Jussara Bastos, Elisa Guimarães e Maria Clara Moraes compartilham experiências, lembranças e reflexões sobre magistério que atravessa gerações na família.
Por Marcus Tavares
Uma história que começou com um sonho interrompido, ganhou força na geração seguinte e segue viva na terceira. Na família de Jussara Bastos, Elisa Guimarães e Maria Clara Moraes, a docência é mais do que uma escolha profissional: é uma experiência compartilhada, construída no convívio diário, nas lembranças da infância, nas trocas de ideias e no compromisso com a educação.

A história começou com Claudiana, mãe de Jussara, que sonhava em ser professora, mas não recebeu autorização do pai para estudar, na época, por causa da distância entre a casa da família e o Colégio Estadual Carmela Dutra. O sonho, porém, atravessou gerações. Jussara tornou-se professora, Elisa cresceu acompanhando a mãe nas atividades escolares e Maria Clara encontrou, na convivência com as duas, referências para construir sua própria trajetória.

No Dia do Professor, celebrado em 15 de outubro, as três compartilham com a revistapontocom as influências que as levaram ao magistério, as transformações na escola, as lembranças que marcaram suas carreiras e os valores que desejam transmitir às próximas gerações. Entre as histórias, aparecem o afeto pelas crianças, o compromisso com a aprendizagem, o reconhecimento dos desafios da profissão e a certeza de que ensinar também é aprender com quem veio antes.

Jussara Bastos Aguero – Diretora da EM Capitão de Fragata Didier Barbosa Vianna. Formada em Pedagogia.
Elisa Bastos Aguero Guimarães – Professora de Educação Infantil e Professora Orientadora da Educação de Jovens e Adultos no CIEP João Mangabeira. Formada em Pedagogia.
Maria Clara Guimarães Moraes – Coordenadora pedagógica da Creche Comunitária Irmã Morocha. Formada em Pedagogia e Pós graduada em Supervisão Escolar e Educação Infantil.
Confira a entrevista:
revistapontocom – Como começou a história das professoras na família? Jussara Bastos – A história começou com a minha mãe, Claudiana, que queria ser professora. Na época, meu avô não permitiu que ela estudasse por conta da distância entre a nossa casa e o Colégio Estadual Carmela Dutra. Ela sempre comentava sobre isso. O sonho foi herdado por mim! Elisa Guimarães – Minha vivência como filha de professora foi doce e feliz. Vi minha mãe fazer coisas da escola em casa com prazer e alegria, e ela sempre inseriu a mim e meus irmãos nas atividades: pintar, recortar, montar… Presenciei uma relação de amor e felicidade com o trabalho e me encantei com isso. Maria Clara Moraes – Desde cedo, vivi dentro dos ambientes escolares em que minhas mães e avós atuavam, seja na sala de aula, seja na direção. Sempre gostei da escola; é um lugar de segurança para mim. No Ensino Fundamental II, tive uma professora maravilhosa que me cativou, Roseana Guimarães. Ela foi como uma amiga para mim, alguém que ria, conversava, dava conselhos e brigava comigo, se necessário.
revistapontocom – O que levou ou influenciou você a ser professora? Jussara Bastos – O sonho ficou mais forte quando fiz o antigo primário, com professores de quem ainda lembro os rostos e os nomes, por terem sido excelentes na dedicação e no amor ao trabalho. Elisa Guimarães – Fui mãe e professora reproduzindo essa mesma relação que vivi com minha mãe. Sinto-me contemplada realizando um trabalho que me faz feliz. Maria Clara Moraes – Desde cedo, vivi nos ambientes escolares em que minhas mães e avós atuavam. Sempre gostei da escola. Além disso, tive uma professora maravilhosa no Ensino Fundamental II, Roseana Guimarães, que me cativou e foi como uma amiga para mim.
revistapontocom – Qual é a lembrança mais marcante do seu início na profissão? Jussara Bastos – São muitas, e eu amo todas! Comecei a trabalhar na Escola Maria Quitéria, no Catiri, em Bangu, em 1980, com uma turma de 2ª série – na época, ainda era essa a denominação – e com o carinho muito intenso das crianças. Não tem como esquecer a aluna Lígia, sempre correndo com um sorriso lindo no rosto, e o aluno Robson, que tinha um olho de vidro, além dos demais alunos, que me encantaram e consolidaram seus estudos naquele ano comigo. É muito bom poder estar sempre lembrando deles. Sendo assim, sempre foi o sucesso das crianças que marcou o meu início e todos esses anos de profissão. Elisa Guimarães – Minhas primeiras turmas, de Educação Infantil e de alfabetização; as conquistas das crianças na autonomia, na leitura e na escrita… E os primeiros momentos em que percebi a responsabilidade que assumi. Maria Clara Moraes – Para responder, eu teria que descobrir quando comecei. Pode ter sido quando era criança e peguei um quadro de giz negro, posicionei uma caixa de papelão vazia de algum brinquedo, com uma Bíblia rosa aberta em cima, e coloquei meu filhotinho de gato, Jojo, sentado em frente à carteira imaginária, estudando. Ou quem sabe tenha sido depois de ter sido estagiária e trabalhado como voluntária, quando dei minha primeira aula particular. Lembro do exato momento em que meu aluno Ricardo juntou os sons das letras e leu sua primeira palavra, compreendendo o que havia sido lido: “v…a…c…a… va…ca… vaca, vaca? Vaca! Muuu”. Foi emocionante. Lembro do sorriso e da felicidade dele até hoje.
revistapontocom – O que mudou na escola e na maneira de ensinar de uma geração para outra? Jussara Bastos – Mudou muita coisa. Quando comecei, o ensino ainda era muito tradicional. As aulas eram planejadas levando em conta os objetivos que teriam de ser alcançados. Atualmente, porém, o ensino é mais inovador, desafiador e busca, na diversidade dos alunos, um trabalho que permita avaliar e perceber suas fragilidades até que consolidem as habilidades a serem desenvolvidas. Elisa Guimarães – O estigma de uma profissão que envolve afeto é a ideia romantizada da beleza do magistério. Acho que o passar do tempo e as novas gerações de profissionais, que surgem com uma postura mais racionalizada, abrem espaço na sociedade para o debate sobre a importância da profissão e sua valorização. Maria Clara Moraes – Muitas coisas. As escolas estão mais tecnológicas. Quando estudei, já havia sala de informática, com computadores ou notebooks à disposição. Agora, há impressoras 3D. Quem poderia imaginar?! Acredito também que, hoje em dia, as escolas buscam mais conforto e oportunidades para seus alunos. Minha maneira de ensinar é um reflexo e uma mistura das duas. Minha avó é mais paciente e minha mãe, mais firme. Acredito ter extraído o melhor de ambas para aplicar na minha prática. Existem diversas formas de ensinar, e não sou eu quem define qual é a certa e qual é a errada: os alunos fazem isso. Aprendeu? Ótimo. Não conseguiu? Preciso fazer diferente. Não tem muito mistério. Não podemos desistir e devemos incentivá-los.
revistapontocom – E o que não mudou? Que características da profissão continuam as mesmas? Jussara Bastos – Para mim, o que nunca mudou foi o afeto com as crianças, a dedicação ao planejar lembrando de cada uma, o fato de trazer trabalho para casa e realizá-lo com prazer, além de envolver filhos e netos na tarefa de recortar, pintar e colar as lembrancinhas. Elisa Guimarães – A visão individual do ser humano. Ser professora é enxergar a unicidade das crianças e das pessoas. É ter em si amor, responsabilidade e comprometimento com um futuro que começa em nós. Maria Clara Moraes – A entrega. O bom professor faz o que faz com amor, faz bem-feito e pensa nas crianças. Tira do próprio bolso, leva trabalho para casa e tem noites mal dormidas para apresentar o melhor aos seus alunos. E, satisfeito com o esforço, pensa: “Valeu a pena”. Nesta profissão, nossa responsabilidade é integral. O poder, a diferença e a importância da dedicação de um bom profissional impactam a vida das gerações futuras.
revistapontocom – Vocês costumam trocar experiências sobre a escola em casa? Já aprenderam alguma coisa umas com as outras? Jussara Bastos – Temos um grupo no WhatsApp, pois a Elisa mora comigo e nos vemos todos os dias, mas a Clarinha já mora sozinha. Nesse grupo, falamos dos nossos sucessos, angústias, conquistas e problemas do dia. Chega a ser intenso! Nesses momentos, trocamos nossas ideias, sentimentos e ações. Enviamos sugestões de atividades para atender a alguma demanda das turmas e das escolas. São realidades de funções pedagógicas diferentes, mas que se permeiam. É uma troca perfeita! Quando estamos juntas, nossas conversas sempre acabam ligadas às nossas atividades nas escolas.
revistapontocom – Existe alguma história curiosa ou engraçada envolvendo a profissão que sempre volta às conversas da família? Jussara Bastos – As nossas histórias, como somos as três da mesma profissão, acabam sempre sendo atuais e, na maioria das vezes, nos fazem rir muito. Elisa Guimarães – Existem muitas histórias engraçadas, curiosas e emocionantes. Em família, a escola e as relações interpessoais são assuntos constantes! As falas da infância, as brincadeiras… Mas ficam as conquistas daqueles que passaram e deixaram um pouco de si em nós: alunos que agora estão formados, são adultos, pais e mães, colegas de profissão e inspiração para nossos projetos e nossa evolução pessoal. Maria Clara Moraes – São várias, e será difícil selecionar apenas uma. Acredito que seja uma de quando eu era criança e estava acompanhando minha mãe e a turma dela naquele dia. Ela cantava uma música: “O caminho da minhoca fica lá no meu jardim, a minhoca quando anda engraçado faz assim, ela bate com o pé, ela bate com a mão, ela roda, roda, roda e cai de bunda no chão”. Eu questionei: “Como ela bate com o pé e a mão se não tem?”. Minha mãe ficou surpresa com a minha linha de raciocínio na época. Anos depois, cantando a mesma música, um aluno dela fez o mesmo questionamento. Senti-me à frente do meu tempo, haha.
revistapontocom – O que você mais admira na maneira como as outras exercem a docência? Jussara Bastos – Na Elisa e também na Clarinha, admiro a capacidade que as duas têm de criar atividades para desenvolver com as crianças. São notáveis, nas duas, o talento para desenhar e a firmeza ao se posicionarem com plenitude e sabedoria! Elisa Guimarães – Minha mãe é uma profissional de doçura incomparável. Sempre a vi agir com amor, respeito e paciência com todos – crianças, jovens e adultos. Admiro sua maneira de exercer a docência com esperança e resiliência. Minha filha é dedicada, comprometida e amorosa. Tem um senso de responsabilidade com a docência e seus resultados que me orgulha. Maria Clara Moraes – O prazer em fazer, o querer fazer sem esperar nada em troca e a qualidade do trabalho. A sabedoria que cada uma detém, seja no trabalho manual, na redação de uma ata ou na comunicação com a equipe e os responsáveis, vai muito além das aulas teóricas das melhores faculdades. Vem da prática, da experiência. Admiro muito as duas. Digo que, se for metade da profissional que as duas são, me sentirei plena.
revistapontocom – Se pudesse definir em uma palavra o legado das professoras da sua família, qual seria? Por quê? Jussara Bastos – Teria algumas palavras, mas a que nos define é amor, pelo modo como vivenciamos cada dia da nossa profissão, que, para mim, também é uma missão. Elisa Guimarães – Humildade. Nós aceitamos que não somos perfeitas nem detemos todo o saber. Assim, podemos e buscamos sempre ser melhores e aprender com todas as nossas experiências. Maria Clara Moraes – Resiliência. Porque não é uma profissão fácil. São diversos desafios enfrentados todos os dias e, mesmo assim, acordamos com um sorriso no rosto e o entregamos aos nossos pequenos. Damos as mãos e sabemos que as fases difíceis passarão e que não estamos sozinhas: uma sempre está presente para a outra. Trabalhar é cansativo, mas este trabalho em específico é gratificante.
revistapontocom – Se pudesse deixar uma mensagem para a próxima geração de professoras da família, o que diria? Jussara Bastos – O que eu aconselharia à próxima geração é que exerça o ser professora com humildade, dedicação, prazer e muito amor. Elisa Guimarães – Faça seu caminho olhando o percurso dos que vieram antes. Maria Clara Moraes – Não desista, siga em frente, peça ajuda e faça aquilo de que gosta. Não se contente com a mediocridade e não se compare com os outros. Maus exemplos existem aos montes; façamos a diferença e sejamos bons exemplos, do tipo que ficará na memória por anos e anos, associado a um sentimento de carinho.



