam histórias, mas também revelam aquilo que a sociedade tenta esconder ou esquecer.
A jornada de Entre Dois Rios é, portanto, uma busca por uma sobrevivência que não é individual. É coletiva — a sobrevivência dos rios, das comunidades e das memórias que permanecem ligadas a esses territórios. A estreia acontece em um evento dedicado justamente à linguagem e ao discurso, ampliando o diálogo entre teatro, literatura, universidade e sociedade. Ao colocar o Rio Capibaribe e o Rio Mossoró no centro da cena, o Fala, Barroco propõe que olhar para as águas também pode ser uma forma de olhar para nós mesmos e para as histórias que insistem em permanecer.



Turnê
Após a estreia no VI Conlid, Entre Dois Rios terá novas apresentações em Mossoró. Em outubro, o espetáculo integra a programação do FESTUERN – Festival de Teatro Universitário. As sessões acontecem de 5 a 9 de outubro, sempre às 14h, no Teatro Municipal de Mossoró. Em novembro, a montagem volta ao palco no Teatro do BNB Mossoró, no dia 5, em duas sessões, às 14h e às 19h. A apresentação acontece a convite da ACJUS – Academia de Ciências Jurídicas e Sociais.

Ficha técnica
Entre Dois Rios
Dramaturgia e direção geral: Leila Tabosa
Direção musical e preparação vocal: Lara Beatriz
Assistentes de direção: Letícia Fonseca e Izabel Cassila
Figurino: Leila Tabosa
Cenário: Letícia Fonseca e Cauan Maia
Coreografia: Marcos Conceição
Arranjos musicais: Michel Costa.
Elenco:
Lara Beatriz
Letícia Fonseca
Kaduan Paiva
Estefany Barbosa
Fran Figueiredo
Izabel Cassila
Amanda de Andrade
Adora Fernandes
Libégna
Állvaro
Lady Geovania
Raylla
Josilândia
Eliabi Brasão
Serviço
Espetáculo: “Entre Dois Rios”
Grupo: Fala, Barroco
Dramaturgia e direção geral: Leila Tabosa
Estreia
27 de agosto de 2026, às 19h
VI Conlid – Colóquio Nacional de Linguagem e Discurso
Mossoró (RN)
Outubro
5 a 9 de outubro de 2026, às 14h
FESTUERN – Festival de Teatro Universitário
Teatro Municipal de Mossoró
Novembro
5 de novembro de 2026, às 14h e às 19h
Teatro do BNB Mossoró
Apresentação a convite da ACJUS – Academia de Ciências Jurídicas e Sociais



