‘O professor é um mediador’: Suzana Barros Coelho Fernandes fala sobre os desafios de ensinar em um mundo em transformação

Fala, Mestre! Entrevista com a professora Suzana Barros Coelho Fernandes.

Com 31 anos de magistério, Suzana Barros Coelho Fernandes discute inclusão, tecnologia, desigualdades e as mudanças no papel de quem ensina e afirma que o professor também se transforma na relação com os estudantes.

Por Marcus Tavares

Aos 11 anos, Suzana Barros Coelho Fernandes decidiu que seria professora de música. Aos 50, depois de 31 anos de magistério, a decisão da infância ganhou novos contornos: hoje, ela é coordenadora pedagógica da rede municipal do Rio de Janeiro, mestre em Novas Tecnologias Digitais na Educação, musicista, musicoterapeuta e pedagoga. Sua trajetória reúne experiências em sala de aula, formação de professores, gestão escolar e educação inclusiva — e revela também as mudanças pelas quais passou a própria profissão docente.

Neste entrevista para a revistapontocom, Suzana fala sobre o que aprendeu com os estudantes, os limites e as possibilidades da escola diante das desigualdades sociais e as transformações em sua maneira de ensinar. A música, presente desde o início de sua carreira, aparece como linguagem pedagógica e como instrumento de bem-estar. As tecnologias digitais também entraram em seu percurso, especialmente a partir da pandemia, quando buscou novos conhecimentos e ingressou no mestrado. “Passei a olhar cada vez mais para a forma como o aluno aprende, e não apenas para a maneira como o professor ensina”, afirma.

Professora e coordenadora com seus pares.

Ao revisitar sua trajetória, Suzana também fala sobre inclusão, diversidade, educação antirracista e o papel do professor em uma sociedade em transformação. Para ela, ensinar exige preparo intelectual, atualização e, sobretudo, capacidade de escuta. “O professor é um mediador. Ele orienta, mas também aprende com os estudantes”, diz. E, diante das dificuldades que chegam diariamente às escolas, mantém uma convicção: “Somos formiguinhas fazendo um trabalho grandioso”.

Música: a paixão eterna ao lado do magistério.

Confira:

revistapontocom: Quem é a professora Suzana por trás da sala de aula?
Suzana Barros Coelho Fernandes: Sou filha primogênita de Gercé e Lyriam e construí minha trajetória sempre muito ligada ao conhecimento. Estudei no tradicional Colégio Pedro II, passei por duas universidades públicas e fui a primeira pessoa da minha família a concluir um mestrado. A música entrou muito cedo na minha vida. Aos 11 anos, inspirada pelas aulas encantadoras da professora Jael Santana no coral da igreja, decidi que seria professora de música. Aos 13, comecei a estudar piano com o professor Noé Ramos Pinheiro e, aos 18, já estava registrada na Ordem dos Músicos do Brasil e ingressando na graduação em Pedagogia. Minha trajetória sempre caminhou entre a educação e a música. Lecionei durante muitos anos, formei futuros professores e fui aprovada em concursos públicos. Durante a pandemia, percebi que precisava ampliar minha formação e me instrumentalizar para trabalhar com as novas tecnologias digitais aplicadas à educação. Foi quando ingressei no mestrado. Mais recentemente, encontrei na musicoterapia uma área que dá fundamentação a práticas que eu já desenvolvia empiricamente e que também me prepara para atuar com estudantes da educação especial. Tenho 50 anos, sou casada há 28 anos com Luiz Carlos Fernandes e tenho muito orgulho dos meus filhos, Amanda, que é musicista e professora, e Gabriel, estudante e atleta de tênis de mesa.

Família sempre unida.
O filho Gabriel estudou na EM Octavio Frias de Oliveira. “É confiar no trabalho realizado pela equipe”.
Amanda nos passos da mãe. Professora do Villa-Lobos e mestranda em música (UFRJ).

revistapontocom: Qual é hoje a sua função? Quantos estudantes já vivenciaram suas aulas?
Suzana Barros Coelho Fernandes: Atualmente, sou coordenadora pedagógica da Escola Municipal Octavio Frias de Oliveira, no Anil, em Jacarepaguá, na rede municipal do Rio de Janeiro. Ao longo da minha carreira, estimo que cerca de 12 mil estudantes e professores tenham sido impactados pelo meu trabalho, seja nas aulas de música, seja nas atividades pedagógicas e de gestão escolar.

revistapontocom: Quando você decidiu ser professora?
Suzana Barros Coelho Fernandes: Decidi aos 11 anos, depois de vivenciar as aulas da professora Jael Santana. Fiquei fascinada pelo universo da música e pelo modo como ela conseguia nos envolver. Aos 13, comecei a estudar piano e, aos 18, já conciliava a formação em Pedagogia com minha trajetória como musicista. Desde muito cedo, portanto, educação e música passaram a fazer parte do mesmo caminho para mim.

Aula de música para o Ensino Fundamental.

revistapontocom: Você se lembra da primeira vez que entrou em uma sala de aula como professora?
Suzana Barros Coelho Fernandes: Sim. Foi a realização de um sonho antigo: ensinar música na rede municipal. Minha posse demorou dois anos, e essa espera fez com que a emoção de finalmente estar diante dos alunos fosse ainda maior. Entrar naquela sala significava concretizar algo que eu havia desejado desde menina.

revistapontocom: Houve algum aluno ou experiência que marcou sua vida?
Suzana Barros Coelho Fernandes: Foram muitos momentos. Um deles foi dar aulas de instrumentos musicais para três alunos com deficiência visual congênita que chegaram a participar de apresentações. Também me marcou muito alfabetizar um feirante adulto e acompanhar o processo de recuperação de sua autoestima. Outro momento importante foi ver alunos conquistarem aprovação em concursos públicos. Cada uma dessas experiências reforçou em mim a certeza de que a educação pode transformar vidas.

Na Educação Infantil, trazendo a musicalidade.

revistapontocom: O que os seus alunos ensinaram a você?
Suzana Barros Coelho Fernandes: Eles me ensinaram que a educação é capaz de mudar destinos e que a música pode ser um poderoso instrumento de bem-estar. Ver uma criança conseguir ler pela primeira vez ou tocar suas primeiras notas é uma experiência muito forte. Essas conquistas fortalecem não apenas o estudante, mas também o professor e a própria escola. Eu aprendo continuamente com os meus alunos.

revistapontocom: Quais foram os momentos mais difíceis da sua trajetória?
Suzana Barros Coelho Fernandes: Os momentos mais difíceis estão relacionados às mazelas sociais que chegam à escola e que, muitas vezes, não conseguimos resolver sozinhos. Com o tempo, aprendi a reconhecer os limites do nosso campo de atuação. Não conseguimos transformar toda a realidade, mas podemos transformar a realidade daquele grupo, daquela criança, daquele estudante que está diante de nós. Somos formiguinhas fazendo um trabalho grandioso.

Participação de todas e todos no cotidiano escolar.

revistapontocom: O que mudou na sua maneira de ensinar ao longo desses 31 anos de magistério?
Suzana Barros Coelho Fernandes: Continuo me emocionando com cada conquista dos estudantes, mas minha maneira de trabalhar mudou muito. Hoje, utilizo metodologias ativas, recursos musicais, jogos e tecnologias digitais. Passei a olhar cada vez mais para a forma como o aluno aprende, e não apenas para a maneira como o professor ensina. Trabalho também com a perspectiva do planejamento reverso, partindo do resultado que desejo alcançar para, então, definir os caminhos pedagógicos necessários.

revistapontocom: O que significa ser professora hoje?
Suzana Barros Coelho Fernandes: Ser professora hoje é resistência. Vivemos em uma sociedade marcada pelo individualismo e pela desvalorização profissional, e, nesse contexto, continuar educando exige disposição para enfrentar desafios. Ser professora também significa dar voz às pessoas com deficiência, empoderar meninas, valorizar a representatividade indígena e negra e acreditar no poder transformador da educação diante das desigualdades e das violências.

Diálogo contínuo com a comunidade escolar.

revistapontocom: Qual é o papel do professor em um mundo em transformação?
Suzana Barros Coelho Fernandes: O professor é um mediador. Ele orienta, mas também aprende com os estudantes. Para mim, o sentido pleno da profissão está justamente nessa relação. É na troca, no diálogo e na convivência que o conhecimento é construído. O professor não é alguém que apenas transmite conhecimento; ele também se transforma nesse processo.

Trocas e experiências com a Clínica da Família na escola.

revistapontocom: Que características um bom professor precisa ter?
Suzana Barros Coelho Fernandes: É fundamental desenvolver habilidades socioemocionais para lidar com os desafios cotidianos da educação. Também é necessário ter domínio da área em que atua e manter-se em constante atualização. Vivemos em uma perspectiva de aprendizagem ao longo da vida, e o professor precisa ser, antes de tudo, um aprendiz permanente.

Contato próximo aos responsáveis dos estudantes.

revistapontocom: O que ainda faz você acreditar que vale a pena ser professora?
Suzana Barros Coelho Fernandes: O brilho nos olhos dos estudantes. Eu me vejo neles: jovens cheios de sonhos, curiosidade e vontade de descobrir o mundo. É esse olhar que me motiva a continuar dando o melhor de mim.

revistapontocom: Que mensagem você deixaria para os professores que estão começando?
Suzana Barros Coelho Fernandes: Preparem-se intelectualmente e ampliem seus repertórios metodológicos. Atualizem-se em relação às tecnologias e, principalmente, lembrem-se de que cada aluno é único. Busquem práticas inclusivas, conheçam as diferentes deficiências, trabalhem com foco em uma educação antirracista e desenvolvam empatia, escuta atenta e autoconhecimento. A educação socioemocional é essencial. Mais do que ensinar conteúdos, precisamos estar preparados para compreender quem são os estudantes que estão diante de nós e quais caminhos podem ajudá-los a aprender.

Na escola, na sala de trabalho da coordenação.
Dia de festa. Aniversário comemorado com as crianças.

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