Programa Esse Rio é Meu ganha espaço na rotina da EM Noel Rosa e aproxima estudantes do Rio Joana

Leia a entrevista com a diretora adjunta, Juliana Rodrigues.

Localizada no Grajaú, EM Noel Rosa participa do Esse Rio é Meu desde o início do ano, aliando atividades e ações de sustentabilidade e protagonismo dos estudantes.

Por Marcus Tavares

Localizada no Grajaú, a EM Noel Rosa atende cerca de 300 estudantes, prioritariamente moradores dos morros dos Macacos, do Encontro e São João. Em uma região marcada pela presença de áreas verdes e pela proximidade com o Parque Recanto do Trovador, a unidade vem participando ativamente do programa Esse Rio é Meu, desenvolvendo um conjunto de ações voltadas à sustentabilidade, com participação professores, funcionários, estudantes e suas famílias. Coleta de tampinhas, reaproveitamento de materiais, recebimento de óleo de cozinha usado e a construção de uma horta sustentável fazem parte da iniciativa, que também busca aproximar as crianças do Rio Joana e da história ambiental do território.

Para a diretora adjunta Juliana Rodrigues, o desafio é fazer com que a educação ambiental ultrapasse os limites da sala de aula e passe a integrar o cotidiano da escola. “Mais do que falar sobre sustentabilidade, queremos formar uma geração que compreenda que cuidar dos rios é também cuidar da própria comunidade, da nossa história e do futuro que estamos construindo. Ao longo desse processo, tive a alegria de me unir à funcionária Ana Elisa Sanches, estudante de Ciências Ambientais na UERJ. Nós duas, apaixonadas pela educação ambiental e acreditando no potencial transformador da escola, trouxemos e incentivamos essas iniciativas na unidade, sempre apoiadas pela coordenadora pedagógica Monica Barros. Nosso desejo é fazer com que a educação ambiental deixasse de ser apenas um tema trabalhado em sala de aula e passasse a ser vivenciada pelas crianças no cotidiano da vida”, destaca.

Em entrevista à revistapontocom, Juliana conta como o trabalho foi construído, o envolvimento da comunidade escolar e as transformações percebidas a partir das ações. “A maior transformação é poder compreender que o projeto não termina quando uma atividade acaba. Ele continua no comportamento, nas escolhas e no olhar que cada criança passa a ter sobre o mundo”, destaca.

revistapontocom – Quando o programa Esse Rio é Meu chegou à escola e como ele se relacionou com um trabalho que já vinha sendo desenvolvido pela unidade? Juliana Rodrigues – O programa Esse Rio é Meu chegou à escola como um verdadeiro espelho de um trabalho que já estava sendo construído pela nossa unidade. No início deste ano, quando iniciamos nosso projeto de sustentabilidade, nosso principal objetivo era sensibilizar as crianças para a importância da reciclagem, do descarte adequado dos resíduos e, principalmente, para a compreensão de que pequenas atitudes do nosso cotidiano podem contribuir diretamente para a preservação do meio ambiente e dos nossos rios. Essa proposta ganhou ainda mais significado quando percebemos a relação direta da nossa comunidade com o Rio Joana, cuja nascente está localizada justamente na região do Pico do Andaraí Maior, dentro de uma área de preservação e reserva florestal do bairro. Temos também o lago que existe no Recanto do Trovador, que é uma área tão explorada e familiar a eles. Assim, o programa veio ao encontro de uma inquietação que já existia na escola: a necessidade de fazer com que nossas crianças conhecessem, valorizassem e se sentissem responsáveis pelo território onde vivem. Mais do que falar sobre sustentabilidade, queremos formar uma geração que compreenda que cuidar dos rios é também cuidar da própria comunidade, da nossa história e do futuro que estamos construindo.

revistapontocom – Como o projeto vem sendo desenvolvido ao longo do ano? Quais ações e etapas envolveram a comunidade escolar? Juliana Rodrigues – O projeto vem sendo desenvolvido de forma contínua ao longo deste ano e, mais do que uma atividade pontual, passou a fazer parte da rotina da escola. Toda a comunidade escolar está envolvida: equipe gestora, professores, funcionários e, principalmente, os estudantes. A proposta foi construída de maneira interdisciplinar e participativa, envolvendo ações de conscientização sobre o descarte correto dos resíduos, reciclagem, reaproveitamento de materiais, coleta de tampinhas, recebimento de óleo de cozinha usado e, de forma muito especial, a construção e manutenção da nossa horta sustentável. O mais importante é que as ações não ficaram restritas a um momento específico. Elas foram sendo incorporadas ao cotidiano, permitindo que os estudantes percebessem, na prática, que sustentabilidade não é apenas um conceito que aprendemos, mas uma atitude que podemos exercer todos os dias.

revistapontocom – Quais atividades os estudantes desenvolveram ao longo do projeto? Juliana Rodrigues – Os estudantes participaram de diversas ações de sensibilização e de práticas sustentáveis. Trabalhamos com a coleta de tampinhas, o descarte adequado dos resíduos e, principalmente, com o reaproveitamento de materiais que seriam descartados. Um dos exemplos mais significativos foi a construção da nossa horta sustentável. Utilizamos garrafas PET para confeccionar os recipientes de plantio, transformando um material que iria para o lixo em algo vivo e produtivo. Além disso, muitos dos materiais utilizados nos murais, nas atividades pedagógicas e na própria organização do projeto foram produzidos a partir de materiais reutilizados. Dessa forma, as crianças puderam compreender, na prática, que aquilo que muitas vezes consideramos lixo pode ganhar uma nova função.

revistapontocom – Como as atividades foram organizadas e qual foi o fio condutor do projeto? Houve participação de todas as turmas? Juliana Rodrigues – O grande fio condutor do projeto sempre foi a ideia de que todos podem cuidar do meio ambiente e que cada pequena atitude faz diferença. Embora toda a escola tenha tido a oportunidade de participar, alguns estudantes demonstraram um interesse especial pela horta e foram convidados a assumir responsabilidades maiores em seu cuidado. Foi muito bonito perceber esse protagonismo surgindo espontaneamente. As crianças trouxeram garrafas PET, ajudaram a lavá-las e, com a participação dos alunos maiores, fizemos os cortes necessários para transformá-las em recipientes para o plantio. Depois, vieram a decoração, a organização dos espaços e, finalmente, o plantio. A partir daí, iniciou-se uma nova etapa de descobertas: conhecer as mudas, entender as necessidades de cada planta, aprender sobre os diferentes temperos e perceber que cada espécie possui seu próprio tempo e suas próprias necessidades. As famílias também contribuíram trazendo mudas de suas próprias casas e até de árvores existentes em suas residências. Assim, a horta foi se tornando um espaço verdadeiramente coletivo, construído pelas mãos e pelas histórias de muitas pessoas.

revistapontocom – O que os estudantes descobriram a partir dessas experiências? Juliana Rodrigues – Os estudantes descobriram que sustentabilidade está muito mais próxima deles do que imaginavam. Perceberam que uma garrafa PET pode deixar de ser lixo e se transformar em um espaço para uma nova vida; que o óleo de cozinha usado pode ser reaproveitado; que pequenas atitudes ajudam a preservar os rios e que cuidar de uma planta exige atenção, paciência e responsabilidade. Também descobriram novos sabores e alimentos. Muitas crianças passaram a experimentar temperos e plantas que antes não conheciam, movidas pela curiosidade de provar aquilo que elas mesmas ajudaram a plantar e cuidar. Mais do que conteúdos, elas descobriram uma nova forma de olhar para o que está ao seu redor.

revistapontocom – Como foi a repercussão do trabalho na escola? Juliana Rodrigues – A repercussão foi muito positiva. O projeto despertou o interesse e o envolvimento de toda a comunidade escolar e, aos poucos, foi transformando a maneira como as crianças observam e se relacionam com os espaços da escola. Percebemos que elas passaram a demonstrar mais cuidado com o descarte dos resíduos, mais curiosidade em relação às plantas e mais interesse em participar das ações relacionadas à sustentabilidade. Foi muito significativo perceber que o projeto ultrapassou os limites de uma atividade pedagógica e começa a fazer parte da cultura da escola.

revistapontocom – Como as famílias participaram? E qual foi o papel da direção da escola? Juliana Rodrigues – Sim. A participação da comunidade escolar foi fundamental para que o projeto pudesse ganhar força. Quando recebemos as lixeiras destinadas à coleta seletiva, buscamos envolver toda a comunidade escolar nesse processo, para que a separação dos resíduos pudesse se tornar uma prática cotidiana. Também desenvolvemos um projeto de recebimento de óleo de cozinha usado, em parceria com a ONG Junte e Brinque, que realiza a coleta e, posteriormente, faz a doação de detergentes para utilização em nossa própria unidade. A direção escolar apoiou e incentivou todas essas iniciativas, entendendo que a educação ambiental precisa acontecer de maneira coletiva e envolver não apenas os estudantes, mas também suas famílias e toda a comunidade.

revistapontocom – O que ficou do projeto? Que transformação ocorreu na vida dos estudantes, dos professores e da própria escola? Juliana Rodrigues – A principal transformação foi perceber que as crianças passaram a olhar para o ambiente ao redor com mais atenção e cuidado. Elas estão mais observadoras, mais cuidadosas com os espaços e mais atentas às necessidades das plantas e ao descarte dos resíduos. Também percebemos o despertar de uma curiosidade muito bonita. A horta, por exemplo, despertou o interesse por novos sabores e alimentos. Muitas crianças querem saber o que está crescendo, como cuidar, quando colher e, principalmente, experimentar aquilo que ajudaram a plantar. Para os professores e funcionários, o projeto também trouxe uma nova percepção sobre as possibilidades de trabalhar a educação ambiental de forma prática e significativa. A maior transformação é poder compreender que o projeto não termina quando uma atividade acaba. Ele continua no comportamento, nas escolhas e no olhar que cada criança passa a ter sobre o mundo.

revistapontocom – E, para a senhora e para a escola, o que significou o Programa Esse Rio é Meu? Juliana Rodrigues – O Programa Esse Rio é Meu é muito rico porque nos oferece conhecimento, embasamento e caminhos para aprofundarmos um trabalho que já acreditávamos ser essencial para a nossa escola. Para mim, particularmente, ele representa a possibilidade de ampliar o olhar das crianças para além dos muros da escola. Quando uma criança entende que o rio que faz parte do território onde ela vive precisa ser cuidado, ela começa a perceber que suas próprias atitudes têm consequências e que também pode ser agente de transformação. Para a escola, o programa funciona como um importante espelho e uma inspiração para continuarmos construindo uma educação ambiental que seja viva, prática e conectada à realidade dos nossos estudantes. Acredito que o maior legado seja justamente esse: ensinar nossas crianças a olhar para o lugar onde vivem não apenas como um espaço que ocupam, mas como um território pelo qual também são responsáveis.

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