Na Cidade de Deus, crianças do EDI Jardim do Amanhã saem da escola para investigar o Rio Grande e cuidar do território

Confira o trabalho da instituição.

Atividades estão relacionadas ao Projeto Pedagógico Anual e ao Programa Esse Rio é Meu, desenvolvido no EDI Jardim do Amanhã, desde 2022.

Por Marcus Tavares

Sair dos muros da escola, caminhar pelo território, observar o Rio Grande, identificar a presença de lixo e conversar sobre o que pode ser feito para cuidar do lugar onde vivem. No EDI Jardim do Amanhã, na Cidade de Deus, essas experiências fazem parte do trabalho desenvolvido pelo programa Esse Rio é Meu desde 2022. Neste ano, as ações do Esse Rio é Meu se interligaram ao projeto pedagógico anual que tem como tema Teko-Porã: artes do Brasil, articulando arte, cultura, identidade, natureza e pertencimento.

O projeto parte de situações vivenciadas pelas crianças no cotidiano da unidade e no território e tem como eixo o cuidado com o meio ambiente, a sustentabilidade e a construção de uma consciência coletiva. As crianças são convidadas a observar, investigar, fazer perguntas e propor ações relacionadas aos espaços onde vivem.

O trabalho é desenvolvido ao longo do ano e integrado às propostas pedagógicas das turmas de Maternal 1, Maternal 2 e Pré-Escola, com a articulação da equipe gestora, participação das funcionárias terceirizadas, das crianças e de suas famílias. Nem todas as atividades acontecem com todas as turmas ou ao mesmo tempo. As propostas são organizadas de acordo com as características de cada faixa etária, mas mantêm um fio condutor: o cuidado com o território e com o Rio Grande.

Uma das primeiras frentes de trabalho envolve a reciclagem. A comunidade escolar é convidada a levar materiais recicláveis para o EDI. Os materiais são reunidos, organizados e posteriormente encaminhados para reciclagem. A proposta permite que as crianças compreendam que aquilo que seria descartado pode ter outro destino.

O cuidado com as plantas também faz parte das experiências. As crianças observam o canteiro da unidade, regam as plantas, acompanham seu crescimento e observam os insetos e as transformações que acontecem ao longo do tempo. A experiência aproxima os pequenos dos ciclos da natureza por meio da observação e da vivência.

A partir das conversas e descobertas, as crianças produziram desenhos que deram origem a cartazes e panfletos com mensagens sobre o descarte correto do lixo e os cuidados com o meio ambiente.

Foi com esse material que elas saíram da escola. Durante uma caminhada pelo território até o Rio Grande, levaram os cartazes e panfletos e cantaram versos de conscientização sobre o descarte irregular de resíduos para compartilhar as mensagens com a comunidade.

No percurso, puderam observar o território para além dos muros do EDI e identificar situações relacionadas ao descarte inadequado de lixo. Ao chegar ao Rio Grande, encontraram a presença de resíduos e a observação provocou novas conversas e questionamentos sobre os impactos das ações humanas e a importância de cuidar dos rios e dos espaços coletivos.

A caminhada também incluiu uma visita à horta da E. M. Joaquim Fontes. As crianças conheceram diferentes hortaliças, observaram o cultivo, fizeram perguntas e participaram de um momento de troca e partilha. Algumas hortaliças produzidas no espaço foram levadas para a escola e consumidas no almoço.

A literatura também passou a integrar as experiências do projeto. As crianças participaram de uma contação de história do livro infantil Casa suja e chão sujo, produzido por crianças. A atividade contou com a presença da autora, Mariana Moraes Machado, e da ilustradora, Manuela Moraes Machado, que doaram exemplares à unidade e participaram de uma sessão de autógrafos.

A experiência aproximou as crianças da literatura e ampliou as conversas sobre o cuidado com os espaços onde vivem, relacionando a narrativa às situações observadas no território.

Para Adriana Passos, diretora, e Luciana Ferreira, diretora adjunta do EDI Jardim do Amanhã, a proposta não é apenas falar sobre preservação ambiental, mas proporcionar experiências concretas para que as crianças possam observar, investigar, questionar, criar e participar de ações reais. Nesse processo, elas levantam hipóteses, fazem perguntas, produzem desenhos, cuidam das plantas, ajudam na separação dos materiais recicláveis e compartilham suas ideias com a comunidade.

A intenção é que percebam que suas ações e ideias podem contribuir para transformar o lugar onde vivem. Entre as descobertas está a compreensão de que o lixo não desaparece simplesmente quando é descartado e de que a maneira como as pessoas cuidam dos materiais e dos espaços interfere diretamente no ambiente.

As crianças também conhecem possibilidades de reaproveitamento e reciclagem, aprendem sobre o cultivo de plantas e percebem que os alimentos podem ser produzidos a partir do cuidado com a terra. Uma das descobertas consideradas mais significativas pela equipe é justamente a percepção de que as crianças têm voz e podem participar do cuidado com o território. Segundo Adriana e Luciana, a participação das famílias ocorre especialmente por meio da coleta de materiais recicláveis. Elas levam os materiais ao EDI, que os reúne e encaminha para reciclagem.

A equipe gestora acompanha o desenvolvimento das propostas, articula as ações e cria condições para que as experiências aconteçam. Para a direção, o projeto ganha ainda mais sentido quando envolve crianças, profissionais, famílias e comunidade.

As experiências também vêm mobilizando os adultos da escola e levando as questões ambientais para o cotidiano do EDI. Segundo a direção, as crianças passaram a observar com mais atenção situações relacionadas ao lixo, às plantas e aos espaços que frequentam.

Como o trabalho continua em desenvolvimento, a escola não definiu uma única culminância. Em vez disso, vem criando momentos de compartilhamento e socialização das experiências. A caminhada até o Rio Grande e a contação de história de Casa suja e chão sujo foram alguns desses momentos. Para a equipe, mais importante do que uma apresentação final é construir experiências que façam sentido para as crianças: sair da escola, olhar para o território e compartilhar com outras pessoas aquilo que estão aprendendo e produzindo.

O EDI Jardim do Amanhã atende 51 crianças da Educação Infantil, de 2 a 4 anos, e está inserido na Cidade de Deus. A unidade desenvolve projetos relacionados à infância, ao brincar, às artes, à inclusão, à sustentabilidade, à leitura, à relação com as famílias e à valorização do território.

Para a direção, um dos principais resultados do projeto é mostrar que o cuidado com o meio ambiente pode ser vivido pelas crianças de maneira concreta, afetiva e significativa, envolvendo investigação, literatura, arte, participação e relação com o território.

Para as crianças, a experiência amplia o olhar sobre o lugar onde vivem. Elas observam situações, fazem perguntas e começam a compreender que também podem participar de sua transformação.

Para os professores, o projeto reforça a importância de escutar as crianças e transformar suas curiosidades e observações em experiências pedagógicas. Também evidencia o território como espaço de aprendizagem.

Na escola, a proposta vem fortalecendo uma cultura de cuidado, participação e responsabilidade coletiva. A reciclagem, o canteiro e as ações de conscientização deixam de ser atividades pontuais e passam a integrar o cotidiano do EDI. De acordo com Adriana e Luciana, o Esse Rio é Meu representa uma oportunidade de aproximar as crianças do território e fazê-las perceber que fazem parte dele e podem contribuir diariamente para seus cuidados.

“O Rio Grande, nesse contexto, deixa de ser apenas um elemento da paisagem. Passa a ser compreendido como parte da vida da comunidade e como um espaço que merece cuidado, respeito e preservação. Para o EDI, significa ampliar os muros da escola. As aprendizagens não ficam restritas às salas e aos espaços internos: as crianças vão para o território, observam, investigam, conversam com a comunidade e compartilham aquilo que produzem. A experiência reforça uma percepção que atravessa todo o projeto: mesmo pequenas, as crianças têm muito a dizer sobre o mundo e podem participar de sua transformação. Educar para o cuidado com o meio ambiente, nesse sentido, também é educar para a participação, o pertencimento e a responsabilidade com o lugar onde se vive”, finaliza Adriana e Luciana.

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