Projeto foi desenvovido no âmbito do Programa Esse Rio é Meu e do Programa Leitura e Escrita na Educação Infantil (ProLEEI).
Por Marcus Tavares
Um livro infantil sobre um rio e seus jacarés foi o ponto de partida para crianças do CIEP 138 Municipalizado Dauta Jobert Barreto, em São João de Meriti, investigarem os rios do município e refletirem sobre a relação da comunidade com o meio ambiente. A experiência resultou na exposição Esse Rio é Nosso, construída a partir do trabalho desenvolvido pela turma Pré 1B e pelas turmas 41A e 41B.
Tudo partiu da aplicação do Programa Leitura e Escrita na Educação Infantil (ProLEEI) e do programa Esse Rio é Meu implantado neste ano na unidade. Para começar, a equipe realizou uma pesquisa cultural com os responsáveis pelas crianças da turma Pré 1B para conhecer os espaços e as atividades culturais frequentados pelas famílias, como cinemas, bibliotecas, museus e teatros, além do acesso aos livros.
O levantamento revelou que muitas famílias tinham interesse em conhecer e frequentar esses espaços, mas, por diferentes motivos, não conseguiam. Algumas não conheciam os equipamentos culturais existentes próximos de suas casas, não sabiam sobre horários e dias gratuitos ou encontravam dificuldades financeiras.

A partir desse diagnóstico, a escola buscou proporcionar experiências culturais dentro da própria unidade. Como o trabalho do ProLeei deveria partir de uma obra literária, a turma Pré 1B trabalhava naquele momento com o livro O Rio dos Jacarés, de Gustavo Houldan. Foi a história que abriu caminho para aproximar a literatura da realidade das crianças e do Esse Rio é Meu.
Na narrativa, um homem chega ao Rio dos Jacarés afirmando que comprou o rio e pretende retirar os jacarés que vivem ali. O próprio animal questiona a situação e provoca uma reflexão sobre a ideia de propriedade de um rio. Afinal, a água corre, passa e segue seu caminho. A pergunta passou a ser: como levar essa história para a realidade das crianças?

Resposta: trazer os rios da região para o debate. Neste sentido, o Rio Meriti e o Rio Sarapuí passaram a fazer parte das conversas. As crianças começaram a discutir o que acontece com esses cursos d’água, levantando questões como o descarte de lixo, móveis jogados nos rios e o lançamento de esgoto.
Durante as pesquisas, também encontraram relatos de pessoas que disseram ter visto jacarés, além de pássaros e peixes, nesses rios. A descoberta chamou a atenção das crianças e ampliou a percepção sobre os cursos d’água. O rio deixou de ser compreendido apenas como um lugar por onde passa a água e passou a ser visto como um ambiente que abriga vida e do qual diferentes animais dependem.

A história de O Rio dos Jacarés também ganhou uma versão criada pelas próprias crianças. A turma produziu uma pequena peça de teatro baseada no livro, mas adaptada à realidade dos rios do município. A apresentação foi exibida durante a exposição.
“O projeto levou a uma reflexão sobre o lixo produzido no cotidiano. Na sala de aula, as crianças passaram a guardar embalagens que traziam, como pacotes de biscoito, garrafinhas e outros materiais, para pensar sobre o que poderia ser feito com aquilo. O que seria descartado começou a ganhar outra função e virou matéria-prima para as obras de arte produzidas pelas crianças”, explica a professora Helen Guimarães, quem criou e desenvolveu todo o trabalho ao lado da agente educativa, Juliana Alvarenga.

As duas participaram da concepção, planejamento, criação, design e organização da exposição. A mediadora Clara Guimarães também integrou a equipe responsável pela turma e participou do desenvolvimento das atividades e da mediação com as crianças.
O trabalho da exposição também contou com a parceria e o engajamento das turmas 41A e 41B. As professoras Simone Soares e Mônica Braga trabalhavam com os estudantes questões relacionadas à reciclagem e à preservação ambiental. “A participação das duas turmas transformou a exposição em um trabalho coletivo, reunindo diferentes idades, olhares e formas de abordar a preservação da natureza”, explica Helen.
A equipe gestora do CIEP 138, formada pela diretora-geral Márcia Perini, pela diretora Vanessa Oliveira e pelo coordenador Diogo Otávio, também apoiou o desenvolvimento da proposta.
Ao longo do projeto, as crianças ampliaram a compreensão sobre a importância de cuidar do meio ambiente e perceberam que pequenas atitudes do cotidiano também fazem parte da preservação da natureza.
A reutilização de materiais descartados foi uma das experiências centrais. Ao transformar embalagens e outros resíduos em obras de arte, as crianças trabalharam questões relacionadas à responsabilidade, ao pertencimento e ao cuidado com o lugar onde vivem.

O processo também envolveu pinturas, recortes, colagens e construções com diferentes materiais, estimulando a coordenação motora e a percepção artística e estética. Cores, formas e texturas passaram a fazer parte das possibilidades de criação a partir de objetos que seriam descartados.
As atividades também estimularam a oralidade, a imaginação, a expressão de ideias e sentimentos, a interação e o trabalho coletivo. As crianças pesquisaram, fizeram perguntas, criaram, experimentaram e encontraram diferentes maneiras de representar aquilo que estavam aprendendo.
confira os podcasts produzidos
episódio 1
episódio 2
Para Helen Guimarães, professora e escritora, o projeto representa sua segunda experiência com estudantes da rede municipal de São João de Meriti dentro de uma temática socioambiental. O primeiro trabalho foi desenvolvido em parceria com a CEADS, a Universidade do Ambiente e a UERJ.
“Mais do que produzir uma exposição, a proposta buscou provocar uma mudança no olhar das crianças para o ambiente ao redor: perceber os problemas, compreender suas responsabilidades e reconhecer que também podem participar das mudanças. Nesse percurso, a literatura foi o ponto de partida. A história de um rio e seus jacarés levou as crianças a olhar para os rios de sua própria cidade. E o lixo, que inicialmente seria descartado, ganhou outro destino: transformou-se em matéria-prima para contar, por meio da arte, o que elas descobriram sobre o território onde vivem”, finaliza a professora.



