Entre desafios e descobertas, mãe e filha encontram na sala de aula um propósito

Ambas continuam lecionando na Rede Municipal de Ensino do Rio.

Christiana Diniz e Thaís Diniz compartilham histórias e descobertas da docência, lembram experiências que marcaram suas trajetórias e mostram como o compromisso com os alunos atravessa gerações.

Por Marcus Tavares

Nem sempre a história de uma família de professoras começa com uma tradição no magistério. Às vezes, ela nasce de uma escolha, de um exemplo ou de uma oportunidade que muda o rumo de uma vida. Na família de Christiana Diniz e Thaís Diniz, mãe e filha compartilham a profissão, o compromisso com os estudantes e a convicção de que a educação pode abrir caminhos e transformar realidades.

Thaís Diniz Lopes e Christiana Diniz Lopes.

No Dia do Professor, celebrado em 15 de outubro, as duas revisitam suas trajetórias e refletem sobre as mudanças na escola, os desafios da docência e aquilo que permanece essencial no trabalho de ensinar. Christiana encontrou na escola a possibilidade de realizar sonhos que pareciam distantes. Thaís, por sua vez, inspirou-se na mãe, que decidiu cursar Pedagogia aos 40 anos, e encontrou no magistério sua própria trajetória profissional.

Christiana Diniz Lopes.

Em conversa com a revistapontocom, mãe e filha compartilham histórias que vão da insegurança dos primeiros anos de carreira às experiências marcantes com os estudantes. Entre as lembranças, há espaço para o afeto, as dificuldades enfrentadas nas escolas, as descobertas da profissão e até uma tentativa frustrada de fazer mágica durante uma aula virtual na pandemia. Relatos que mostram como ensinar também é aprender, reinventar-se e deixar marcas que atravessam gerações.

Thaís Diniz Lopes.

Christiana Diniz Lopes – Professor II da Escola Municipal Júlio Verne. Formada em Pedagogia.

Thaís Diniz Lopes – Diretor IV da Creche Municipal Otávio Henrique de Oliveira. Formada em Pedagogia.

Confira a entrevista:

revistapontocom – Como começou a história das professoras na família? Christiana Diniz – Comecei a lecionar de maneira informal, ajudando os filhos de uma amiga muito querida nas atividades de casa. Muitas vezes, eu estava presente, a mãe estava ocupada e eu me oferecia para atendê-los. Foi então que eles tiveram a ideia de pedir a ela que me contratasse como professora, e nós aceitamos o pedido. Logo depois, eles me indicaram para vários colegas e vizinhos. A turma foi crescendo e, quando percebi, estava dando aula o dia inteiro. Eu ainda não havia feito o ensino superior, mas surgiu a oportunidade de cursá-lo. Então, me formei em Pedagogia e prestei concurso público para a Rede Municipal da Prefeitura do Rio de Janeiro, onde trabalho. Hoje, agradeço a Deus por ainda estar trabalhando e poder compartilhar muito do que aprendi com a vida e com os mestres da educação que li e com quem convivi ao longo dos meus 60 anos de vida e de mais de 25 anos de profissão. Thaís Diniz – Estava decidindo qual faculdade escolher. Sempre gostei mais da área de Humanas, assim como minha mãe. Aos 40 anos, ela estava cursando Pedagogia. Comecei a ver seus trabalhos, matérias e provas e me identifiquei. Também tenho duas primas bem próximas que são professoras de Educação Infantil e me inspiraram. Estava dividida entre os cursos de História e Pedagogia. Tentei História em algumas universidades públicas, mas acabei passando para Pedagogia na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Mesmo na Pedagogia, conheci a área de Pedagogia Empresarial e me interessei. Porém, ao final da faculdade, minha mãe me incentivou a prestar concurso público para professora de Educação Infantil da Prefeitura do Rio de Janeiro. Fiz o concurso antes de concluir a faculdade. Passei e fiquei na fila de espera. Foi o tempo necessário para concluir o curso, pegar meu diploma e tomar posse na minha primeira matrícula, em 2012. Tornei-me professora em um Espaço de Desenvolvimento Infantil na Cidade de Deus (EDI Maria Beralda), onde aprendi e cresci muito profissionalmente. Tenho um carinho especial por essa escola. Em 2013, fiz mais um concurso, também para professora de Educação Infantil, e tomei posse em 2014, na minha segunda matrícula. Hoje, tenho 14 anos de profissão. Comecei como professora regente, já fui coordenadora pedagógica e, há dois anos, me tornei diretora. Sempre atuei na área da Educação Infantil.

revistapontocom – O que levou ou influenciou você a ser professora? Christiana Diniz – As maravilhosas professoras que passaram pela minha vida escolar me influenciaram. Foram muito acolhedoras e grandes incentivadoras ao longo da minha trajetória. Eu era de uma família humilde e achava que meus sonhos nunca se realizariam. A escola me ensinou que, por meio do conhecimento, encontraria os caminhos para realizar meus sonhos. Thaís Diniz – Sempre me chamou a atenção o afeto de alguns professores por seus alunos, e sempre tive um carinho especial pelos professores que passaram pela minha vida. Além disso, eu via minha mãe recebendo crianças em nossa casa para dar aulas particulares, ajudando tantas delas a melhorarem suas notas e a entenderem melhor as matérias. A dedicação da minha mãe sempre me serviu de exemplo. Para complementar, vê-la, aos 40 anos, decidindo mudar sua vida, retomar os estudos e fazer uma faculdade de Pedagogia nessa idade me trouxe orgulho e inspiração. Comecei a ver as matérias que ela estudava na faculdade e resolvi fazer Pedagogia também. Foi uma influência direta na minha escolha. Depois da faculdade, minha mãe se dedicou ao concurso público para professora e foi ela quem me incentivou a prestar o concurso no qual ingressei e em que atuo há 14 anos. Acabei emendando a faculdade na vida de servidora pública como professora de Educação Infantil.

revistapontocom – Qual é a lembrança mais marcante do seu início na profissão? Christiana Diniz – Quando, ao final do ano letivo, o pai de um aluno me disse: “Professora, muito obrigado! Meu filho se tornou uma criança melhor depois de ser ensinado pela senhora”. Esse reconhecimento valoriza a dedicação que coloco em cada dia do meu trabalho. Ele me fez enxergar que eu estava no caminho certo, persistir e continuar.Thaís Diniz – Como emendei a faculdade de Pedagogia no concurso para professora de Educação Infantil, lembro muito da minha insegurança no início, do medo de não saber fazer aquilo e do receio de não estar fazendo certo. Mas sempre tive pessoas incríveis no meu caminho e contei com colegas de trabalho maravilhosas, que me acolheram. Algumas também eram novas na função, e uma segurava a mão da outra. Fomos crescendo e aprendendo juntas. Uma coisa fundamental era que tínhamos muita energia e vontade de fazer acontecer. E foi assim que realizamos muitos projetos inesquecíveis juntas e deixamos nossa marca naquela escola da Cidade de Deus. Tivemos muitos desafios por ser uma escola em comunidade, onde passamos por momentos de desespero em meio a tiroteios, tendo que ser fortes para dar suporte àquelas crianças. O afeto permeou tudo isso e nunca me faltou. Com ele, consegui criar laços que estão na minha vida até hoje, tanto de amizade com colegas do início da carreira quanto com crianças, que hoje já são adolescentes, e com suas famílias, com as quais mantenho contato até hoje. Lembro-me do dia em que, pela primeira vez, levei minha turma a um passeio fora da escola. Fomos ao Museu de Arte do Rio (MAR). Era uma turma de Maternal II, com crianças de 3 e 4 anos. Foi um dia extremamente alegre e emblemático, que guardo na memória. Poder sair da comunidade, onde, por vezes, as rotinas são sofridas por conta da violência, e mostrar um novo mundo àquelas crianças foi muito especial. Fomos à exposição de Tarsila do Amaral e tivemos um guia, o educador Max, que, por anos, continuou na memória daquelas crianças por ter tornado aquele dia inesquecível. Com a ajuda do “tio Max”, passeamos pelo museu de forma leve e alegre, criamos um funk no museu e nos divertimos muito. Meu coração ficou muito feliz por estar vivendo aquele dia com eles e por ter a oportunidade de mostrar que podem ocupar qualquer lugar e que há muita coisa neste mundo para conhecer e explorar.

revistapontocom – O que mudou na escola e na maneira de ensinar de uma geração para outra? Christiana Diniz – Foram muitas as transformações de uma geração para outra. Vivenciei a escola como aluna, como docente e como mãe de aluna. A imagem do professor era a de alguém de quem não deveríamos nos aproximar muito e a quem não deveríamos questionar. Ele era visto como alguém que detinha o saber absoluto, porque, naquela época, o professor era a principal fonte de conhecimento. Seu papel era transmitir conhecimento, e o do aluno, ouvir, copiar, memorizar e realizar as atividades individualmente. Os recursos eram os livros escolares, a biblioteca da escola e a do bairro mais próximo. Utilizávamos as famosas enciclopédias da época, coleções de livros que continham conhecimentos gerais para realizar pesquisas e aprofundar assuntos de interesse. Não existia a tecnologia que temos hoje. Atualmente, o professor é o orientador, o mediador do ensino, aquele que incentiva o aluno a pesquisar para construir seu aprendizado e seus conceitos por si mesmo. O aluno de hoje participa efetivamente da aula e, juntos, professor e aluno constroem o aprendizado. Ele não decora mais os conteúdos: compreende os conceitos e se apropria deles. Thaís Diniz – Acredito que mudou muito a visão de que o professor era o detentor do conhecimento e estava ali para transmiti-lo. Acho que, hoje em dia, vemos a escola como um ambiente de troca, de aprendizado mútuo na relação entre aluno e professor. Vejo que procuramos conhecer melhor cada aluno e valorizar sua história e sua bagagem. Hoje, as crianças têm espaço para ser protagonistas no processo, têm abertura para ter voz e ser ouvidas. Atualmente, as escolas trazem as famílias e a comunidade para dentro de seus espaços, fazendo com que tenham uma sensação real de pertencimento. A escola está acolhendo mais as diversidades, e esse assunto tem sido muito trabalhado. Nossa cultura também tem sido exposta de modo que o modelo eurocêntrico não seja mais o centro. Agora, a escola tem espaço para a cultura afro-brasileira, valorizando nossas raízes.

revistapontocom – E o que não mudou? Que características da profissão continuam as mesmas? Christiana Diniz – Os alunos ainda veem o professor como alguém que tem muito a compartilhar com eles e a quem podem recorrer e em quem podem confiar. Também permanece a dedicação do professor, que se reinventa e constrói novos saberes a cada ano letivo que se inicia para acompanhar as transformações da escola. Thaís Diniz – A perseverança dos profissionais da educação, que, mesmo diante de tantas adversidades, estão ali todos os dias dando o seu melhor. Acredito que os alunos continuam acreditando e confiando em seus professores.

revistapontocom – Vocês costumam trocar experiências sobre a escola em casa? Já aprenderam alguma coisa umas com as outras? Christiana Diniz – Sim. As experiências que compartilho, vivenciadas por mim, e as que ela vivencia hoje, em outra escola e em outra sociedade, com uma visão atual de como viver a escola, são sempre motivo para refletirmos e planejarmos um trabalho melhor. Somos parceiras nessas trocas. Thaís Diniz – Sim. Sempre que estamos juntas, passamos um bom tempo falando de trabalho! Seja para compartilhar alguma ideia, algum evento da escola ou para desabafar sobre as dificuldades que aparecem no caminho.

revistapontocom – Existe alguma história curiosa ou engraçada envolvendo a profissão que sempre volta às conversas da família? Christiana Diniz – Uma vez, realizamos um evento musical na escola, no qual as crianças iriam se apresentar. Cada uma poderia escolher uma música para cantar. Fomos todos surpreendidos quando um aluno do 4º ano escolheu cantar a música “Tiro ao Álvaro”, interpretada por Adoniran Barbosa e Elis Regina, de uma época em que essa criança ainda nem era nascida. Foi uma demonstração de como a cultura transcende gerações. O aluno conquistou o primeiro lugar na competição. Foi um momento emocionante, que envolveu toda a comunidade escolar. Thaís Diniz – Na pandemia, tivemos que nos reinventar. Na Educação Infantil, foi um grande desafio conseguir envolver as crianças em um encontro virtual. Na época, eu tinha duas turmas de Pré-escola I, com crianças de 4 e 5 anos. Na turma da manhã, quase nenhuma criança participava; já a turma da tarde, para minha surpresa, contava com cerca de 15 crianças sempre. Como manter crianças tão pequenas na frente do celular, olhando para a professora? Tive que buscar mil ideias. Muita coisa engraçada aconteceu nesse período on-line. Teve criança pulando na cadeira e o avô dando bronca ao vivo, teve criança entrando sozinha na aula, que não falava e cujo nome eu não sabia porque era nova, e teve criança que pediu à mãe para mudar o tema da festa de aniversário por conta de uma vivência sobre dinossauros, entre outras situações. Mas houve um dia em que resolvi me fantasiar de mágica e fazer uma mágica na minha casa. Estávamos conversando sobre o ar, e resolvi fazer um experimento de Física baseado na pressão atmosférica. Peguei um copo com água até a boca, coloquei uma folha de papel tampando o copo e pressionei levemente. Depois, virei o copo com a mão embaixo. Quando tirei a mão, a água não caiu. Tudo isso acontece devido à pressão do ar, que empurra o papel para cima com mais força do que a água. Pensei que seria o máximo ensinar isso às crianças e fazer essa super “mágica”. Treinei várias vezes e deu supercerto. Fui, então, fazer a “mágica” na aula da tarde. Lá estava eu, bem plena, vestida de mágica. Coloquei meu notebook na cozinha, virado para a pia, para que as crianças pudessem ver a mágica. Fui toda empolgada fazer a apresentação e pedi às crianças que falassem palavras mágicas. Elas estavam superansiosas. Aí, virei o copo com a mão e, quando a tirei pela primeira vez, a água caiu toda na pia! Falei para as crianças que isso aconteceu porque elas não haviam falado a palavra mágica com força e bem alto. Lá foram elas, então, ainda mais empolgadas. Falaram as palavras mágicas e, novamente, a água foi toda abaixo! Tentei pela terceira vez e não consegui! As crianças ficaram em êxtase e gargalhavam demais, rindo da mágica da pobre professora, que não deu certo nem por um decreto! (risos)

revistapontocom – O que você mais admira na maneira como a outra exerce a docência? Christiana Diniz – Admiro a humanidade e o carinho que ela demonstra no convívio com as crianças, a forma como se preocupa e trabalha pelo bem-estar delas e de toda a escola, além da garra com que enfrenta os obstáculos da profissão. Ela é resiliente e perseverante, e consegue sempre pensar em uma forma de reverter uma situação muito difícil. Thaís Diniz – Admiro a dedicação da minha mãe à profissão. Além das nove horas que passa na escola, ainda costuma levar trabalho para casa e passa os finais de semana trabalhando. É incansável na busca por exercer sua profissão com qualidade. Amo ver o carinho que ela tem por seus alunos. Ela sempre quer agradá-los, estabelece laços afetuosos, cuida e ajuda sempre. Vejo que, mesmo com 60 anos de idade e algumas limitações, ela se entrega e dá sempre o seu melhor à vida de professora, que não é fácil, mas ela persevera.

revistapontocom – Se pudesse definir em uma palavra o legado das professoras da sua família, qual seria? Por quê? Christiana Diniz – Transformação. Porque, apesar de todas as dificuldades que enfrentamos hoje no exercício da docência – pouca estrutura, falta de políticas públicas, desrespeito, desvalorização profissional, descrédito, agressão e violência -, acredito verdadeiramente que é pela educação que conseguimos transformar o mundo. O conhecimento nos faz enxergar e sentir que podemos criar, reconstruir, superar e conquistar. Ele é a luz que ilumina nossos caminhos quando essa luz se apaga e nos sentimos na mais completa escuridão. Thaís Diniz – Força. Somos mulheres fortes e potentes, carregamos em nossas histórias muitos sonhos, coragem para superar desafios e romper barreiras, e acreditamos em uma educação transformadora. Seguimos firmes em nosso propósito, fazendo a diferença na vida de tantas pessoas e também sendo transformadas por elas.

revistapontocom – Se pudesse deixar uma mensagem para a próxima geração de professoras da família, o que diria? Christiana Diniz – Ensinar é um ato de amor. Faz tanto bem a quem aprende e melhora ainda mais quem ensina, porque o amor inspira o ser humano a realizar feitos grandiosos na vida. Acredite que você pode plantar apenas uma sementinha e que dela pode crescer uma grande árvore, que frutificará e, por muito tempo, produzirá bons frutos. E, se frutos não forem produzidos, ela produzirá uma grande sombra que acolhe. Acredite que você pode ser uma das grandes transformadoras desta vida. Thaís Diniz – Não vai ser fácil, nunca é. Mas você é capaz, você pode ajudar a melhorar este mundo. Cada coisa que você faz pode parecer pouco, mas é gigante. Valorize-se, ame sua profissão e não espere que ninguém reconheça seu valor para que você mesma o reconheça. Você é importante, deixou e deixa marcas na vida de alguém, deu um abraço de que aquela pessoa precisava em algum momento, fez aquela criança sorrir em um dia difícil, deu amor a um aluno que não tem isso em casa. Cada gesto de um professor deixa marcas para sempre. Siga o caminho do afeto e jamais irá se arrepender.

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