Por Marcus Tavares
Coordenadora do Reaproveita UERJ, Jacira Castanharo fala sobre educação ambiental, oficinas e os impactos do descarte inadequado de óleo nos rios
O que vai pelo ralo da pia pode voltar, silenciosamente, para o copo d’água. No Rio de Janeiro, o descarte inadequado de óleo de cozinha ainda é um problema recorrente, com impactos diretos nos rios e no abastecimento de milhões de pessoas. Um único litro desse resíduo pode contaminar até 25 mil litros de água, formando uma camada que impede a oxigenação e ameaça a vida aquática.

Foi a partir dessa preocupação, intensificada durante a pandemia, que nasceu o Reaproveita UERJ. Desenvolvido no Instituto de Química da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o projeto resgata o papel essencial do sabão no combate a vírus e bactérias e propõe uma solução simples e acessível: transformar o óleo usado em sabão sustentável.
Com forte atuação na Baixada Fluminense, a iniciativa promove oficinas que vão além da técnica. Ao ensinar a produzir sabão, o projeto estimula mudanças de hábito, fortalece a educação ambiental e cria uma rede de multiplicadores. Os resultados já aparecem: milhares de amostras distribuídas, litros de óleo reaproveitados e, principalmente, participantes que passam a adotar práticas mais conscientes no dia a dia.

Em entrevista à revistapontocom, a professora Jacira Castanharo fala sobre a origem da iniciativa, os caminhos percorridos e a urgência de pensar o descarte de resíduos como uma responsabilidade coletiva, afinal, não se trata apenas de um problema individual, mas de um impacto que atinge toda a sociedade.
Confira:
revistapontocom – Quando e como surgiu o Reaproveita UERJ dentro do Instituto de Química? O projeto vem sendo desenvolvido em que região do estado do Rio?
Jacira Castanharo – A ideia do Reaproveita UERJ surgiu, em 2020, durante a pandemia, e se concretizou como projeto extensionista em 2021. Naquele momento, falava-se muito em higienização das mãos e chegou a faltar álcool 70 em farmácias e supermercados. No entanto, muitos se esqueceram do sabão como forma eficaz de combater vírus e bactérias. O projeto surge, então, para resgatar o protagonismo do sabão na higiene e associar essa prática à sustentabilidade, por meio do reaproveitamento do óleo de cozinha usado. As ações são realizadas, principalmente, em municípios da Baixada Fluminense.
revistapontocom – Que tipo de público participa das oficinas? Elas são abertas? Como alguém pode participar?
Jacira Castanharo – As oficinas têm três públicos principais: sociedade civil, estudantes do Ensino Fundamental e Ensino Médio, tanto de escolas públicas quanto privadas. São abertas ao público em geral, mas é importante identificar previamente o perfil dos participantes, pois a dinâmica da oficina é adaptada a cada grupo. Atendemos prioritariamente municípios da Baixada Fluminense. Os interessados podem entrar em contato pelo Instagram @reaproveitauerj.
revistapontocom – Qual é o impacto do descarte inadequado de óleo de cozinha nos rios e mananciais do estado do Rio?
Jacira Castanharo – Quando o óleo é descartado na pia ou no ralo, ele pode alcançar os rios por meio da rede pluvial. Como não se mistura com a água e é menos denso, forma uma camada na superfície que dificulta a entrada de oxigênio. Isso compromete a vida aquática. Estima-se que um litro de óleo possa contaminar até 25 mil litros de água.

revistapontocom – Quais mudanças de comportamento vocês observam nos participantes após as atividades?
Jacira Castanharo – A maioria passa a armazenar o óleo usado para produzir o próprio sabão. Muitos já sabiam da possibilidade, mas não conseguiam acertar a receita e acabavam desistindo. Após as oficinas, tiram dúvidas e se sentem motivados a tentar novamente.
revistapontocom – Quais foram os principais resultados alcançados até agora?
Jacira Castanharo – Em cinco anos de atividade, utilizamos aproximadamente 150 litros de óleo nas oficinas e produzimos mais de 4 mil amostras de sabão sustentável. Como cerca de 90% dos participantes afirmaram, em nossos questionários, que se sentiram motivados a reproduzir o processo, acreditamos que esse impacto tenha se multiplicado ao longo dos anos.
revistapontocom – Quais são os maiores desafios para manter o projeto ativo?
Jacira Castanharo – Os principais desafios são financeiros. Temos projetos, como uma adaptação das oficinas para o Ensino Fundamental I, que ainda não conseguimos desenvolver por conta dos custos. Além disso, atuar na Baixada Fluminense envolve despesas logísticas, muitas vezes arcadas de forma particular. Os materiais das oficinas também são de nossa responsabilidade, o que limita o número de atendimentos. Buscamos ainda recursos para implementar uma planta piloto no Instituto de Química.

revistapontocom – Quais são as metas para este ano?
Jacira Castanharo – Planejamos implementar a oficina de sabão líquido sustentável, uma demanda recorrente dos participantes. Também seguimos em busca de recursos para ampliar as atividades, incluindo a oficina voltada ao ensino fundamental e a planta piloto. Paralelamente, vamos reabrir a agenda para oficinas a partir de abril.
revistapontocom – A senhora acredita que projetos como o Reaproveita UERJ podem influenciar políticas públicas ambientais?
Jacira Castanharo – Com certeza. O projeto já dialoga com políticas públicas nacionais, como o Plano Nacional de Resíduos Sólidos, a Política Nacional de Educação Ambiental, a Política Nacional de Promoção da Saúde e a Política Nacional de Recursos Hídricos.
revistapontocom – O Reaproveita UERJ pode ser replicado em outras comunidades ou municípios?
Jacira Castanharo – Sim, mas a ampliação depende de financiamento. Esse é o nosso maior desafio. Já apresentamos propostas de convênio em dois municípios da Baixada Fluminense e, embora haja interesse, a resposta tem sido a falta de recursos no momento.
revistapontocom – Que mensagem a senhora deixaria para quem ainda descarta óleo de forma inadequada?
Jacira Castanharo – O Rio Guandu abastece mais de 10 milhões de pessoas, entre a Baixada e a capital fluminense. Quando descartamos óleo de forma inadequada, não prejudicamos apenas um grupo, mas toda a população. Não jogue a saúde da sua água no ralo.




