Almir Morgado, presidente emérito da Associação dos Diretores de Escolas Públicas do Estado do Rio de Janeiro (ADERJ-RJ), aponta desafios de quem dirige as escolas públicas.
Por Marcus Tavares
O Dia do Professor é uma oportunidade de reconhecer quem faz da educação um trabalho cotidiano de transformação, mesmo diante de condições adversas. Mas valorizar os profissionais da educação também significa olhar para a realidade das escolas públicas, para as condições de trabalho e para os desafios enfrentados por quem está à frente dessas instituições.

Em entrevista à revistapontocom, Almir Morgado, presidente emérito da Associação dos Diretores de Escolas Públicas do Estado do Rio de Janeiro (ADERJ-RJ), analisa as dificuldades da gestão escolar, a sobrecarga dos diretores, a necessidade de valorização dos profissionais e os caminhos para fortalecer a educação pública. Por ocasião da data, ele também deixa uma mensagem aos professores, destacando a resiliência e o poder transformador de quem ensina.
“Ser professor hoje é exercer um dos ofícios mais complexos e desafiadores do nosso tempo. Os profissionais da educação enfrentam rotinas exaustivas, salas de aula superlotadas, a necessidade constante de se reinventar diante das novas tecnologias, a falta de reconhecimento político e social, de infraestrutura adequada e de remuneração defasada. Manter a atenção e o entusiasmo dos alunos em um mundo cheio de dispersões exige um esforço físico e emocional enorme. Mesmo diante desse cenário adverso e dos desafios diários, a força e a resiliência de quem ensina permanecem inabaláveis. Cada lição compartilhada e cada momento de escuta atenta deixam marcas profundas que o tempo não apaga. O conhecimento transmitido é a única ferramenta capaz de transformar realidades e abrir caminhos para um futuro melhor. Que a esperança e a paixão pelo ato de educar continuem sendo o combustível de cada jornada. O seu trabalho planta sementes de criticidade, empatia e evolução. Permanecemos acreditando no poder transformador da sua dedicação. Parabéns pelo seu dia e muito obrigado por iluminar o amanhã!”
Confira a entrevista:
revistapontocom – O que é ser diretor de uma escola pública no Rio de Janeiro? São várias realidades dentro do estado? Almir Morgado – Ser diretor de uma escola pública no Estado do Rio de Janeiro é exercer uma função cada vez mais complexa e desafiadora. São muitas e diversas as adversidades enfrentadas diariamente. Existem realidades bastante distintas entre as regiões do estado e, muitas vezes, até entre escolas localizadas em um mesmo município. Apesar dessas diferenças, há problemas que são comuns a grande parte da rede: carência de profissionais administrativos e de apoio, falta de inspetores de alunos e porteiros, aumento dos episódios de violência dentro das escolas e em seu entorno, remuneração defasada e uma crescente sobrecarga de atividades administrativas e burocráticas. Essa realidade acaba afastando o diretor daquela que deveria ser uma de suas atribuições fundamentais: exercer a liderança pedagógica da escola, acompanhando e conduzindo, juntamente com sua equipe, o projeto pedagógico da unidade. Hoje, em muitas situações, o diretor precisa dedicar a maior parte de seu tempo à resolução de problemas administrativos, financeiros, estruturais e de pessoal. É preciso devolver à direção escolar condições para que ela possa, efetivamente, dedicar-se também à aprendizagem e à qualidade da educação oferecida aos alunos.
revistapontocom – É possível ser um bom diretor sem ter passado pela sala de aula?
Almir Morgado – Sim, é possível, mas não considero o caminho mais recomendável. Muitas das atribuições exercidas pelo diretor exigem uma compreensão profunda da dinâmica escolar, e a experiência docente proporciona uma perspectiva que dificilmente pode ser adquirida apenas por meio da formação teórica ou administrativa. Um diretor que tenha passado pela sala de aula conhece, na prática, os desafios enfrentados pelos professores, as dificuldades decorrentes da diversidade dos alunos, as relações que se estabelecem no cotidiano escolar e os obstáculos presentes no processo de ensino e aprendizagem. Essa experiência tende a tornar o gestor mais preparado para compreender sua equipe, avaliar situações pedagógicas e desenvolver estratégias capazes de apoiar o trabalho docente e melhorar a aprendizagem dos estudantes.
revistapontocom – Qual deve ser o pré-requisito para ser diretor de escola na realidade do Estado do Rio de Janeiro? Existe esse pré-requisito? Deveria existir? Almir Morgado – A legislação atualmente estabelece requisitos para que o profissional possa participar do processo de indicação para a direção escolar, incluindo critérios relacionados ao tempo de exercício no serviço público e na unidade escolar, além da participação em processo de capacitação e da consulta à comunidade escolar. Todos os modelos de seleção de gestores escolares apresentam aspectos positivos e pontos que podem ser aperfeiçoados. No caso do Estado do Rio de Janeiro, considero que o modelo baseado na participação da comunidade escolar é adequado porque valoriza um princípio fundamental da educação pública: a gestão democrática. Isso não significa, entretanto, que o modelo não possa ser aprimorado. Entendemos que um dos principais avanços necessários está justamente na formação dos gestores. A capacitação precisa ser mais consistente, prática e permanente, preparando efetivamente o profissional para as dimensões pedagógica, administrativa, financeira e de gestão de pessoas. Também é indispensável melhorar a remuneração da função, tornando-a compatível com o grau de responsabilidade assumido pelo diretor.
revistapontocom – Como são indicados hoje os diretores das escolas públicas do Estado? O que é preciso mudar? Almir Morgado – É importante fazer uma distinção: tecnicamente, os diretores não são propriamente eleitos para um cargo público. Existe um processo de consulta à comunidade escolar para indicação dos diretores gerais e adjuntos. A comunidade escolar participa desse processo, manifestando-se entre as candidaturas habilitadas. A partir do resultado da consulta, ocorre a designação para o exercício da função, nos termos da legislação estadual. Portanto, mesmo escolhidos com a participação da comunidade, os diretores continuam exercendo funções de confiança. Esse modelo preserva um elemento extremamente importante: a participação da comunidade na escolha de quem irá conduzir a escola. O que precisa avançar é, principalmente, a preparação oferecida aos gestores. O curso de formação destinado aos novos diretores precisa ser reformulado, ampliado e adequado às situações concretas que eles encontrarão no exercício da função. Além da formação inicial, é fundamental instituir uma política permanente de capacitação e atualização. Outro ponto indispensável é a remuneração. Não é possível atrair e manter bons profissionais em funções de tamanha responsabilidade sem uma remuneração compatível. Além disso, os gestores precisam contar com equipes completas, estrutura adequada e melhores condições de trabalho. Sem esses elementos, torna-se extremamente difícil exercer uma gestão escolar eficiente.
revistapontocom – Quais são os maiores desafios enfrentados pelo diretor de escola pública no Estado do Rio de Janeiro? Ele conta com o apoio dos órgãos oficiais? Almir Morgado – Os desafios são tantos que é difícil enumerá-los. As relações interpessoais tornaram-se mais complexas, os conflitos no ambiente escolar aumentaram e as exigências administrativas e burocráticas consomem grande parte do tempo e da energia dos gestores. Somam-se a isso a violência no entorno e, em alguns casos, dentro das próprias escolas; as vulnerabilidades sociais que inevitavelmente repercutem no ambiente escolar; o adoecimento dos profissionais da educação; a insuficiência das equipes de apoio; e, muitas vezes, o distanciamento das famílias da vida escolar dos estudantes. Quanto ao apoio dos órgãos oficiais, talvez a questão principal seja outra: as instâncias superiores precisam oferecer às unidades escolares as condições necessárias para que seus gestores possam desempenhar adequadamente suas funções. O diretor não pode ser responsabilizado por resultados sem receber os meios necessários para alcançá-los. É preciso garantir equipes completas, infraestrutura adequada, segurança, suporte técnico, respostas administrativas mais rápidas e políticas públicas que efetivamente cheguem à escola. Na avaliação da ADERJ, além da necessidade de valorização dos profissionais, é fundamental aprimorar a definição de prioridades, a eficiência administrativa e a transparência na aplicação dos recursos públicos destinados à Educação. Quanto mais eficiente e transparente for essa gestão, maiores serão as possibilidades de os recursos chegarem à escola e produzirem resultados concretos para os estudantes.
revistapontocom – Para a Associação dos Diretores de Escolas Públicas do Estado do Rio de Janeiro, qual é o atual raio-X da educação pública estadual? O que é preciso fazer? Almir Morgado – A avaliação da ADERJ é de que a educação pública estadual atravessa um período bastante preocupante. Os resultados das avaliações educacionais evidenciam dificuldades que precisam ser enfrentadas de maneira estrutural e contínua. Temos profissionais da educação desvalorizados, desmotivados e submetidos a condições de trabalho cada vez mais difíceis. No caso específico dos diretores, encontramos gestores exauridos, física e emocionalmente, diante da enorme sobrecarga de responsabilidades e da insuficiência das equipes escolares. Enquanto essas questões estruturais não forem enfrentadas, será muito difícil produzir uma melhoria consistente dos indicadores educacionais. Há muito a ser feito. É necessário valorizar a carreira do magistério, assegurar uma política remuneratória adequada e respeitar a estrutura da carreira. É fundamental também garantir eficiência, transparência e rigor na aplicação dos recursos destinados às obras, à manutenção das escolas e à aquisição de bens e serviços. Precisamos, ainda, de um projeto educacional consistente, com objetivos claros, planejamento de médio e longo prazo e continuidade das políticas públicas. Educação não pode ser reinventada a cada mudança de gestão. Da mesma forma, os cargos estratégicos da administração educacional devem ser ocupados prioritariamente com base em critérios técnicos, experiência e capacidade de gestão. A política educacional precisa estar orientada pelo interesse público e pela melhoria da aprendizagem. A Educação deve ser tratada como política de Estado, e não como instrumento de disputas político-partidárias.
revistapontocom – De que forma a população poderia ajudar as escolas públicas? Almir Morgado – A participação da população e, especialmente, da comunidade local é fundamental para o fortalecimento da escola pública. Uma relação mais próxima entre escola, família e sociedade contribui para criar ambientes mais acolhedores, seguros e favoráveis à aprendizagem. É importante que as famílias acompanhem efetivamente a trajetória escolar de seus filhos, participem das reuniões, conheçam o trabalho desenvolvido pela escola, acompanhem a frequência e o desempenho dos estudantes e mantenham diálogo permanente com professores e gestores. A escola tem uma enorme responsabilidade na formação dos alunos, mas não pode assumir sozinha todas as responsabilidades relacionadas à educação de crianças e jovens. Família e escola possuem funções distintas, porém complementares. Quando a família participa e a comunidade compreende que a escola pública pertence a todos, cria-se uma rede de proteção e corresponsabilidade que beneficia principalmente os estudantes.
revistapontocom – Quais são as principais reivindicações da ADERJ? Almir Morgado – A ADERJ atua na defesa e na valorização dos diretores e das equipes gestoras das escolas públicas estaduais, mantendo interlocução permanente com a Secretaria de Estado de Educação e demais órgãos responsáveis pelas políticas educacionais. Entre nossas principais reivindicações está a atualização e a majoração das gratificações dos diretores gerais e adjuntos. Os valores estão profundamente defasados e já não correspondem ao nível de responsabilidade, à complexidade e à carga de trabalho assumidos pelos gestores escolares. Outra prioridade é a recomposição das equipes das unidades escolares. Há uma grave carência de profissionais administrativos e de apoio, incluindo secretários escolares, agentes de pessoal, inspetores de alunos, porteiros e outros profissionais indispensáveis ao funcionamento adequado das escolas. Sem equipes completas, muitas dessas atribuições acabam recaindo diretamente sobre os diretores. A ADERJ também defende melhores condições de trabalho, formação continuada para os gestores e maior suporte técnico e administrativo por parte da SEEDUC. Outro ponto fundamental é a segurança jurídica dos diretores, especialmente nos procedimentos relacionados à gestão financeira e às prestações de contas das Associações de Apoio à Escola. Defendemos transparência e rigor na apuração de eventuais irregularidades, mas também a correta individualização das responsabilidades, para que gestores não sejam responsabilizados por atos praticados em períodos ou administrações anteriores. Em síntese, nossas reivindicações convergem para um objetivo central: valorizar a função de diretor e oferecer às equipes gestoras as condições necessárias para administrar adequadamente as escolas. Valorizar o diretor não é defender apenas uma categoria profissional. É fortalecer a gestão escolar e, consequentemente, melhorar a qualidade da educação pública oferecida aos estudantes do Estado do Rio de Janeiro.



