Quando ser professora atravessa gerações: uma lição de afeto, compromisso e transformação

Mãe e filha: gerações de mulheres que a educação transformou.

Especial Dia do Professor: conheça a história de Mara Carvalho e Helena Costa, gerações transformadas pela Educação.

Por Marcus Tavares

Mara Carvalho e Helena Costa compartilham mais do que os laços familiares: dividem a escolha pela docência e a defesa da escola pública. Mãe e filha representam gerações de mulheres que encontraram na educação um caminho para transformar vidas, construir oportunidades e manter vivo um sonho que começou muito antes de Helena entrar em uma sala de aula como professora.

Mara Carvalho e Helena Costa.

No Dia do Professor, celebrado em 15 de outubro, a história das duas nos convida a olhar para a docência para além dos quadros, dos cadernos e dos conteúdos ensinados. Há heranças que não cabem nos livros didáticos: o compromisso com os estudantes, o respeito ao conhecimento, a capacidade de acolher e a convicção de que a educação pode contribuir para uma sociedade mais justa. Na família de Mara e Helena, essa herança tem nome, memória e continuidade.

Mara Carvalho e Helena Costa.

Em uma conversa com a revistapontocom, mãe e filha relembram as influências que marcaram suas escolhas, compartilham experiências e refletem sobre o que mudou – e o que permanece essencial – na profissão. Entre as lembranças, uma história chama a atenção: o sonho de uma avó que desejava ser professora, mas não teve a oportunidade de realizar esse desejo. Ela acabou encontrando nas filhas um caminho para manter esse sonho vivo. Décadas depois, a docência segue atravessando gerações da família, reafirmando que algumas vocações também são feitas de memória, inspiração e afeto.

Mara Carvalho e Helena Costa.

Mara Jane Felippe Oliveira de Carvalho – Graduação em Pedagogia. Aposentada pela SME/RIO.}

Helena Mayara de Oliveira Costa – Graduação em Pedagogia e Direito e Mestre em Educação pela UERJ. Atualmente gestora do Programa Hortas Escolares da SME-RIO

Confira a entrevista:

revistapontocom – Como começou a história das professoras na família? O que levou ou influenciou cada uma a ser professora? Mara Carvalho – Minha mãe não teve oportunidade de concluir o Ensino Fundamental, mas nos contava sobre seu desejo de ser professora, caso tivesse tido oportunidade. Ela incentivou a mim e às minhas irmãs a seguir na profissão, e acredito que essa foi a mais bela escolha. A atuação na rede pública de ensino oportunizou vivências educacionais que constituíram minha atuação profissional. Minha filha segue na carreira do magistério, fazendo a diferença e contribuindo para a Educação da Rede Municipal do Rio de Janeiro. Helena Costa – Fui aluna da rede pública de ensino por toda a minha vida escolar, tendo a oportunidade de estudar no CIEP em que minha mãe atuava como professora. Além dessa convivência, lembro-me de quando estava na 4ª série e precisei realizar, como tarefa de casa, uma entrevista com uma pessoa da família. Escolhi minha avó para essa conversa. Recordo-me de ela contar sobre seu sonho de ser professora e de que, mesmo não conseguindo realizá-lo, o materializava por meio das filhas. Acredito que esse sonho transbordou até os netos, pois minha avó, minha mãe e minhas tias se tornaram referências para mim na escolha dessa profissão.

A avó/mãe Glória.

revistapontocom – Qual é a lembrança mais marcante do início na profissão? Mara Carvalho – Acredito que ter vivenciado o processo de inauguração de um CIEP, em 1985, na Rede Municipal do Rio de Janeiro, fez toda a diferença em minha formação profissional. Participei da implementação de uma política pública que se definia pelo afeto, pela gestão participativa e pela qualidade da proposta pedagógica. Helena Costa – Meus primeiros anos atuando como professora foram justamente no CIEP em que estudei. Quando cheguei, fui acolhida por professoras que atuavam na escola desde a minha infância. Encontrei até minha “tia” Regina, que me deu aula na 2ª série. Essas professoras se sentiram orgulhosas em me apresentar como fruto da escola pública.

revistapontocom – O que mudou na escola e na maneira de ensinar de uma geração para outra? Mara Carvalho – Acredito que a escola não mudou; o que muda são as políticas públicas e as propostas pedagógicas, definidas a partir do olhar dos gestores que têm a responsabilidade de implementá-las. Helena Costa – Considero a tecnologia digital uma das mudanças geracionais na forma de ensinar e de aprender. A escola tem se empenhado para que essas novas tecnologias dialoguem com os processos de aprendizagem, sem renunciar à nossa relação com a natureza, com a cultura e com os nossos saberes ancestrais.

revistapontocom – E o que não mudou? Que características da profissão continuam as mesmas? Mara Carvalho – Quanto à profissão, penso que os professores seguem acreditando nas possibilidades de aprendizagem e desenvolvimento dos alunos, trabalhando com afeto e compromisso com uma Educação de qualidade. Helena Costa – O compromisso de oferecer uma educação pública de qualidade e equânime é algo que, acredito, não pode ser alterado no cerne da nossa profissão. Tenho a honra de, ao longo dos 23 anos de atuação no magistério, acompanhar o trabalho de professores e professoras que se dedicam a atuar pedagogicamente com excelência em benefício dos nossos alunos.

revistapontocom – Vocês costumam trocar experiências sobre a escola em casa? Já aprenderam alguma coisa umas com as outras? Helena Costa – Sim, pensar sobre Educação faz parte do cotidiano do professor. Como minhas tias também são professoras, a pauta da educação sempre está presente nas nossas rodas de conversa. Nesses momentos, respeitando todo o conhecimento da minha ancestralidade e dos meus mais velhos, aprendo sobre a reverência que a minha família tem pela escola pública. Aprendo sobre o compromisso com nossos alunos e suas famílias e sobre o papel que a escola tem na vida de cada um deles.

revistapontocom – O que você mais admira na maneira como a outra exerce a docência? Mara Carvalho – Admiro o compromisso, o inconformismo, a busca pela transformação da educação e da sociedade e o afeto pelos alunos. Helena Costa – Admiro o trabalho e respeito tudo o que ela construiu enquanto professora. Compartilho essa admiração com todas as pessoas que tiveram a oportunidade de trabalhar com minha mãe, pois, mesmo depois de aposentada, ela continua sendo referência profissional para muitas pessoas.

revistapontocom – Se pudesse definir em uma palavra o legado das professoras da sua família, qual seria? Por quê? Mara Carvalho – Afeto. Em todos os anos em que trabalhei, fui movida pelo afeto. Busquei conhecer e reconhecer cada aluno, cada responsável e cada profissional que passou pela minha história, agindo com respeito, compromisso e responsabilidade. Helena Costa – Acolhimento. Aprendi com a minha família que a educação é feita por todos. O cotidiano da escola precisa ser marcado pela escuta, pela troca, pelo respeito e pelas aprendizagens.

revistapontocom – Se pudesse deixar uma mensagem para a próxima geração de professoras da família, o que diria? Mara Carvalho e Helena Costa – Continuem acreditando que a educação, por meio de ações pedagógicas de qualidade, pode instrumentalizar nossos alunos para que contribuam de forma significativa para uma sociedade com consciência coletiva.

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