Entre educação e espetáculo: o papel pedagógico das escolas de samba mirins no Rio de Janeiro

Samba e educação

Por Marcus Tavares

Entrevista com Carla Lopes sobre escolas de samba mirins, educação antirracista, cultura afro-brasileira, Lei 10.639/03, carnaval e pedagogia no Rio de Janeiro.

O samba ensina? Para a historiadora e gestora pública educacional antirracista Carla Lopes, a resposta é direta: sim — e com potência transformadora. Doutora pelo PPGARTES/UERJ (2019), mestre em Educação (ProPED/UERJ) e criadora do Programa de Reflexões e Debates para a Consciência Negra (PRDCN), a pesquisadora dedica sua trajetória à implementação da Lei 10.639/03 e à valorização da cultura afro-brasileira como prática pedagógica.

Em sua tese de doutorado, Entre Educação e Espetáculo: Escolas de Samba Mirins do Rio de Janeiro (2019), Carla investiga como essas agremiações infantis se consolidaram como territórios de memória, identidade e formação cidadã. Nesta entrevista à revistapontocom, ela detalha a origem das escolas de samba mirins, seus impactos educacionais e os desafios para sua manutenção.


Acompanhe:

revistapontocom – Samba e educação: tem tudo a ver?
Carla Lopes – Sim. Carnaval, sambas de enredo e escolas de samba são expressões culturais que desenvolvem leituras críticas sobre o contexto social e que, portanto, são potenciais recursos pedagógicos para reflexões e debates sobre a sociedade e suas representações.

revistapontocom – De onde surgiram as escolas de samba mirins do Rio?
Carla Lopes – Arandir Cardoso dos Santos, o Careca, sambista da escola de samba Império Serrano, já se preocupava com o futuro das crianças de sua localidade, o Morro da Serrinha, que fica no bairro de Madureira, no Rio de Janeiro. Ele preocupava-se também com a possibilidade de perda das tradições culturais das escolas de samba. Assim, de suas preocupações, nasceu uma ideia. No dia 5 de agosto de 1983, Careca (ou Tio Careca, para as crianças) fundou oficialmente a Escola de Samba Mirim Grêmio Recreativo e Cultural Escola de Samba Império do Futuro, que, já em 1984, teve o privilégio de desfilar no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, inaugurado naquele mesmo ano, abrindo os desfiles das escolas de samba adultas.

revistapontocom – E o que elas representam?
Carla Lopes – As escolas de samba mirins são representações identitárias da cultura das escolas de samba, formadas por crianças e adolescentes, que realizam desfiles anuais, estando filiadas a uma escola de samba adulta ou não, promovendo qualificação profissional, por meio de projetos sociais, para seus integrantes atuarem no carnaval, preservando os saberes e fazeres afrodiaspóricos e dando continuidade à expressão cultural popular das escolas de samba. Elas não foram criadas nos espaços formais educacionais. Contudo, há o caso específico de uma escola de samba mirim que surgiu dentro da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, chamada GRCESM Corações Unidos do CIEP, que iniciou seus desfiles no ano de 1985. Foi formada por um grupo de professores e animadores culturais, sob a direção técnica de sambistas como Xangô da Mangueira (Olivério Ferreira) e Machine, o Síndico da Passarela do Samba (José Carlos Faria Caetano), sendo sua organização fruto de ações empreendidas pelo então governador do Estado do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, e seu vice-governador, Darcy Ribeiro. Na rede, a Escola Mirim Corações Unidos do CIEP tornou-se um projeto pedagógico extracurricular assumido pela SME, sendo ofertado dentro da rede municipal de ensino desde o ano de sua criação até os dias atuais. O projeto mobiliza gestores escolares, professores e escolas da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro, que é composta por 1.557 unidades escolares, sabendo-se que nem todas participam, pois o envolvimento ocorre por livre adesão.

revistapontocom – O que está por trás das escolas mirins? Como elas funcionam na prática?
Carla Lopes – A principal proposta é a efetiva união entre a educação e a cultura, tendo como prática pedagógica a vivência da cultura das escolas de samba, que resulta na divulgação e preservação dessa expressão cultural carioca e que também é um recurso aplicado no combate à evasão escolar, pois promove a permanência dos alunos na escola por meio da arte e da cultura, bem como a implementação de valores concernentes à educação antirracista.

revistapontocom – Quais os ganhos? Quais os desafios?
Carla Lopes – As escolas de samba mirins consolidaram-se como potentes territórios de agência e memória, onde a qualificação em artes carnavalescas — como as oficinas de bateria, passistas e mestre-sala — transcende o ensino técnico para tornar-se um instrumento de fortalecimento da identidade afro-brasileira. Nesses espaços, crianças e jovens deixam de ser meros receptores de assistência para se tornarem sujeitos centrais de sua própria história, assegurando a continuidade de saberes ancestrais e promovendo o “enegrecimento” dos saberes por meio do convívio intergeracional e da valorização do protagonismo negro. Os maiores desafios são o apoio financeiro do poder público para a manutenção e o desenvolvimento desses projetos sociais e a sustentação das equipes que mantêm essa estrutura educacional durante todo o ano letivo, o que extrapola o período dos desfiles carnavalescos, ou seja, o grande espetáculo.

revistapontocom – O modelo do Rio acontece em outras cidades? Já temos uma expertise própria?
Carla Lopes – Sim. As escolas de samba mirins extrapolaram o espaço geográfico da cidade do Rio de Janeiro e do próprio país. No Brasil, há iniciativas em cidades como Alvorada, Arroio Grande, Belém do Pará, Bragança Paulista, Pelotas, São Gonçalo, Teresópolis e Uruguaiana. Na Argentina, existem as agremiações Carumbecitos, Zumzunitos e Leoncitos de Tradición. Para saber mais, recomendo o vídeo Entre Educação e Espetáculo: Escolas de Samba Mirins do Rio de Janeiro, disponível no YouTube.

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