Por Marcus Tavares
Turma do Planeta: integrada ao programa Esse Rio é Meu, a proposta pedagógica articula leitura, práticas sustentáveis e mobilização no entorno escolar, com ações voltadas à preservação do Rio Joana e à formação de valores desde a infância

A literatura infantil tem se consolidado como uma ferramenta potente na construção de valores e na formação de uma consciência crítica desde os primeiros anos de vida. Quando articulada a projetos pedagógicos e ao território vivido pelas crianças, ela amplia ainda mais seu alcance, conectando imaginação, conhecimento e responsabilidade social.
É nessa perspectiva que a professora Beatriz Couto Cysne, da Creche Municipal Francisco de Paula, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, desenvolve, com suas turmas, o trabalho a partir da coleção Turma do Planeta, criada pela jornalista e escritora Silvana Gontijo, também idealizadora do programa Esse Rio é Meu. Integrada ao projeto, a proposta une leitura, educação ambiental e práticas concretas no entorno escolar, especialmente em relação ao Rio Joana.
Em entrevista à revistapontocom, a educadora compartilha como a literatura tem sido incorporada ao planejamento pedagógico, os desdobramentos das atividades em sala e no território e os impactos na formação das crianças.
Confira:
revistapontocom – Como a leitura dos livros da coleção Turma do Planeta foi incorporada ao planejamento pedagógico da turma?
Beatriz Couto Cysne – A leitura foi inserida como parte do projeto interdisciplinar Esse Rio é Meu, compondo os momentos de leitura semanal e articulando-se aos objetivos de Língua Portuguesa e Ciências, especialmente no eixo de leitura, interpretação e consciência ambiental, em consonância com o PPA da unidade escolar. Os livros são trabalhados desde o início do período letivo, após o período de adaptação das crianças, com o objetivo de introduzir conceitos ambientais e promover reflexões sobre a preservação do Rio Joana.

revistapontocom – Quais temas ambientais presentes na coleção mais dialogam com a realidade dos alunos?
Beatriz Couto Cysne – Além dos temas como preservação da água e descarte correto do lixo, destaca-se a ação de coleta do óleo usado, que está incorporada às ações voltadas para a preservação do Rio Joana, fortalecendo a responsabilidade socioambiental da comunidade escolar.
revistapontocom – Como os estudantes têm reagido às histórias e personagens?
Beatriz Couto Cysne – Além da escuta atenta, as crianças se envolvem nas propostas relacionadas à narrativa, como a confecção de instrumentos, a pesquisa sobre o significado dos nomes dos personagens, reflexões e atitudes de cuidado com o meio ambiente, a produção de um jornal com a temática da história e a realização de uma passeata até o Rio Joana, com a confecção de placas, em consonância com as ações apresentadas no livro.
revistapontocom – A leitura está sendo feita de forma individual, coletiva ou mediada em sala de aula?
Beatriz Couto Cysne – A leitura é realizada de maneira coletiva, com adaptações adequadas às turmas da Pré-Escola, respeitando a faixa etária e as especificidades do grupo. As crianças, em sua maioria, demonstram grande interesse em participar desse momento, especialmente ao folhear os livros e descobrir qual será a próxima história a ser lida.

revistapontocom – Que atividades práticas estão sendo desenvolvidas a partir dos livros (debates, produções textuais, desenhos, visitas ao entorno etc.)?
Beatriz Couto Cysne – Diversas atividades são desenvolvidas a partir das leituras, ampliando e contextualizando os temas abordados nos livros. Entre elas, destacam-se: confecção de cartazes e instrumentos musicais, rodas de conversa, visita ao Rio Joana, organização de exposição, arrecadação de óleo usado, além da articulação com outros projetos, como “Que bicho é esse?”. Também são realizadas ações voltadas à educação ambiental, como o cuidado com as plantas da horta escolar, a prática da compostagem e o reuso da água do ar-condicionado para a rega das plantas, promovendo a conscientização e atitudes sustentáveis no cotidiano.
revistapontocom – Os alunos conseguem então relacionar as histórias com o rio Joana?
Beatriz Couto Cysne – Sim. As crianças conseguem estabelecer essa relação, especialmente porque realizamos mobilizações no entorno, inspiradas nas ações apresentadas na história, como a confecção de cartazes e a realização de passeata até o Rio Joana. As crianças demonstram maior sensibilização em relação ao cuidado com o meio ambiente, não apenas com as plantas, mas também com os animais, refletindo atitudes mais conscientes e responsáveis no dia a dia.
revistapontocom – Há integração com outras disciplinas além de Língua Portuguesa?
Beatriz Couto Cysne – Sim. A integração acontece de forma interdisciplinar, articulada aos projetos desenvolvidos por cada turma. Nossa unidade trabalha com a pedagogia de projetos, com foco nas relações étnico-raciais, sustentabilidade, educação inclusiva e desenvolvimento socioemocional. Dessa forma, os livros dialogam com diferentes áreas do conhecimento e também com as vivências sociais das crianças, promovendo uma aprendizagem contextualizada e significativa.

revistapontocom – Na avaliação da senhora, qual é o principal ganho pedagógico ao utilizar literatura infantil para tratar de educação ambiental?
Beatriz Couto Cysne – Aqui, na Francisquinho, a literatura é uma das principais bases das ações desenvolvidas nas salas de referência, assim como nos projetos das turmas. O principal ganho pedagógico é possibilitar que as crianças compreendam as questões ambientais de maneira sensível, reflexiva e acessível, desenvolvendo valores, atitudes e senso de responsabilidade. A literatura amplia o repertório, favorece o pensamento crítico e fortalece o protagonismo infantil nas ações voltadas ao cuidado com o meio ambiente.
revistapontocom – E as famílias? Elas estão sendo envolvidas nesse processo de leitura e conscientização?
Beatriz Couto Cysne – Sim. As famílias são convidadas a participar da passeata e a conhecer as ações relacionadas ao Rio Joana, além de prestigiar a exposição dos trabalhos produzidos pelas crianças, vinculados aos projetos das turmas. Essa participação fortalece a parceria entre escola e família, ampliando o alcance das ações de conscientização para além do espaço escolar.
revistapontocom – Que resultados ou expectativas a escola tem em relação ao impacto dessa experiência ao longo do ano letivo?
Beatriz Couto Cysne – A Francisquinho espera que a contação de histórias do projeto “Esse Rio é Meu” contribua para a formação de uma consciência ambiental desde a infância. A proposta é despertar a empatia pela natureza, reforçar a importância dos rios e mares para a vida, estimular a criatividade e promover valores como cooperação, respeito e responsabilidade. Assim, busca-se formar crianças mais conscientes e comprometidas com a preservação do meio ambiente.

O programa Esse Rio É Meu é desenvolvido em conjunto pela Secretaria Municipal de Educação e pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente da Prefeitura do Rio, em parceria com a oscip planetapontocom e a concessionária Águas do Rio – patrocinadora do programa. O objetivo do programa é engajar escolas na recuperação e preservação dos rios. Cada grupo de escolas da rede pública de ensino do Rio ficou responsável por desenvolver ações em torno de um dos corpos hídricos da cidade.
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